segunda-feira, 5 de junho de 2017

Diário de Uma Escrava - Rô Mierling


Sinopse

Laura é uma menina sequestrada e jogada no fundo de um buraco por  um maníaco. Ela vê sua vida mudar da noite para o dia, e passa a descrever com detalhes sinistros e íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é homem casado, trabalhador, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens, pois dentro de si uma voz afirma que é dele que elas precisam. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte.

Resenha

Diário de uma Escrava foi lançado originalmente no wattpad e bombou, ultrapassando a marca de um milhão de downloads. O tema, além de instigante como literatura é também de grande interesse social, afinal a naturalidade, pra não dizer descaso, com que o desaparecimento de jovens e crianças é tratado no nosso país é revoltante. O livro se divide entre a narrativa da protagonista, confinada num porão há anos após ser sequestrada por um maníaco, em primeira pessoa e a de vários outros personagens, entre eles muitas vítimas desse mesmo criminoso, em terceira pessoa. A narrativa de Laura, composta como se fosse um diário é forte, intensa e dolorosa de se ler. Uma narrariva fluída que discorre com desespero sobre os abusos constantes que a jovem sofre nas mãos de seu algoz. A solidão, a desesperança que vai aumentando conforme os anos passam e ninguém aparece para salvá -la, a sua reação de horror diante da infindável capacidade de seu captor em inventar novas maneiras de torturá-la, tudo isso é transmitido com tanto realismo que a leitura é sofrida. Não é um texto muito amadurecido, mas há um certo vigor na escrita.

Já a narrativa em terceira pessoa é muito tosca. Um texto fraco, inconsistente, apressado. As histórias das outras vítimas do maníaco até que são boas, mas são interrompidas abruptamente e não são mais retomadas. Ou seja, acabam não tendo relevância nenhuma no livro como um todo. É tudo muito entrecortado, com personagens superficiais e cenas mal escritas. Sem falar em alguns trechos em que a autora tenta passar emoção, mas o resultado é de um sentimentalismo que chega a ser cômico, como o do namorado lamentando o desaparecimento de Laura. Fiquei espantado com a falta de habilidade da a autora em manter o mesmo nível de escrita durante toda a narrativa, já que se trata de uma experiente profissional no mundo acadêmico.

Mas esses defeitos não teriam tanta importância se o livro pelo menos tivesse um enredo, o que não é o caso. É só violência, violência e mais violência. Às vezes parece que a autora não sabia mais o que inventar para chocar o leitor. Gosto de livros com crimes violentos, mas certas cenas precisam ter um propósito dentro da trama e não estar ali só pra causar impacto. O problema é que nesse livro não há uma trama. Não tem desenvolvimento, é a mesma sequência de agressões e abusos do começo ao fim. Tanto que muitas cenas poderiam ser descartadas e não influenciaria em nada no entendimento da narrativa.


Quanto ao desfecho, senti muita raiva num primeiro momento, mas ao ler as notas finais da autora, compreendi seus motivos por ter dado aquele destino à sua protagonista e acabei reavaliando minha opinião. A autora usou o final para abordar um aspecto muito mal compreendido no que se refere a reação das vítimas diante de um sequestro. Com exceção de uma coincidência absurda que acontece nas últimas páginas, o final foi uma das poucas coisas que se salvaram. O livro tem pouquíssimo conteúdo para tanto alarde. A autora pode até ter tido a intenção de fazer um protesto contra a indiferença com a qual o mundo trata o frequente desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil, mas acabou se perdendo por não ter uma boa história pra contar.

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