segunda-feira, 22 de maio de 2017

Jane Precisa de Ajuda - Joy Fielding




Sinopse 

Uma mulher jovem e elegante caminha a esmo pelas ruas de Boston. Reconhece as ruas, os prédios, mas não consegue recordar seu nome, onde morava, nem quem era. Para piorar não sabe porque carrega dez mil dólares no bolso. Nem por que seu vestido está sujo de sangue. Sem documentos, resolve procurar a polícia, que a identifica como a esposa do Dr. Whittaker, um dos mais conceituados pediatras da cidade, que logo aparece para levá-la de volta para casa. Ele a cerca de carinho e calmantes, mas Jane consegue perceber que há algo de estranho. Lutando para manter-se lúcida, ela envereda numa trama cheia de suspense e ação para desvendar todo esse mistério.

Resenha

Descobri esse livro fuçando no skoob. Não conhecia a autora, mas fiquei louco pelo enredo. Esperava apenas um bom suspense psicológico, mas o livro superou em muito as minhas expectativas. Logo no início encontramos Jane perdida na rua, com dez mil dólares no bolso do casaco, sem ter a mínima ideia de quem ela mesma seja. Mas não tarda para que ela seja identificada num hospital e reencontre seu marido. Porém, o que parecia ser o fim de seus problemas, se mostra apenas o início de seu tormento.

Como o livro é narrado em primeira pessoa por Jane, eu sabia tanto quanto ela sobre seu passado. Ou seja, absolutamente nada. E assim como ela, tinha de acreditar, ou não, em tudo o que o marido lhe contava. Michael parece ser o marido perfeito. Atencioso, paciente, protetor, por isso é difícil duvidar de sua honestidade, mesmo quando surgem algumas incoerências em sua versão dos fatos que levaram a mulher a sofrer um colapso nervoso. Fiquei muito dividido, pois num momento achava que o cara fosse um mentiroso e em outro, acreditava que ele estava escondendo algo justamente para proteger a esposa. Isso porque em alguns flashs de memória, Jane demontra um comportamento que me fez duvidar de que ela era realmente uma vítima.

Mas mesmo com essa ambiguidade, não pude deixar de torcer pela heroína à cada passo que ela dava em sua busca pela verdade. A autora criou situações em que eu fiquei com o coração aos pulos, com Jane se esgueirando da vigilância contínua do marido, tentando descobrir algo de seu passado antes que ele a dopasse com doses maciças de remédios. Em alguns momentos o suspense chega a ser insuportável, dá vontade de pular as páginas pra saber logo o que vai acontecer.

Criei várias teorias sobre o mistério envolvendo Jane, mas em nenhuma delas os dez mil dólares, que ela levava no bolso do casaco quando se perdeu, se encaixava. E a explicação me deixou chocado.Talvez pelo tom leve e um tanto ingênuo da narrativa, eu não esperava que o livro guardasse uma temática tão forte. Principalmente pela época em que foi escrito. Hoje esse é um tema até que, apesar de não ser tão corriqueiro, também não é raro em livros policiais, mas no início dos anos noventa era pouco comum. Tudo isso fez do livro um dos meus favoritos, leitura repleta de emoção, com uma personagem que, apesar de meio chatinha em alguns momentos, me conquistou e um final do jeito que gosto, com tudo se resolvendo apenas nas últimas páginas. Quero ler todos os outros livros da aurora que saíram no Brasil. E gostaria muito que este tivesse uma nova edição, com uma capa mais caprichada que essa.





terça-feira, 16 de maio de 2017

O Bazar dos Sonhos Ruins - Stephen King


Sinopse

Mestre das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil.
Temas eletrizantes interligam os contos; moralidade, vida após a morte, culpa, os erros que consertaríamos se pudéssemos voltar no tempo. Uma generosa coletânea para os fãs pra quem busca terror e um pouco mais.

Resenha

O lançamento de um livro de contos de King pra mim é sempre um acontecimento especial. Apesar de não ser muito fã de histórias curtas, King é uma exceção. Gosto da maneira como ele consegue desenvolver narrativas tão bem estruturadas num espaço tão curto. Mesmo nos menores contos nada é corrido, os personagens se projetam de maneira incrível e com poucas palavras ele consegue nos sacudir.

Li alguns comentários negativos sobre esse livro, mas isso não me desanimou em nada, pois as opiniões sobre a obra do autor geralmente são muito controversas. É claro que há alguns contos ruins, mas isso acontece em praticamente todas as suas coletâneas. Em vinte historias é difícil mandar bem em todas.

Alguns temas como culpa, ética e a dificuldade em aceitar a morte, seja a própria ou a de um ente querido, surgem com bastante frequência no decorrer da leitura e é interessante acompanhar as diferentes abordagens de King. Geralmente suas coletâneas não trazem apenas contos de terror, mas achei esse livro bem mais versátil que os demais. King envereda por diversos outros gêneros como suspense, drama, humor e até mesmo poesia. Mas sempre com seu estilo marcante, nunca se descaracterizando.

Vou comentar sobre os contos que mais se destacaram, é claro que sem revelar nada sobre o enredo de nenhum deles, pois o legal de ler essas compilações é descobrir as histórias uma a uma.

O livro já começa com um conto incrível que é o "Milha 81", que traz uma deliciosa referência ao filme Christine. Uma história bem sangrenta de terror explícito, com uma suspense crescente. Mas o que mais me maravilhou nesse conto é a facilidade com que o autor traduz o universo infantil.

"A Duna" é um conto no qual King nos pega pela mão e nos conduz por uma história que nos intriga, nos choca e por fim nos surpreende. Achei o final genial.

"Garotinho Malvado" é, sem a menor dúvida, o meu conto favorito nesse livro. Traz um tema que eu adoro, embora por uma perspectiva diferente da que estou habituado a ler, e é uma história grandiosa, com humor, melodrama e muito terror. Um conto que merece uma adaptação. E desconfio de que esse garotinho tem algum parentesco com Pennywise.

