domingo, 24 de abril de 2016

Eu Vejo Kate - Cláudia Lemes


Sinopse

Kate é uma escritora que se lança na obscura tarefa de produzir uma biografia  do assassino em série Nathan Bardel. E desde que Kate decidiu escrever a história de sua vida e de seus assassinatos, Nathan Bardel percebeu que mesmo depois de morto, poderia acompanhá-la. Ele vê Kate. Ele lê Kate. Ele a decifra enquanto ela o investiga. Quando Nathan descobre que um novo assassino está imitando seu método, fica furioso. Ryan, um agente especial do FBI que tem a capacidade de observar a cena de um crime e definir o perfil do criminoso, passa a colaborar na perseguição a esse novo serial killer. Ele é um dos melhores profilers do país. Mas toda sua experiência será colocada à prova na busca pelo assassino que não deixa pistas. Expert em Bardel, e envolvido com Kate, o detetive com um passado sombrio se vê mais uma vez numa investigação que pode terminar de forma trágica.

Resenha

Achei o livro bem inusitado em sua estrutura narrativa, pois um dos narradores é Nathan, o fantasma de um serial killer, que paira pelo mundo dos vivos como um mero espectador. Conhecer o ponto de vista de um assassino que transita pelo livro, sem poder interferir nos acontecimentos, mas que, de certa forma interage com o leitor, foi algo bem interessante. Em alguns momentos tive a sensação de estar lendo o livro junto de outra pessoa, trocando impressões, compartilhando os detalhes daquela história macabra, como se o próprio Nathan tivesse pegado minha mão e me levado para conhecer aqueles insólitos personagens. Só por essa sensação já vale a pena ler o livro. Apesar de seu passado negro, Nathan é uma companhia de leitura inteligente, com um vocabulário elegante, cuja morte o tornou mais humano.

Porém, não encontrei justificativa para Nathan ter Kate em tão alta conta, exceto pelo fato dela representar uma maneira de mantê-lo vivo. Kate não é merecedora de tanta admiração e não é uma protagonista que tenha me conquistado. Achei-a instável, insegura, imatura, muitas vezes agindo de modo estúpido, o que contrariava todo o brilhantismo que Nathan lhe atribuía, outras vezes agindo como uma criança mimada. Uma mulher que não encontrou seu caminho na vida, que se deixava manipular pelas pessoas, que convivia com o abuso físico e emocional de forma passiva. E que encontrou uma forma tortuosa de preencher o enorme vazio em sua alma, dedicando-se ao trabalho de reconstruir a vida de um assassino em série.

Seu caminho se cruza ao de Ryan, o profiler do FBI que participou da prisão de Nathan. Sou fascinado pelo trabalho desses especialistas que, orientados pela lógica e pela empatia, usando a técnica acadêmica e a intuição, mergulham na mente de criminosos e conseguem ler com tanta clareza sua alma, que reproduzem com exatidão cada passo da elaboração de um crime, prevendo seus próximos movimentos. E Claudia Lemes nos trouxe um profissional que leva sua atividade ao extremo, não apenas investigando, mas vivendo cada caso de modo tão intenso, que deixou a insanidade com a qual lidava em sua profissão penetrar em sua vida íntima e destruir seu casamento. É por isso que somente uma pessoa vibrando na mesma freqüência seria capaz de se aproximar. E, de modo impressionante, a relação entre ele e Kate é clara, franca, sem problematizações. Ambos se afinam tão bem, que por mais que sejam pessoas complexas, se entendem perfeitamente. Contudo, esse casal demorou a me convencer. Não consegui sentir empatia por nenhum dos dois, nem individualmente e muito menos como um casal. Achei que foi tudo rápido demais. Sem falar nas desnecessárias cenas de sexo, que foram grotescas. Tudo bem que sexo casual é exatamente o que o termo diz, por isso não tem que ser descrito como uma experiência sublime, com firulas e tudo o mais, porém achei as cenas chulas. E não dá pra aturar um cara apaixonado dizer que “comeu” a mulher amada. Talvez eu seja muito careta, mas ficou feio.

