quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Jantar Secreto - Raphael Montes




Sinopse

Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que sequer cogitavam existir em cada um deles.

Resenha

Apesar de ser um grande fã do Raphael, relutei muito em comprar esse livro pelo fato que canibalismo não está entre meus temas preferidos. Não tenho estômago pra essas coisas e só essa capa, apesar de muito bem elaborada, me dava náuseas. E, julgando um livro sem nem ler a sinopse, decidi que pularia essa obra do autor. Mas depois de passar muitas vezes por ele na Livraria Cultura sem me dignar a sequer dar uma folheada, resolvi dar uma espiada na sinopse e foi o suficiente para me seduzir. A história de quatro jovens estudantes que dividiam um apartamento no Rio, passando por dificuldades financeiras e os infortúnios que os levariam a se envolver com jantares de carne humana era irresistível. Os quatro protagonistas, amigos de infância, não poderiam ser mais diferentes e o autor faz questão de ressaltar as peculiaridades da personalidade de cada um deles. Até mesmo os cursos que faziam eram completamente diversos, mas as habilidades de cada um seriam fundamentais para a série de acontecimentos bizarros que estavam por vir. Dante, o administrador de empresas gay, narrador da trama; O ético estudante de Medicina Pedro; O vaidoso chefe de cozinha Hugo e o obeso técnico de TI, Leitão.

É impressionante a maneira como as vidas desses quatro rapazes vira  do avesso de uma hora para outra e como uma situação crítica vai conduzindo à outra, numa comédia de erros macabra, que à cada capítulo os embaraça numa verdadeira teia. Quando você acha que desceram ao fundo do poço, tem sempre um pouco mais a se afundar. O livro tem muitas reviravoltas, muitas delas imprevisíveis, que só aguçava minha curiosidade em saber onde aquele rio de sangue ia levar.

E por falar em sangue, Raphael não nos poupa dos detalhes mais repulsivos. Todo o processo de consumo de carne humana é descrito em minúcias, do corte da carne, passando pelo preparo até a degustação. A naturalidade com a qual a carne humana é tratada como uma iguaria chega a dar calafrios. A maneira cínica como alguns personagens encaram os jantares secretos, a perversidade e o desprezo pela vida humana me enojaram. E me senti mal com as cenas de extrema violência, na qual seres humanos eram tratados como presas de uma caçada covarde.

O livro dosa muito bem o horror, o suspense e também o humor, tudo isso temperado com muitas referências da cultura pop, todas elas pertinentes ao enredo. Tudo é muito atual, com termos como Netflix, Uber e Masterchef surgindo à todo momento. Uma linguagem moderna, incluindo até mesmo um capítulo no whatsapp. O autor dá uma brasilidade deliciosa aos personagens, mostrando que o termo tupiniquim não precisa ser pejorativo. Os conflitos entre os protagonistas vão se adensando até que uma amizade de infância se transforme numa rivalidade, um jogo de vida e morte, onde as divergências entre eles cria uma atmosfera de tensão crescente. Quanto ao final, confesso que foi previsível, mas em partes. Acertei umas coisas, outras não, mas o autor não deixa pontas soltas. O autor conseguiu mais uma vez se superar, criando um livro que, sem trocadilho, merece ser devorado.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sete vingadoras de Sidney Sheldon

Para comemorar o centenário de Sidney Sheldon, não há melhor homenagem do que falarmos daquilo que ele fazia de melhor: criar heroínas movidas pela sede de vingança. É claro que essa não era a única matéria prima de seus livros, embora muitos críticos digam o contrário. Mas boa parte de seus melhores enredos se baseavam em mulheres vingativas, que faziam as páginas virarem sozinhas com seus planos mirabolantes.


Noelle Page

Um amor pode se transformar em ódio, principalmente quando um homem conquista o coração de uma jovem inocente, para logo depois destruir suas ilusões. Mas essa decepção só tornou Noelle mais forte. O desejo de vingança a impulsionou a se tornar uma das mulheres mais famosas do mundo até chegar a hora de acertar as contas com seu passado.


Lúcia Carmine

Lúcia nunca foi um exemplo de garota comportada, tanto que um de seus passatempos era dar uns pegas no segurança da família. Mas sua vida de diversão acaba quando seu pai é acusado de inúmeros crimes e ela se vê privada de toda a segurança, glamor e conforto. Porém ela não deixa essa afronta passar batida e vai atrás dos responsáveis pela ruína de sua família. E para Lúcia, o fato de que seu pai era um dos maiores mafiosos da Itália não faz nenhuma diferença.


Melina Demiris

Depois de sofrer muito com as humilhações do marido, o poderoso armador Constantin Demiris, Melina se cansa da opressão, das traições e do desprezo com os quais convive há anos e decide dar o troco. Para se vingar do marido ela é capaz de um ato drástico, uma decisão da qual não terá como voltar atrás. Mas será que ela teria alguma chance contra um homem tão implacável?