" Uma morte" é um conto com o qual antipatizei no início, achei surtado demais, mas o final quase anedótico compensa.

" Moralidade" é um conto tenso, mostra o quanto a culpa pode transformar a vida de uma pessoa, corroendo a alma até que ela se esvazie.

"UR" é outro conto pelo qual fiquei fascinado. Uma história alucinante, que de um momento para o outro toma um ritmo febril, com uma corrida contra o tempo. Me deu até vontade de comprar um kindle. Quem ler entenderá o motivo.

"Indisposta", conto prositalmente previsível, como o próprio autor diz, mas presumir o que aconteceu sem que o próprio personagem admita é o que torna a história tão peculiar. Um dos muitos contos que discorre sobre a negação da morte. E apesar do tom cômico, achei-o bem triste.

Achei que não fosse gostar de "Blockade Billy" por se tratar do mundo do beisebol, mas o conto não demorou a me conquistar, me deixando cada vez mais intrigado com o mistério que envolvia um dos personagens.

"Obituários" é uma daquelas tramas que só King consegue escrever, com uma premissa que poderia ser desastrosa, mas em sua prosa se torna convincente.

Ufa, consegui falar de todos os contos que me impressionaram sem revelar nada. O livro traz contos para todos os gostos e por isso a leitura é tão emocionante, pois você não sabe o que vai encontrar na narrativa seguinte. Todos tem uma nota do autor no início, geralmente falando sobre de onde surgiu cada ideia. Uma bela coletânea, recheada de contos dramaticos, chocantes, divertidos e, é claro, assustadores.



domingo, 30 de abril de 2017

Boneco de Pano - Daniel Cole


Sinopse 

O polêmico detetive William Fawkes, conhecido como Wolf, acaba de voltar à ativa depois de meses em tratamento psicológico por conta de uma tentativa de agressão. Logo, sua ex-parceira de polícia Emily Baxter, pede a sua ajuda na investigação de um assassinato. O cadáver é composto por partes do corpo de seis pessoas, costuradas de forma a imitar um boneco de pano. Enquanto Wolf tenta identificar as vítimas, sua ex-mulher, a repórter Andrea Hall, recebe de uma fonte anônima fotografias da cena do crime, além de uma lista com o nome de seis pessoas – e as datas em que o assassino pretende matar cada uma delas para montar o próximo boneco. O último nome na lista é o de Wolf. Agora, para salvar a vida do amigo, Emily precisa lutar contra o tempo para descobrir o que conecta as vítimas antes que o criminoso ataque novamente.

Resenha

Sabe quando você conhece uma pessoa, a acha hiper legal, mas aos poucos ela vai mostrando várias defeitos e você passa a ficar com bronca dela? É o caso de Boneco de Pano. O livro já começa com muita ação, com um prólogo cheio de expectativa, tensão e uma explosão de violência. E a leitura prossegue nesse nível até mais ou menos a página setenta. Um tom sinistro, uma premissa que promete uma alucinante corrida contra o tempo e pitadas de humor negro. Personagens interessantes, cada um bem delineado, com características fortes. Sem falar na descrição do tal boneco de pano, uma bizarrice constituída por partes dos corpos de seis vitimas, que é de arrepiar.

Mas a partir do momento em que a proposta do livro é colocada e os personagens apresentados, o autor começa a perder a mão. A começar pela insistência em inserir piadinhas ridículas nos diálogos. Humor é sempre muito bem vindo em historias policiais, Agatha Christie, Robin Cook e Harlan Coben são grandes exemplos disso, mas no caso de Daniel as tiradas são tão ruins que chegam a dar vergonha alheia. Além do que muitas delas vem nos momentos mais inoportunos.

Quanto aos personagens, que pareciam tão fortes no início, foram se descaracterizando à cada capítulo. Todo mundo parece meio surtado, como se estivessem um tom acima. Personagens muito incoerentes, que em alguns momentos ficavam irreconhecíveis. Era como se o autor ao invés de construí-los, os desconstruía. O único personagem com quem simpatizei e que demonstrou uma certa evolução foi o perito nerd Edmund, que aos poucos vai ganhando o respeito da corporação conforme demonstra sua competência.

Há muitos pontos positivos também. O livro tem um ritmo incessante, não há cenas arrastadas. Há momentos de grande dramaticidade, o autor pinta cenas cinematográficas que realmente empolgam. A maneira como os assassinatos são cometidos são bem engenhosos. Mas o livro tem um estilo muito desigual, parece ter sido escrito por várias pessoas. Dava muita raiva quando o clima de suspense era quebrado por alguma das bobajadas que os personagens viviam cuspindo. O autor é muito desajeitado ao conduzir a trama, chegando a torná-la confusa em alguns pontos. O resultado foi uma leitura que pode até ter me cativado em alguns momentos, mas que depois de tantos tropeços, cheguei no final sem nem me importar mais com o mistério, só queria que acabasse logo.

sábado, 22 de abril de 2017

A Lista do Nunca - Koethi Zan


Sinopse 

Após um acidente de carro que sofreram quando ainda tinham dez anos, Sarah e Jennifer, amigas inseparáveis, passaram anos escrevendo o que chamaram de Lista do Nunca: uma lista de ações e atitudes que deveriam ser evitadas, a qualquer custo, para que se mantivessem a salvo.
Numa noite, no entanto, ao entrarem em um táxi, as garotas foram sequestradas por um adepto do sadismo, elas ficam acorrentadas em um porão com mais duas garotas por três anos. Dez anos depois de conseguir fugir, Sarah ainda tenta levar uma vida normal. Seu contato com pessoas é mínimo. Seu sequestrador, porém, está prestes a conseguir uma condicional e, mais do que preparar um belo discurso de vítima, Sarah sente que este é o momento de agir. Para isso, vai enfrentar seus terríveis traumas em busca de uma história que nunca fora revelada.