Eu Vejo Kate é um livro com um tema já corriqueiro na literatura policial, mas abordado de um modo fora do convencional, com uma linguagem direta, com frases curtas e precisas, nas quais a autora manda o recado sem rodeios, seguindo um roteiro com o qual os fãs de livros de serial killers já estão habituados. Mas no fim da primeira parte, faltando umas cento e cinqüenta páginas para o livro terminar, a autora me surpreendeu com uma revelação que, além de me deixar de queixo caído, mudou totalmente a estrutura da história, o que me deixou sem nenhuma ideia do que aconteceria em seguida. Ou seja, a partir desse momento, eu estava diante de uma leitura sem precedentes, sem qualquer previsibilidade do que aconteceria em seguida e isso foi espetacular. O livro mantém um bom ritmo até o final. Só faço uma ressalva, que a própria autora faz no prólogo: esteja preparado para cenas de extrema violência. Claudia nos coloca diante do abismo que é a mente de um psicopata, sua lógica fria, seu sadismo e sua total ausência de emoções. A autora construiu o perfil de um assassino de uma forma tão contundente, que numa determinada cena fui imediatamente remetido às diversas entrevistas de serial killers reais que já li. Além de nos expor à insanidade de pessoas que dançavam com o mal, que passaram a conhecer seu ritmo, seus passos, a prever seus movimentos, mas não perceberam que também estava sendo conduzido nessa valsa macabra, como Ryan, que em muitos momentos foi assediado por toda essa perversidade, ficando na tênue linha entre a luz e as trevas do ser humano.

domingo, 17 de abril de 2016

As Gêmeas do Gelo - S. K. Tremayne


Sinopse

Um ano depois de Lydia, uma de suas filhas gêmeas idênticas, morrer em um acidente, Angus e Sarah Moorcroft se mudam para a pequena ilha escocesa que Angus herdou da avó, na esperança de conseguirem juntar os pedaços de suas vidas destroçadas. Mas quando sua filha sobrevivente, Kirstie, afirma que eles estão confundindo a sua identidade — que ela é, na verdade, Lydia — o mundo deles desaba mais uma vez. Quando uma violenta tempestade deixa Sarah e Kirstie (ou será Lydia?) confinadas naquela ilha, a mãe é torturada pelo passado. Qual é a verdade sobre o dia em que aquela tragédia mudou para sempre suas vidas?

Resenha

Tenho uma queda por thrillers psicológicos, por isso, fiquei muito curioso quando li a sinopse de As Gêmeas do Gelo. Prometia ser um livro intrigante, com personagens complexos e uma trama muito bem amarrada. E o livro cumpriu tudo o que foi proposto.

Tremayne tem um texto bem preciso. Em menos de cinquenta páginas ele coloca o leitor por dentro de toda a situação dramática que os personagens estão vivendo. Um casal que perdeu recentemente uma de suas gêmeas num acidente doméstico, os problemas psicológicos que a irmã sobrevivente vem apresentando, suas dificuldades financeiras, já que a instabilidade emocional do marido o fez perder o emprego, tudo isso culminando num casamento em crise. Porém, mesmo sendo objetivo ao situar o leitor dentro deste cenário, Tremayne não trata os personagens e nem seus dramas com superficialidade. Ele encontra o ponto exato entre dar profundidade ao enredo, sem comprometer o ritmo do livro.

A história é alternada entre a narrativa da esposa Sarah, em primeira pessoa e o ponto de vista do marido Angus, em terceira pessoa. Achei a Sarah muito chata. Até concordo que sua tragédia seja terrível o suficiente para justificar seu estado de ânimo, mas a personagem se vitimiza demais. O tom de sua narrativa é muito melodramático, soando sempre como uma longa queixa sobre sua vida miserável. Sua lamúria é tão apelativa que é como se estivesse exigindo que tivessem pena dela. Não consegui sentir nenhuma simpatia por Sarah.

Já em relação a Angus, senti uma empatia maior por seu sofrimento. Embora em seu papel de homem viril não demonstrasse seus sentimentos, sua tristeza era mais franca. A tragédia o afetou de modo muito mais intenso, a ponto de destruir a sua próspera carreira como arquiteto. Porém, a maneira que Angus encontrou de superar a morte da filha,foi se mudando para uma ilha que herdara de seus avós e assim, recomeçar a vida.