Jill Castle

Josephine passou maus bocados quando foi pra Hollywood tentar a vida como atriz. Numa selva onde os mais fracos não tem nenhuma chance, ela teve de lidar com todo o lado podre do showbizz. Mas sua sorte mudou, ela se tornou Jill Castle e quando se viu no topo, tratou de revidar as ofensas, rejeições e humilhações pelas quais passou. Até o momento em que mexeu com a pessoa errada e descobriu que quem tem telhado de vidro deve se cuidar.


Tracy Whitney

No início ela só queria justiça. Mas caiu numa armadilha e teve de amargar um terrível período na prisão. Porém, a vida é imprevisível e num capricho do destino ela se vê diante da oportunidade de se vingar. Mas a carreira de vingadora é apenas o início para a grande aventura que é  a vida dessa formidável heroína.


Leslie Stewart

Ser trocada por outra é muito ruim, mas quando se descobre isso através dos jornais é muito pior. Leslie era inteligente, bonita e sensual. E se seus atributos não eram o suficiente para manter o homem que amava ao seu lado, ela os usaria para destruí-lo.


Toni Prescott

É preciso muito cuidado para falar desse livro sem soltar spoilers, por isso, apesar de eu ser o mais evasivo possível, recomendo que quem ainda não leu pelo menos a primeira parte, pule essa personagem. Marcada por um segredo horrível em seu passado, Toni se tornou uma mulher arredia, sempre na defensiva e com uma enorme incapacidade de manter qualquer tipo de relacionamento. E a única maneira de diminuir a dor que a corroía era se vingando daqueles que, em sua mente, representavam o mundo que ela abominava. Seria uma vingança até compreensivel, se ela não direcionasse sua ira para os alvos errados.



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sob a Redoma - Stephen King


Sinopse

Num dia como outro qualquer a pequena cidade de Chester’s Mill, no Maine, é subitamente isolada do resto do mundo por um campo de de força invisível. Para piorar a situação, James “Big Jim” Rennie, político dissimulado e um dos três membros do conselho executivo da cidade, usa a redoma como um meio de dominar a cidade. O isolamento expõe os medos e as ambições de cada um, até os sentimentos mais reprimidos. Assim, enquanto correm contra o pouco tempo que têm para descobrir a origem da redoma e uma forma de desfazê-la, ainda terão de combater a crueldade humana em sua forma mais primitiva.

Resenha

Como já comentei com vocês em outro post, Sob a Redoma é o livro não lido mais antigo que tenho na estante. Comprei-o há quase dois anos e fui sempre fui deixando-o pra depois, colocando os livros mais finos na frente. Resultado: demorei muito a conhecer essa fantástica criação de Stephen King. Assisti às duas primeiras temporadas da série e um pouquinho da terceira e as comparações são inevitáveis, mas é difícil dizer o que é melhor, livro ou o seriado, pois é a mesma base para historias muito diferentes. Enquanto a série se foca mais em explorar os mistérios do domo, o livro dá maior ênfase aos conflitos humanos. O livro é empolgante desde o início, com a ação acontecendo desde a primeira página. Diferente da maioria de suas obras, King não se demora na construção de seus personagens, salvo raras exceções como o vilão Big Jim. Até porque se o fizesse o livro teria pelo menos quinhentas páginas a mais, pois são muitos. Mas mesmo pouco aprofundados, são personagens muito vívidos, sólidos e apaixonantes.

Barbie é um protagonista que me conquistou logo de cara. No livro ele não é tão ambíguo quanto na série. É claramente um herói. Descolado, corajoso e íntegro, Barbie não se intimida em confrontar Big Jim, um politico megalomaníaco, que se aproveita da situação crítica para se tornar o ditador de Chester's Mill. Big Jim é o personagem mais detestável de Stephen King. Perto do original o da série é um aprendiz. É impossível manter-se impassível diante de seu oportunismo, arrogância e crueldade. Mas sua soberba era também a sua fraqueza. Bastava algo sair fora de seus planos que ele perdia as estribeiras e era delicioso acompanhar seus acessos de fúria. Já Junior, seu filho, é um psicótico tão repugnante como o da série, porém bem menos depressivo. E é claro, Julia. Esperava encontrar no livro a mesma heroína da série, jovem, linda, correndo de um lado a outro com seus cabelos esvoaçantes, mas encontrei uma solteirona com mais de quarenta anos, cujo único companheiro era Horace, seu cachorro. Mais clichê, só se o bicho de estimação fosse um gato. Julia é uma das personagens menos trabalhadas no livro. Apesar de audaciosa e uma peça fundamental na guerra contra Big Jim, quase nada se falou sobre sua vida pessoal. Mas mesmo assim ela me conquistou.

É impressionante como o autor expõe o quanto os seres humanos podem mostrar a sua verdadeira natureza em momentos de crise. Pessoas aparentemente inofensivas se revelam capazes das piores atrocidades simplesmente por estarem protegidos pela impunidade e armados pela autoridade. Assim como há pessoas que não se deixam intimidar por essa nova ordem estabelecida e arriscam a vida numa espécie de movimento de resistência. Além de pessoas abnegadas que se dedicam em ajudar os mais debilitados, descobrindo serem muito mais fortes do que acreditavam.