Resenha 

Esse livro foi uma indicação da Luna, leitora aqui do blog. Nunca tinha ouvido falar, mas li a sinopse, achei irresistível e logo fui atrás do livro. O resultado foi uma leitura rápida, absorvente, mas com alguns senãos. O livro começa falando brevemente sobre a convivência de Sarah e Jennifer, duas amigas que após um acidente apegam-se tenazmente à lista do nunca, uma série de regras que visam fazer com se que se sintam seguras. Porém, quando abrem uma exceção entrando num táxi, elas são sequestradas pelo motorista. Assim que isso acontece o livro dá um salto no tempo e encontramos Sarah já com seus trinta e poucos anos, sofrendo de uma grave fobia social, o que a obriga a viver confinada em seu apartamento com quase nenhum contato com o mundo exterior.

Mas chega o momento em que a protagonista precisa enfrentar seus medos e a iminente condicional de seu sequestrador é o que a motiva a sair dessa cápsula protetora e procurar uma maneira para que ele não saia da cadeia. É bem curioso acompanhar Sarah retornando ao mundo exterior, se aproximando das pessoas com hesitação e ainda presa às regras da lista do nunca. É como se ela estivesse engatinhando novamente, procurando se firmar num mundo que do qual fugiu. Mas a autora poderia ter explorado esse seu trauma com muito mais profundidade. Um assunto tão em voga ultimamente merecia ser abordado com mais ênfase.

O livro faz algumas incursões no passado, narrando o período em que Sarah, Christine, Tracy e Jennifer ficaram presas no porão do sequestrador. Essas cenas permeiam toda a narrativa, são bem curtas, mas dão uma boa ideia dos horrores que as jovens passaram nas mãos de um sádico durante anos. A autora também fala um pouco sobre a vida pregressa de cada menina, desde sua infância até o momento em que suas vidas se cruzaram com a do sequestrador.

O livro tem um texto ágil, uma narrativa bem dinâmica, cheia de reviravoltas, tanto que as páginas corriam sem que eu percebesse. Mas o problema é que tudo é muito superficial. Não há muito esforço na construção dos personagens, algumas situações de tensão se resolvem rápido demais, não dá tempo de se envolver, e a investigação é muito corrida. É uma trama muito interessante, foge de muitos clichês seguindo por um caminho inesperado, tem momentos bem aflitivos e a ação é do início ao fim. Por isso curti a leitura, é um livro que te prende, com uma história impactante, só deveria ser melhor elaborado. Senti pressa na escrita. Agradeço muito a sugestão e quem tiver outras peço que coloque aí nos comentários. É muito bom conhecer novos autores.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Toxina - Robin Cook


Sinopse

Toxina conta o drama de Kim Reggis, conceituado cirurgião cardíaco que luta para salvar a vida de sua filha que contrai a perigosa bactéria E. coli O157:H7, numa noite em que consome hambúrguer mal passado numa lanchonete. Desesperado e sem conseguir impedir a progressão da doença em sua filha, que está prestes a morrer, ele se lança em uma arriscada investigação que leva às indústrias de carne dos EUA e suas perigosas práticas. Ele e sua ex esposa agora estão juntos novamente para descobrir a origem e evitar a morte de milhares de outras crianças como sua filha, eles só não esperavam que os grandes chefões das indústrias pudessem agir de modo tão brutal para impedir que seus segredos venham à tona.

Resenha

Há muito eu queria reler algum livro antigo de Robin Cook, da fase em que ele ainda seguia sua eficaz fórmula de escrever suspense médico. Ele continua escrevendo nesse gênero, mas sua abordagem mudou tanto que é difícil encontrar em seus últimos livros os elementos que o consagraram. E com todo esse recente  escândalo sobre carne contaminada que repercutiu do Brasil para o mundo, eu não podia fazer uma escolha mais oportuna que Toxina. Obra escrita em 1998 e que, desde aquela época, já alardeava a negligência das indústrias de carne e os perigos que isso representa.

Kim é um dos protagonistas mais controversos da obra de Cook. Um cirurgião cardíaco que, mesmo tendo perdido parte de seus status
profissional devido à implantação de um novo plano de saúde no hospital onde trabalha, não perdeu sua arrogância. Mas quando sua filha adoece ele descobre que nem toda sua prepotência são suficientes para fazer com que a máquina do sistema de saúde trabalhe a seu favor. E a petulância se une ao desespero, o que resulta numa combinação catastrófica. Muitas vezes Kim perde o controle, deixando seu temperamento explosivo falar mais alto e, mesmo com toda sua prepotência, é impossível não sentir empatia pelo pai que desesperadamente procura salvação para sua filha e se depara apenas com uma muralha de detalhes burocráticos, ao invés de receber apoio daquele sistema ao qual ele serviu por tantos anos. Acho que todo mundo que necessitou do serviço público de saúde sabe o que é isso e, dessa forma, é difícil não se identificar com o personagem.

Quanto às informações sobre as condições de processamento da carne na indústria frigorífica, Cook não poupa nosso estômago. Alguns detalhes do que acontece desde o abatimento dos animais até o momento em que a carne chega em nossa mesa são tão repulsivos
que não dá pra olhar para um pedaço de bife da mesma maneira. O autor nos passa informações grotescas a respeito da negligência nos cuidados sanitários com a manipulação da carne, narra peculiaridades sobre o aproveitamento de material animal impróprio na produção de hambúrgueres e denuncia abertamente o acobertamento dos órgãos públicos que visam apenas seus próprios interesses.