A ambientação do livro é um dos elementos que deram um sabor especial à leitura. Mais uma vez, Tremayne foi assertivo, descrevendo os cenários, o clima e a cultura do local, sem se prolongar demais. Não há descrições desnecessárias, daquelas que só servem para preencher páginas e sim uma ambientação que serviu para realçar o clima de mistério do livro.

Chega um momento em que percebi que havia algo de muito estranho naquela família, mas não conseguia definir o que. A dúvida sobre a verdadeira identidade da gêmea que sobreviveu é o catalisador de uma série de conflitos e a menina, inocentemente ou de propositalmente, não dava para saber, começa a jogar seus pais um contra o outro conforme vai revelando segredos envolvendo tanto à si própria, quanto à irmã morta. Uma aura de desconfiança paira entre o casal. É muito interessante o duelo psicológico entre Sarah e Angus. Um desconfiando do outro ao mesmo tempo em que tentam esconder seus verdadeiros sentimentos. E esse jogo de esconde-esconde  envolve também o leitor, o que praticamente nos joga no meio daquele conflito doméstico. Temos a narrativa em primeira pessoa de Sarah, mas ela demonstra em algumas atitudes, que não é uma narradora confiável. Nosso acesso ao ponto de vista de Angus é indireto, mas ele parece muito mais sincero do que a esposa. E pra dificultar ainda mais essa equação, temos a grande dúvida sobre o que realmente aconteceu com as gêmeas. Será que a menina sobrevivente é Kirstie ou Lydia? Estaria a garota manipulando os pais? Estaria ela enlouquecendo? Haveria alguma explicação sobrenatural para todos aqueles acontecimentos?

À cada capítulo novas revelações vão surgindo, uma mais chocante que a outra, mas a resposta só vem nos momentos finais, de forma impactante. O autor mantém o suspense até a última página, com revelações sendo feitas nas últimas linhas. Exatamente o tipo de livro que gosto, sem aquelas prorrogações desnecessárias após a resolução dos fatos. Um suspense requintado, que me conquistou.


A edição é ilustrada com fotografias representando a locação da história. Não curto ilustrações em livros, mas nesse caso serviu para reforçar a ambientação tão bem trabalhada. As fotos tem um tom sombrio, tornando a leitura mais vívida.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sete verdadeiras máquinas de escrever

Ler o novo livro de seu autor favorito é um dos melhores momentos da vida de um leitor. Mas quando o livro acaba, dá aquela tristeza em saber que se terá de aguardar um, dois ou até três anos por um novo lançamento. Mas quem é fã de algum dos escritores dessa lista não sofre desse mal. Ou não sofreu, já que alguns deles já não estão mais entre nós. É claro que há autores muito mais prolíficos que esses, mas aqui estão os mais famosos. Uma galera que não deu descanso para o teclado.



Stephen King

De todos os autores dessa lista, Stephen é o que menos tem livros publicados. Cerca de cinqüenta. Mas vocês já viram o tamanho de seus calhamaços? Escrever mais de um livro por ano já é uma proeza, mas escrever uma obra de setecentas páginas atrás do outra é só para os melhores. Sem falar que são livros com personagens bem construídos que certamente exigem um esforço maior. Fico admirado com a dedicação de King em manter seus leitores sempre saciados da fome de novos livros. O autor sempre escreve 10 páginas por dia, todos os dias do ano (até mesmo nos feriados e finais de semana). Ele se dedica diariamente, 365 dias por ano, em criar novas maneiras de assustar seus fiéis leitores. Isso é que é viver para escrever.



Danielle Steel

Eu lia compulsivamente os livros de Danielle Steel numa determinada época, o que me rendeu deliciosos momentos, saboreando seus romances açucarados e tão cheios de drama quanto uma novela mexicana. A autora publicou mais de cem livros, dos quais devo ter lido mais de cinqüenta. Porém escrever muito e escrever bem é uma talento para poucos. A fórmula de Daniellle se desgastou com o tempo. Mesmo hoje, com quase quarenta anos de carreira, a autora ainda é capaz de criar enredos originais, porém na hora de desenvolvê-los, cai sempre na síndrome do mais do mesmo. Você nem precisa chegar na metade pra descobrir que já leu aquele livro antes. E o que é pior: por dezenas de vezes.