O livro segue um ritmo cíclico com acontecimentos que vão se intensificando até explodir em atos de extrema de violência, com um breve momento de calmaria, onde os personagens se refazem de um grande choque, se reagrupam e fazem novas alianças, para logo depois outra série de incidentes desembocar numa nova catástrofe. O livro é viciante do início ao fim. Algumas coisas me decepcionaram no final, como por exemplo a explicação sobre a origem da redoma, que achei boba demais, mas foram meros detalhes. E o fato de King dar uma explicação já é lucro, coisa que ele não costuma fazer. Até porque a redoma foi apenas um pretexto para falar sobre o comportamento humano, do que somos capazez, pro bem e pro mal, em momentos de tensão e isso ele fez com tanta malícia, que me seduziu, me horrorizou e muitas vezes me surpreendeu. Foi uma grande aventura estar preso sob a redoma durante esses quatorze dias de leitura. Mais um livro de Stephen King que entra para os meus favoritos.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Silenciadas - Kristina Ohlsson


Sinopse

Quinze anos atrás: uma adolescente é surpreendida enquanto colhia flores e brutalmente violentada. No presente, um homem é morto em um atropelamento. Ele não tem nenhuma identificação e não é reportado como desaparecido. Ao mesmo tempo, um sacerdote e sua esposa são encontrados mortos em um aparente duplo suicídio. Fredrika Bergman, juntamente com a equipe de investigação de Alex Recht, é encarregada de investigar esses casos aparentemente desconexos. A investigação leva a uma rede de contrabando de pessoas: um novo agente a operar rotas de imigração ilegal a partir de Bangkok, Tailândia. À medida que a polícia desmantela o esquema, começa a se revelar uma trilha que remonta à década de 1980, a um crime não denunciado, mas cujas consequências irão muito além do que qualquer um poderia esperar.

Resenha

Comprei esse livro apenas pela sinopse. Não sabia que se tratava de uma autora sueca e nem que fazia parte de uma série com uma detetive como protagonista. Depois disso, é claro que fiquei com muito mais vontade de ler, pois gostei de quase todos os romances policiais escandinavos que já li e amo séries protagonizadas por detetives femininas. No início fiquei espantado com a enorme quantidade de personagens que a autora jogou em cima de mim. Como na sinopse diz que se trata da investigação de três crimes aparentemente sem ligação, já esperava que os capitulos se alternassem entre cada um dos assassinatos, porém são muitos os personagens, não apenas as testemunhas e suspeitos de cada crime, mas também entre o núcleo policial da história. A equipe é formada por quatro investigadores e cada um tem sua história, seus conflitos que se desenvolvem paralelamente à investigação.

De todos, o que menos gostei foi da protagonista Fredrika. Apesar de no seu lado profissional ela ser bastante competente, sua vida pessoal é um grande melodrama e sua atitude conformista em relação a alguns problemas me cansaram. Entendo que ela estivesse passando por uma gravidez complicada, mas seu tom lamentoso não despertou nenhuma empatia em mim. Gostei mais dos personagens masculinos. Alex, líder da equipe, cuja esposa guarda um segredo que ameaça a harmonia de seu casamento. E os detetives Joar e Peder, o primeiro um cara tranquilo e misterioso, o outro um homem de pavio curto, que antipatiza com o companheiro.

Mas apesar da imensa quantidade de personagens, a autora soube conduzir a trama com habilidade. Mesmo com tantas implicações, não fiquei perdido na história. A trama é bem intrincada, mas a complexidade de toda aquela rede de crimes ao invés de torná-la confusa, só a tornou intrigante o suficiente para que eu ficasse afoito pra chegar logo no final e desvendar todo aquele mistério. Seu texto é bem fluído, sem se demorar em descrições excessivas. Como é comum nos romances policiais escandinavos, não há nenhum enfoque em perícia criminal, as pistas são adquiridas basicamente através dos interrogatorios das testemunhas.

O livro aborda como tema principal a questão dos refugiados e embora tratado com superficialidade, achei curiosos alguns detalhes sobre o tráfico humano, um negócio milionário que explora o desespero de pessoas que dão todas as suas economias pela chance, ou ilusão, de uma vida melhor num outro país.  O final não me surpreendeu, em alguns aspectos foi até previsível, mas fiquei curioso pra saber como determinados acontecimentos se sucederam e a autora não me decepcionou com as explicações. Conforme o livro se encaminha para o desfecho fica claro quem está envolvido nos crimes, mas os motivos são mais chocantes do que aquele que eu havia suposto. Até aí a narrativa segue muito bem, os crimes são todos esclarecidos, mas a autora resolveu estragar seu bom trabalho, deixando em aberto o final de alguns personagens. Sei que é uma série e muitas situações serão retomadas nos próximos volumes, mas outras não, pois os detetives são personagens recorrentes, mas aqueles relacionados com os crimes não. Eu não tenho muito interesse em saber o destino dos personagens após os esclarecimentos dos crimes, mas custava a autora escrever um parágrafo que fosse dizendo de fulano morreu ou não? Isso diminuiu o entusiasmo que eu tive no início da leitura em acompanhar a série. Não quero passar por essa sensação de ficar no vácuo novamente.