O livro tem momentos bem dramáticos, com um suspense que vai surgindo aos poucos até explodir em momentos de grande adrenalina. Não há muito mistério no enredo, sabemos de antemão quem são os vilões e a emoção fica mais por conta das descobertas chocantes que Kim vai fazendo conforme segue em sua busca por justiça. O final é bem típico dos livros de Cook, com a ação se desenrolado até as últimas páginas até se alcançar um desfecho impactante. Confesso que o final me decepcionou um pouco, esperava uma reviravolta que até veio, mas de uma maneira diferente do que eu gostaria. Mas foi o melhor que o autor pode fazer para não tornar a conclusão algo fora da realidade, até porque o livro precisava ser verossímil para que o recado sobre toda essa negligência fosse dado. E posso dizer que funcionou, pelo menos até certo ponto. O livro não me convenceu a me tornar vegetariano, mas me alertou sobre os muitos perigos que envolvem o mau manuseio da carne.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Vida Dupla - S.J. Watson



Sinopse

Quando Kate é assassinada, a única forma que sua irmã Julia encontra de lidar com o luto é fazer o trabalho da polícia: procurar o assassino. Porém, ao descobrir que a irmã tinha perfis em sites de relacionamentos para conhecer homens e fazer sexo com eles, virtual ou não, o que antes era uma busca por um criminoso se torna uma exploração de suas fantasias sexuais mais secretas. Quando conhece o atraente Lukas, ela se entrega a um relacionamento que a faz se sentir viva novamente, após anos de um casamento onde a paixão há muito se apagou. Mas entrar nesse mundo coloca em risco seu casamento, sua família e sua própria vida.

Resenha

Apesar de se tratar claramente de um enredo policial, com um assassinato misterioso e tudo mais, no início do livro todo o clima de suspense é afogado pelos dilemas da protagonista, o que torna a narrativa bastante lenta. Julia é uma mulher de trinta e poucos anos que tem uma vida financeira estável, faz alguns bicos como fotógrafa mais como hobbie do que por necessidade, tem um casamento morno e um filho adotivo, que na verdade é seu sobrinho, filho de sua irmã, com quem tem uma relação conflituosa. E são esses desentendimentos que a fazem se remoer de culpa quando descobre que sua irmã foi assassinada. É totalmente justificável esse sentimento, o problema é que Júlia se culpa por tudo durante o livro inteiro. Ela se culpa por ter se afastado da irmã, se culpa por trair o marido, se culpa por mentir para o amante. Seu discurso é uma interminável ladainha de autorecriminação que ao invés de me fazer sentir empatia pela personagem, só me deixou irritado. Por todos esses dilemas o início do livro me exigiu perseverança pra continuar. Não que seja arrastado, mas a ação é mais psicológica. Acompanhamos a dor de Julia com a morte da irmã, sua decisão de investigar por conta própria seu assassinato ao descobrir que ela se encontrava com homens que conhecia pela internet e sua incursão nesse mundo com o qual não tem nenhuma familiaridade. Em sua narrativa em primeira pessoa a personagem compartilha conosco seus receios, suas descobertas e enfim os prazeres que escondem essa sua aventura.

Lá pela terceira parte o ritmo do livro começa a intensificar e o suspense então só aumenta. Muitos acontecimentos são previsíveis, mas não de uma maneira que me fizesse perder o interesse pela trama e sim no sentindo contrário, aguçando ainda mais minha curiosidade. Sabia que determinado fato aconteceria, mas queria saber quando, como e qual seria a reação dos personagens. E muita coisa me pegou de surpresa também. Foi agoniante acompanhar a protagonista se emaranhado cada vez mais na teia de seus próprios erros, presa numa armadilha devido sua imprudência, num jogo em que cada passo podia representar a sua destruição e a de sua família. Por muitas vezes xinguei Julia por ser tão tola a ponto de se envolver daquela forma com um completo desconhecido, por não questionar se o que ele dizia sobre si mesmo era verdade, e de manter o relacionamento mesmo quando suas desconfianças começaram a surgir. Mas em outros momentos compreendia que sua ingenuidade não era burrice, que até as pessoas mais espertas estão sujeitas a passar por tal situação.

Quanto ao final, acertei algumas coisas, outras me pegaram de surpresa, mas em relação ao assassinato da irmã de Julia ficou tudo muito bem explicado. Não houve nenhuma ponta solta, achei a solução plausível, o problema foi o destino dos personagens. O livro se encerra numa cena muito tensa, cujo desfecho fica em aberto. Em livros policiais não tenho muito interesse em saber o que aconteceu com os personagens depois que tudo se resolve. Pra mim tanto faz quem ficou com quem, que rumo fulano seguiu na vida ou como se recuperou de um trauma. Mas nesse caso a cena tinha um dilema forte e foi cortada abruptamente. Me senti no vácuo quando terminei a última página. Mas não vou detonar o livro por causa disso. Essa falta de desfecho não é um mero detalhe a ser descartado, o autor poderia ter se esforçado um pouco mais para concluir seu livro de modo digno, mas isso não apaga as boas horas de leitura que a trama me proporcionou.

Além disso, o livro é um grande alerta sobre os perigos que se escondem por trás das redes sociais. Não dá nem pra afirmar que somente o uso indevido da internet nos deixa vulneráveis, pois todo o cuidado que possamos ter nem sempre é o bastante quando há alguém do outro lado com intenções maliciosas. Mostra o quanto ações aparentemente fúteis, como postar uma foto no facebook, usar um localizador no celular ou acessar um site de relacionamento nos deixam expostos.




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Sete piores thrillers que li na vida


Nem sempre o livro é tudo aquilo que esperávamos. Passamos por muitas decepções em nossa vida de leitor. Em alguns casos, a leitura se transforma num castigo e quando você termina e apenas constata que o livro era ruim de verdade, dá uma revolta pelo tempo perdido. Como todo leitor, já tive muitas decepções literárias, mas quando se trata de um thriller, meu gênero favorito, a dor é maior. Por isso vou compartilhar com vocês um pouco dessa minha sofrida experiência. Os sete piores momentos da minha vida de leitor. 