Agatha Christhie

Nem sempre fórmulas prontas resultam em enredos repetitivos. Agatha Christhie é uma prova disso. A estrutura de seus livros varia muito pouco. A autora tinha um método muito peculiar de encobrir a identidade de seus criminosos, desviando a atenção do leitor, como uma boa ilusionista. Porém, se o método que usava para elaborar crimes quase perfeitos era limitado, cada enredo era de uma imaginação prodigiosa. Em seus mais de oitenta livros, Agatha nos presenteou com as mais intrincadas tramas. Intrigas familiares, histórias de espionagem, escândalos da alta sociedade, tortuosas histórias de amor. E os cenários então! Ilhas misteriosas, trens luxuosos, cidades do interior cheias de personagens pitorescos, países exóticos. E o que é melhor, seus livros tem um sabor tão especial, que mesmo quando os relemos, já sabendo quem é o assassino, o encanto não se perde.



James Patterson

Quem nunca escreveu um livro com o James Paterson? Escrever livros em parceria com esse autor virou moda de uns tempos pra cá. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa “escrita a quatro mãos”. O único livro da franquia Paterson e Friends que li foi Zoo e realmente deu pra sentir ali o estilo de dois autores se revezando. Porém acredito que na maioria dos casos, o autor venda seu nome como uma marca para alavancar a venda de livros de novos autores, tendo a mínima, ou nenhuma, participação no processo de escrita. Especulações a parte, o fato é que Patterson já era um autor extremamente produtivo muito antes dessa onda de parcerias. Sua série Alex Cross conta com 21 livros. A série Private, oito. Bruxos e Bruxas, quatro. E muitos outros individuais.


Nora Roberts

Nora começou sua carreira em 1980, quando a editora Silhoute passou a receber manuscritos que a poderosa Harlequin esnobava. Foi o início de uma proveitosa parceria que rendeu mais de vinte livros e o começo da carreira de uma das autoras mais produtivas da atualidade. Nora escreveu mais de 200 livros, muitos usando pseudônimos como  como Jill March, Sarah Hardesty  e, um dos mais conhecidos, J. D. Robb, na sua famosa  Série Mortal. A autora escreve mais de sete livros por ano e é nessas horas que, exceto pela Série Mortal cujo primeiro livro eu adorei, fico feliz de não ser seu fã. Meu bolso agradece.


Edgar Wallace

Edgar foi um jornalista, dramaturgo e romancista que escrevia em ritmo industrial. Escreveu 175 livros, 24 peças de teatro e muitos contos policiais para jornais. Na década de 1920,  um dos seus editores afirmou que um quarto de todos os livros lidos na Inglaterra haviam sido escritos por Wallace. Seus livros tinham um forte apelo popular, com um texto sem nenhuma profundidade, mas repletos de ação. Histórias onde heróis estereotipados enfrentavam organizações criminosas, onde gênios do crime bolavam planos mirabolantes e onde as tramas eram inverossímeis, mas muito divertidas. Livros ingênuos e descartáveis que até hoje podem ser encontrados nas prateleiras dos sebos. Mas seu trabalho de maior sucesso não foi no meio literário e sim, como roteirista, escrevendo o argumento de King Kong, o gorila que devastou Nova York e que é um dos símbolos da cultura pop.


Janet Dailey

A carreira de escritora de Janet teve início através de um desafio. A autora era uma traça de biblioteca e um dia afirmou ao marido que era capaz de escrever um livro melhor do que daqueles inúmeros romances que lia. O marido desafiou-a a provar isso e não tardou que ela não apenas concluísse o livro, mas o vendesse para a  editora Harlequim, que na ocasião não dava oportunidade a autores americanos, já que o que vendia na época eram romances nos moldes britânicos, geralmente histórias de época, com mocinhas frágeis e romances açucarados. Janet introduziu no catálogo da editora sua visão da mulher americana moderna, o que agradou o público feminino. Daí em diante foram mais de cem livros demonstrando uma criatividade aparentemente sem fim. Porém, em 1997 um episódio escandaloso colocou em dúvida toda essa prolificidade. A autora foi processada por sua colega romancista Nora Roberts, sob a acusação de copiar o seu trabalho ao longo de um período de mais de sete anos. Um leitor notou as semelhanças e fez uma postagem na internet, o que trouxe tudo à tona. Dailey reconheceu o plágio e culpou um distúrbio psicológico.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Encarcerados - Alexander Gordon Smith