Vingança da Maré

Como pode uma autora estrear na literatura com uma obra prima que foi o suspense psicológico No Escuro e no segundo livro nos presentear com um fiasco sem tamanho? Ela praticamente só fala sobre aulas de poledance, com uma protagonista nada carismática e um enredo onde quase nada de importante acontece. Um livro que, devido as minhas altas expectativas tendo como base o anterior, eu defino como broxante. Como o terceiro livro, Restos Humanos, não foi ruim, acredito que tenha se tratado de um mero escorregão em sua carreira e vou relevar. Mas que ela não faça mais isso.


Indo Longe Demais

A premissa desse livro é sensacional. Uma mulher que passa por uma grande tragédia e então decide abandonar a família e recomeçar sua vida numa outra cidade, com uma nova identidade. Mesmo tendo lido resenhas negativas, quis conferir, pois não acreditava que o livro pudesse ser ruim. Mas é e muito. No comeco até que estava gostando, mas conforme ia avançando a leitura fui descobrindo que o livro só dava voltas e não chegava a lugar nenhum. Só terminei para saber qual era o tal segredo da protagonista e fiquei indignado quando topei com uma informação mentirosa da sinopse. Querem enfeitar o enredo bem, mas não precisa mentir.


Em Busca de Um Novo Amanhã 

Assim que soube do lançamento desse livro fiquei com muita raiva da autora em fazer uma continuação do clássico Se Houver Amanhã, um dos livros de maior sucesso de Sidney Sheldon. Mas, mesmo sendo contra a sequência a curiosidade falou mais alto e não resisti em saber o que ela faria com os personagens tão queridos da obra original. E o livro foi bem pior do que eu esperava. Tilly ignorou a cronologia dos acontecimentos, trazendo a história que se passava nos anos oitenta para os dias atuais, descaracterizou personagens, tornando-os apáticos, e nem se deu ao trabalho de tentar imitar o estilo de escrita de Sidney, como fez com os livros anteriores da marca Sheldon. Mas o livro não é apenas ruim como sequência de um clássico. É ruim por si só. Os roubos não tem emoção, golpes amadores e a investigação dos assassinatos é praticamente abandonada no decorrer da narrativa, pra ser retomada no final, com a identidade do assassino não me surpreendendo nem um pouco.


Cuco

A sinopse do livro me encantou. Como não se interessar pela história de uma mulher que acolhe em sua casa a amiga que ficou recentemente viúva e aos poucos a vê tomando o seu lugar? A escrita de Julia é primorosa, tem uma fluência agradável, é quase poética. Mas conforme a história foi se desenrolando, ou enrolando, percebi que o livro não chegaria a lugar nenhum. A trama lança diversos mistérios que ficam sem resposta, a protagonista toma algumas atitudes que me fizeram perder qualquer empatia por ela e o mais irritante, a autora parece evitar as cenas do conflito, como se não conseguisse escrevê-las. Julia conseguiu desandar a receita de uma maneira revoltante, pois o livro tinha muito potencial. Ela mutilou sua própria obra e isso foi imperdoável.


O Enigma do Quatro

Detestar esse livro não é uma exclusividade minha, muita gente que leu o detonou. Lançado na época  de O Código da Vinci, é mais um dos inúmeros livros que pegaram carona no sucesso de Dan Brown, mas não cumpriu nem um décimo do que prometia. Os autores realmente tem um vasto conhecimento sobre o renascentismo, assunto principal da trama, mas jogam um monte de informações em cima do leitor sem levar em conta de que há um enredo a ser seguido. Ou seja, o livro não tem ritmo algum, com um pseudo enredo que se perde naquele emaranhado de erudição.


À Sombra de Uma Mentira 

Essa foi, sem sombra de dúvida, minha pior leitura de 2016. Topei com alguns livros ruins, mas esse merece o troféu abacaxi. Também foi resenhado aqui no blog e só o terminei justamente para escrever a resenha, pois era um livro de parceria com a Record. Sempre que faço uma resenha negativa eu tento ressaltar alguns pontos positivos da obra, pois é raro um livro ser cem por cento ruim. Mas no caso desse praticamente, nada se salva. O prólogo é bem promissor, mas daí em diante o enredo vira uma confusão que parece não ter fim. A autora não consegue se encontrar. Nem sei como um livro desses foi publicado.


Fetiche

Li esse livro há muitos anos e o que me traumatizou foi o excesso de interjeições que a autora utilizava. Parecia que ninguém conseguia iniciar uma frase sem soltar um hummmm, uohuo, mmmmm. Era algo tão irritante que eu tinha vontade de atirar o livro longe e só não abandonei a leitura porque não tinha esse costume na época. Mas, além desse vício da autora, que me dava nos nervos, o livro é muito tosco. Por mim tanto faria se os personagens se explodissem porque nada na trama me cativava. E o pior: na orelha do livro diz que a autora, uma jovem modelo que de uma hora pra outra resolveu virar escritora, é considerada a nova Agatha Christie.




sexta-feira, 31 de março de 2017

Sete livros sobre relacionamento abusivo



Rose Madder

Ela, uma mulher sufocada por um casamento onde as agressões são rotina, ele um policial que se acha acima da lei. Depois de 14 anos de sofrimento, Rosie Daniels decide fugir daquela vida miserável, mesmo sabendo que não seria fácil escapar do marido. Porém ela deixa rastros e Norman, como policial, conhece os truques para segui-los. King soube muito bem abordar o tema do relacionamento abusivo e o livro é excelente nessa parte. Porém, o que faz a obra ser tão criticada pelos fãs é a inserção de elementos de fantasia, que destoaram de toda a abordagem inicial. Se a trama seguisse apenas o caminho do suspense seria um dos melhores livros do autor.


Duas Mulheres

Susan é uma mulher que não prima pela beleza, é feia e gorda e seus únicos atrativos são os belos seios. E é exatamente isso o que ela representa para Barry, seu namorado. Um par de seios e o ingresso para um mundo em que ele deseja entrar. O mundo da marginalidade, onde o pai da garota é uma celebridade. Mesmo antes do casamento ele já mostrou sua verdadeira face chegando atrasado na cerimônia porque estava transando com uma prostituta, e o que é pior, na companhia do sogro. E após trocarem as alianças, foi que Barry transformou a vida da esposa num inferno. Espancava-a diariamente pelos motivos mais banais, mal colocava comida na mesa e ainda passava noitadas na companhia de qualquer uma que lhe desse bola. Um relacionamento que se tornou uma verdadeira catástrofe não apenas para o casal, mas para toda sua família.


No Escuro

Quando conhece Lee, Catherine constata que ele é motivo suficiente para abandonar sua boa vida de solteira e mergulhar nessa relação com esse homem lindo, sedutor e carinhoso, que conquista não só a ela, mas também às suas amigas. Mas logo ele se mostra exageradamente controlador, isolando-a e transformando lentamente sua vida num tormento. E o que é pior, quando pede ajuda ninguém acredita nela. Como poderia o príncipe encantado de pouco tempo atrás ter se transformado no monstro que Catherine pinta. Sozinha, ela trava uma luta contra um inimigo que conhece como ninguém suas fraquezas e quando ele finalmente se afasta, um dos efeitos colaterais dessa relação é um abalo psicológico tão forte que a faz desenvolver um transtorno obsessivo compulsivo. E quando decide reagir e recomeçar a sua vida, Lee ameaça voltar.


Amor Amargo

Alex é uma menina carente, insegura e com baixa autoestima. Por isso, quando Colin, o atraente aluno novo, começa a lhe dar bola ela mal consegue acreditar. Encantador, divertido, sensível, um astro dos esportes. Alex parece não acreditar que o garoto está ali, querendo se aproximar dela. Quando os dois iniciam um relacionamento, tudo parece caminhar às mil maravilhas, até que ela começa a conhecê-lo de verdade. O livro fala de uma relação abusiva entre un casal de adolescentes e explora muito bem o que motiva algumas mulheres a não reagirem diante da violência, permanecendo naquele círculo vicioso.


Instinto Assassino 

Baseado num fato real que causou estardalhaço nos tribunais esse livro foi escrito pelo promotor que trabalhou no caso. Dr. Patrick Henry era um médico respeitado na cidade em que vivia e ao se casar com Cristina Henry, conseguiu esconder sua verdadeira índole durante anos. Mas isso não quer dizer que ela tenha vivido uma rotina pacífica e segura dentro desse período. Cristina passou por diversas situações em que sua vida ficou em risco sem nem desconfiar que esses acontecimentos, aparentemente acidentais, eram planejados pelo próprio marido. Henry lhe preparava armadilhas e a submetia a situações torturantes, sem que a mulher percebesse a sua autoria. Até que descobriu a verdade e aí as coisas ficaram bem piores.


A Reunião

Recuperada de uma depressão, Sabine tenta retomar sua rotina normal ao voltar para seu trabalho. Mas o convite de uma reunião entre os seus antigos colegas revolve um mistério daquela época: o desaparecimento de Isabel, sua amiga de infância, um mistério nunca solucionado. Nessa mesma ocasião ela reencontra Olaf, amigo de seu irmão desde aquela época. Olaf é charmoso, simpático, bonito e cobiçado por sua chefe. É por isso que Sabine se espanta quando ele começa a paquerá-la, justo ela, uma moça tão sem atrativos. Mas logo a moça descobre que seu novo namorado tem um lado possessivo e, temendo que o abuso psicológico evolua para a violência fica, ela decide se distanciar, o que só serve para piorar a situação.


Dormindo Com o Inimigo

Desde os anos 90 que eu sou apaixonado por esse filme, mas só há pouco tempo descobri que o livro havia sido lançado no Brasil. Sabia que era baseado numa obra literária, mas achava que nunca houvesse sido lançado aqui. Conta a história de Sara, casada com um homem metódico, controlador e muito violento que, cansada de viver naquela bolha encena a própria morte e foge. Mas seu plano não é infalível e não tarda para que o marido saia à sua procura. A essa altura ela já está envolvida com um jovem artista que representa a antítese de tudo o que a oprimia em sua relação anterior. E ser encontrada pelo marido representa não só o fim desse novo romance, como o de sua própria vida.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Glória Mortal - J.D. Robb

Sinopse

A primeira vítima foi encontrada caída na calçada, na chuva. A segunda foi morta no próprio prédio onde morava. A tenente Eve Dallas, da Polícia de Nova York, não teve dificuldades para encontrar uma ligação entre os dois crimes. As duas vítimas eram mulheres lindas e muito bem-sucedidas, mas que mantinham relações que poderiam provocar suas mortes. Suas vidas glamourosas e seus casos amorosos eram assunto na cidade, assim como suas relações íntimas com homens poderosos.

Resenha

Depois de um ano resolvi dar andamento à série mortal de J.D. Robb, pseudônimo de Nora Roberts. Não que não tivesse gostado do primeiro livro, mas não é um tipo de série que tenha me deixado louco para ler cada volume. Como a autora é mais conhecida pelos seus livros românticos, antes de começar achava que a parte policial seria só um pretexto para mostrar o romance entre a detetive Eve Dallas e o milionário Roarke, mas a trama policial fica em primeiro plano e é muito bem conduzida, o que me decidiu a continuar acompanhando a série.