Sinopse

Desde pequeno Alex Sawyer era um daqueles valentões do colégio, que tripudiavam em cima dos mais fracos, e quando chegou à adolescência o caminho natural foi se transformar num delinquente juvenil. Com a ajuda de seu melhor amigo, Toby, começou a cometer pequenos furtos na vizinhança. Até que uma noite, homens fortes de terno preto cruzaram o caminho dos dois. Toby foi cruelmente assassinado e Alex, preso e acusado pela morte do amigo. Seu novo lar? A Penitenciária de Furnace, um buraco - literalmente - para onde todos os garotos condenados são enviados e de onde só é possível sair morto. Com guardas sádicos e criaturas terríveis responsáveis pela segurança, Furnace é o inferno. O lugar é infestado de criminosos - como as perigosas gangues Caveiras e os Cinquenta e Nove - mas também há muitos garotos que, como Alex, foram presos por crimes que não cometeram. Como escapar e provar sua inocência? Em quem confiar? O que na verdade era Furnace: um reformatório? Um depósito? Ou, pior, um laboratório maligno?

Resenha

Havia lido no skoob sobre essa série há cerca de um ano e ficado com água na boca. Porém, perdi todo o entusiasmo ao descobrir que a Benvirá havia parado de publicá-la no terceiro volume. Qual não foi então a minha surpresa ao me deparar com o quarto livro na bancada de lançamentos da Saraiva. Encontrei então o primeiro volume na loja, o último exemplar, e decidi me aventurar nesse universo distópico criado por Alexander Gordon Smith. A história se passa numa época indeterminada, numa sociedade que reagiu ao aumento intolerável da violência da seguinte maneira: privatizando o sistema carcerário e condenando todo delinquente à prisão perpétua sem direito à visitas, no presídio de Furnace, localizado no subsolo de uma grande cidade americana.

O livro tem todos os elementos obrigatórios em histórias de prisão. Um sistema rígido, onde qualquer ato de rebeldia é punido severamente, conflitos entre os próprios internos, com gangues dominando os mais fracos, planos mirabolantes de fuga e a amizade entre os companheiros de cela. Temas suficientes para você se familiarizar logo de início com o livro. Porém, o autor vai mais além, explorando o terror de um modo sádico. Gradualmente ele vai nos apresentando ao tenebroso mundo de Furnace, revelando à cada capítulo que o que é ruim pode ainda piorar. O local é repleto de segredos, com criaturas bizarras cometendo atos bárbaros. E à medida que o terror vai se intensificando, maior é o laço de amizade que une o novato Alex ao brutamontes Donovan. Fiquei tocado com a sensibilidade com a qual o autor tratou a relação de afeto entre esses rapazes. Não só entre os dois, mas entre todo o grupo de meninos que se uniu para tentar fugir daquele inferno. Era cada cena linda que dava vontade de chorar. Não tive como não me afeiçoar a esses garotos. Alex é um personagem fascinante, aquele cara que chega para subverter a ordem e lançar um raio de esperança a um local onde só havia conformismo.

O autor tem um eficiente senso de ritmo. Em todo capítulo acontece algo importante. Há sempre obstáculos atrapalhando o caminho de nossos heróis. Havia momentos em que eu pensava: “Não pode acontecer isso agora, não é justo com eles.” O autor brinca demais com as nossas expectativas, criando reviravoltas a todo instante e sempre mantendo o leitor na palma de sua mão, envolvido nos dilemas que não param de surgir. Há sempre uma decisão a ser tomada que ameaça colocar uns contra os outros, evidenciando um jogo psicológico muito bem arquitetado.

Cheguei ao final emocionalmente exausto, sentindo-me próximo daqueles bravos adolescentes. Como se trata de uma série, muitas respostas ficam pendentes, mas o mote principal do primeiro livro tem uma conclusão. Há muito tempo não lia algo tão empolgante, numa linguagem simples e que tivesse um apelo emocional tão forte. Soube que a Benvirá pretende publicar os volumes restantes ainda esse ano. Que bom que a editora vai correr atrás do tempo perdido, porque seria um grande desperdício abandonar uma série espetacular como essa.

sábado, 2 de abril de 2016

Não Queira Saber - Lisa Jackson



Sinopse

Todas as noites Ava sonha com seu filho, Noah. O garoto desapareceu há dois anos, e seu corpo nunca foi encontrado. Quase todos, inclusive Wyatt, o marido meio ausente, supõem que o menino tenha se afogado após cair do cais próximo a sua casa, na Ilha Church. Ao longo desse período, Ava passou a maior parte do tempo internada em hospitais psiquiátricos de Seattle, arrasada pelo luto e incapaz de recordar os detalhes do desaparecimento do filho. Contudo, à medida que suas faculdades mentais voltam ao normal, as suspeitas aumentam. Ela não consegue se livrar da sensação de que a família e a psiquiatra sabem mais do que dizem. Será apenas preocupação com o seu bem-estar? Ou medo de que Ava descubra alguma coisa? Estará enlouquecendo? Será que Noah ainda está vivo? Ava não irá desistir enquanto não obtiver respostas.

Resenha

Não Queira Saber chegou pra mim com um gostinho especial, pois foi meu primeiro livro da parceria com a Editora Record. E começamos com o pé direito, pois esse lançamento da Lisa Jackson me surpreendeu em vários aspectos. Uma trama que não me conquistou de imediato, mas que foi ganhando intensidade aos poucos, alcançando um clímax soberbo.

O livro começa com aquela típica atmosfera de um bom e convencional romance policial. Uma mansão num lugar isolado, habitada por uma família cujos membros guardam profundos ressentimentos uns dos outros, uma heroína aparentemente frágil, mas que guarda uma grande determinação, um marido nada confiável, um empregado charmoso, cujas intenções naquele lugar não são claras e um trágico acontecimento do passado que paira como um fantasma  sobre  os personagens.

Mas apesar de todos esses elementos, o início é desanimadoramente lento. A autora se demora muito em cenas do cotidiano, fazendo com que a narrativa dê muitas voltas até que a trama comece a se movimentar. Além disso, são tantos os personagens que chega um ponto em que você começa a confundi-los. São muitos os membros da família que são apresentados para só voltarem a aparecer cinqüenta páginas depois. Ava, a protagonista vive em constante conflito com seus familiares. O marido a trata como louca, sempre a criticando por buscar respostas sobre o desaparecimento do filho do casal.  A prima cadeirante Jewel-Anne, a culpa pelo acidente de barco que a tornou paraplégica, sempre alfinetando-a pelos cantos da casa. E até mesmo a empregada a trata com desprezo.  Ninguém dá à Ava um voto de confiança, cada atitude sua é criticada. Fiquei indignado com a maneira como ela era tratada por aqueles parentes. Eu no lugar dela teria mandado aquele povo todo para aquele lugar.

A narrativa demora muito a ganhar um foco. São mencionados muitos fatos nebulosos do passado que num primeiro momento despertavam a minha curiosidade, mas devido à autora sempre mudar de assunto, logo perdia o interesse. Porém quando o livro está próximo da página 200, um crime totalmente inesperado acontece e dá um novo rumo à trama. A partir daí a narrativa fica menos dispersa e então o livro vai se tornando cada vez mais envolvente. Ava sai de sua apatia e começa a reagir, aproximando-se do sedutor caseiro Dern, cujas verdadeiras intenções vão sendo reveladas gradualmente. Um casal muito pitoresco de detetives entra em cena, o que reforça o clima investigativo. E muitos fatos isolados vão se ligando, fazendo com que muitas coisas que pareciam sem sentido comecem a se encaixar.

Conforme Ava começa a reagir, o livro fica à cada página mais empolgante. Revelações de cair o queixo começam a vir à tona e antes que eu me refizesse de um choque, vinha outra bomba pra tornar a trama ainda mais sinistra. E por falar em sinistro, há uma cena bizarra da violação de um túmulo que me deixou arrepiado.

Lisa escreveu um livro grandioso, que é muito mais que um thriller. A história de superação de uma mulher que sozinha mergulhou numa luta em busca da verdade, vencendo a loucura, as mentiras e o ódio, movida apenas pelo amor ao seu filho desaparecido. Por isso, quem se desanimar com o início, eu imploro que não desistam, pois estarão abrindo mão de um turbilhão de emoções.