Cada vez gosto mais de Eve Dallas, uma mulher que, apesar do passado sofrido, não se vitimiza. Pelo contrário, as dificuldades pelas quais passou somente a deixaram mais forte. Exceto quando se trata de Roake, o milionário por quem se apaixona. Eve é muito cautelosa em não se jogar de vez nesse romance. Roarke é o tipo de herói idealizado, lindo, rico, poderoso e apaixonado. Ou seja, tudo o que uma mulher deseja e por isso mesmo ele parece bom demais para ser verdade. Eve ainda reluta em se envolver, mas nesse livro a achei mais solta, curtindo melhor a relação, o que não a impede de dar o sinal vermelho à cada avanço mais ousado que seu amante dê no sentido de estabelecer um compromisso.

Uma coisa que me desagrada na série é sua ambientação no futuro, a partir do ano de 2058. Apesar de ser um diferencial, esse é pra mim o maior defeito da série. Sempre que se mencionavam androides, viagens interplanetárias e geringonças esdrúxulas o clima de suspense esfriava pra mim. Sei que a mistura de policial e ficção científica já rendeu ótimos livros policiais, mas no caso da série mortal eu não curti. No primeiro livro ela pegou mais leve e muitas vezes nem parecia que a história se passava no futuro, mas nesse a ambientação me incomodou. Acho que a trinca romance/suspense/ficção científica não casou.

Quanto à trama policial, que para mim é o mais importante, desta vez achei a investigação muito mais empolgante e menos previsível que no primeiro livro. Apesar de haver mais de uma vítima o enredo fica muito mais focado na primeira delas e em sua família. A autora compõe muito bem cada personagem e explora muito bem as relações familiares. A investigação revela os podres de cada membro da família o que só vai gerando mais conflitos entre os suapeitos e a tenente Eve Dallas. O final foi bem surpreendente, apostei numa pessoa como culpada, mas a autora levou a trama para um caminho totalmente diferente do que eu pensava, o que achei demais. Fico um pouco frustrado quando acerto o assassino. Gostei da leitura, nada muito vibrante, mas escrito com competência.



terça-feira, 28 de março de 2017

Max - Sarah Cohen-Scali


Sinopse

Max é o protótipo perfeito do programa "Lebensborn" iniciado por Himmler, o comandante supremo da temível SS. Mulheres selecionadas pelos nazistas dão à luz os primeiros representantes puros da raça ariana, destinados a regenerar a Alemanha depois que a Europa estiver ocupada pelo Terceiro Reich. Konrad, como ele é rebatizado, cresce sem mãe, sem afeição ou ternura, de acordo com os preceitos educacionais nazistas. Aos 6 anos ele é levado para Kalish, uma "escola" para crianças polonesas que passaram pelo filtro racial SS. É ali que conhece Lukas, um judeu polonês rebelde, mas com todas as características físicas de um ariano e pela primeira vez na vida se sente ligado a outro ser humano. A partir desse momento, suas crenças nazistas começam lentamente a desmoronar. Max sofrerá muitas provações e passará a ver o mundo de uma forma diferente, até o final apocalíptico da Segunda Guerra Mundial.

Resenha

Quem me acompanha sabe o quanto gosto se ler sobre a Segunda Guerra Mundial, principalmente quando o enfoque é o nazismo. E fuçando num prateleira da Saraiva dedicada a esse assunto, acabei encontrando essa joia da qual nunca havia ouvido falar, mas que me fascinou pela sinopse. Como há muitos livros escritos sobre essa horrível passagem da história da humanidade, é difícil encontrar alguma obra que traga algo de realmente novo. Porém Max me surpreendeu por apresentar a história de uma criança do Reich de maneira totalmente inusitada. A começar pela abordagem nada convencional. O livro é narrado pelo próprio Max, desde antes de seu nascimento, até a idade de nove anos. 

No início o livro é uma espécie de crônica da vida no lar das crianças Lebensborn, o local onde seriam criados os representantes da raça ariana pura, preparada desde o nsscimento para servirem ao Terceiro Reich. A autora explora o drama das mães que são levadas a gerar bebês dos quais terão de se separar assim que a amamentação não for mais necessária. Expõe a crueldade daqueles que comandam o lugar, o rigor com o qual doutrinam as crianças, punindo com castigos físicos qualquer sinal de fraqueza dos futuros soldados de Hitler. Mostra a frieza com a qual eles dispõe de vidas humanas.

Max foi um personagem que em alguns momentos eu odiei, mas que muitas vezes me divertiu com sua narrativa. Na maioria das vezes com um ridículo tom de superioridade, em alguns momentos repleta de humor negro, em outras de uma inocência tocante. Uma criança condicionada a acreditar nos ideais do terceiro reich, e que acabou por se tornar uma caricatura dessa própria ideologia. Max se achava superior não apenas aos judeus, mas aos seus próprios colegas arianos. Acreditava ser o filho de Hitler. Tripudiava sobre a fraqueza de seus companheiros. Mas no fundo era uma criança sedenta de afeto, que nunca soube o que era ter um vínculo com outro ser humano, que usava sua couraça de arrogância para impedir que sua solidão abrisse uma brecha em sua alma. 

Até que com a chegada de Lukas, ao internato sua vida tem uma grande virada. O pequeno judeu, que tem as caracteristicas físicas de um ariano, opera uma grande mudança em Max. Nesse ponto, a narrativa também ganha um novo ritmo, deixando de ser um relato sobre a vida na "escola", para se desenvolver e ganhar mais ação. Pontuado por diversos acontecimentos históricos, o livro fica mais empolgante à cada capítulo, revelando os horrores da Alemanha nazista através dos olhos de uma criança que aos poucos vai perdendo a inocência. A saga de crianças perdidas num mundo despedaçado. Um livro que merece ser lido e que, acredito, seja capaz de agradar qualquer público.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Sete autores de gente grande que se aventuraram na literarura juvenil



Harlan Coben

Nessa trilogia voltada para o público juvenil, Harlan nos traz como protagonista o adolescente Mickey Bolitar, sobrinho de seu famoso detetive Myron. Um garoto ranzinza, que consegue o quase impossível feito de não gostar do tio. Difícil compreender alguém assim, deve ser o máximo ser sobrinho de Myron Bolitar. Harlan levou para a literatura juvenil todo o seu estilo irreverente, suas tramas mirabolantes, repleta de mistérios e muitas reviravoltas.

George R.R. Martin

Na década de oitenta, muito antes do sucesso de As Crônicas de Gelo e Fogo, George R.R. Martin, reuniu os colegas de RPG e levaram suas invenções de jogos para a literatura. A série se trata de um universo de super heróis que adquiriram seus poderes após sobreviverem a um vírus logo após a Segunda Guerra Mundial,
mostrando o impacto de criaturas com superpoderes na história e com os personagens envelhecendo em tempo real. Atualmente a série de livros conta com mais de vinte volumes, mas George tem colaborado bem pouco como autor e mais como organizador.


John Grisham

O consagrado autor de suspense judicial, presenteou o público jovem com essa série narrando as aventuras de Theodore Boone, um garoto de 13 anos que sonha se tornar advogado. O garoto vive às voltas com a investigação de crimes, arriscando sua vida em aventuras repletas de mistério, ação e muitas reviravoltas. Tudo, é claro, ambientado no mundo dos tribunais.


Stephen King

Stephen King escreveu esse livro para sua filha, ainda criança, que não gostava de histórias de terror. Porém o livro é muito mais um romance jovem adulto do que um livro infantil. Uma história vibrante, cheia de intrigas, que fala sobretudo de lealdade e traição. E, como brinde ainda temos a participação mega especial de Randal Flagg, vilão que tocou o terror em A Dança da Morte e na saga A Torre Negra, desta vez na pele de um mago ambicioso que semeia a discórdia na família real para que assim continue governando nos bastidores do poder. É um livro épico, que está entre meus preferidos do King, diversão para qualquer idade.


Sidney Sheldon 

Sidney lançou essa coleção de seis volumes em 1993, dando ao público infanto juvenil uma amostra de seu talento em criar tramas que prendem o leitor. Por motivos óbvios, Sheldon deixou de lado as cenas de sexo, as paixões arrebatadoras e as intrigas políticas mas seu estilo inconfundível permaneceu em cada página. Os livros são bem ingênuos, mais infanto do que juvenis, principalmente para os dias atuais. Mas se quiserem viciar qualquer criança na leitura de thrillers, deem um desses para ela ler.


Steven James

 Fiquei pasmo ao descobrir que Steven James, autor da série policial Os Arquivos Bower, havia escrito um livro de suspense sobrenatural juvenil. Nada contra, pelo contrário, mas é tão diferente de seu estilo que fiquei impressionado com sua versatilidade. Na trama, o adolescente Daniel Biers tem uma apavorante distorção da realidade durante o velório de uma jovem que morreu afogada. A garota se levanta do caixão, agarra-lhe o braço e pede que ele descubra a verdade sobre sua morte. À beira da loucura e sem saber como lidar com sua mente cada vez mais dilacerada, Daniel precisa desvendar depressa o mistério, pois pode haver um assassino à solta em Beldon. Distorção é o primeiro livro de uma trilogia.


Dean Koontz

Dean, conhecido por suas histórias de suspense e terror não fugiu ao seu estilo ao se enveredar na literatura juvenil, mas incrementou as tramas com um empolgante ritmo de aventura. Odd Thomas é um jovem cozinheiro de uma cidadezinha californiana que tem o dom de ver os mortos. No primeiro livro da série, ele é alertado de uma grande catástrofe mundial e se lança numa aventura para impedir. É uma pena que dos sete livros da série, apenas quatro chegaram ao Brasil, mas como são histórias independentes, dá pra se ler numa boa.



terça-feira, 7 de março de 2017

Sete mulheres que sacudiram a literatura



Clarice Lispector

Nascida na Ucrânia, Clarice veio para o Brasil com dois anos de idade devido à crescente perseguição aos judeus. Ela se definia como tímida, mas ousada ao mesmo tempo, não se fazendo de rogada ao divulgar sua arte. Chegava nos jornais dizendo: "Eu tenho um conto, você não quer publicar?”. Até que uma vez levou um texto ao editor Raymundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaco e disse: “Você copiou isto de quem?”. Ela respondeu: “De ninguém, é meu”. Ele disse: “Então vou publicar”. Assim começou a carreira de uma das mais importantes escritoras do século vinte. Sua obra narra principalmente a vida cotidiana simples em contraste com tramas de forte enfoque psicológico. Clarice não se considerava uma intelectual, pois se dizia movida pela emoção.


Mary Shelley

Foi numa noite de verão em 1831 que tudo começou. Sentados em torno de uma fogueira numa propriedade à beira de um lago em Genebra, um grupo formado por Lorde Byron, o jovem médico John William Polidori, amante do poeta, o escritor Percy Shelley e sua mulher Mary se divertiam lendo histórias alemãs de fantasmas, fazendo com que Byron sugerisse que cada um escrevesse o seu próprio conto sobrenatural. Nenhum deles levou à serio a brincadeira, mas Mary concebeu aí a ideia de Frankenstein, no início um história curta, mas com o incentivo do marido, se tornou um romance, publicado em 1818. Com ele, além de escrever um clássico do horror, Mary deu origem à uma criatura que se tornou um ícone da cultura pop.


Emily Bronte 

Embora mal compreendido pela crítica na época de seu lançamento, devido ao seu clima sombrio, O Morro dos Ventos Uivantes se tornou um clássico e influenciou gerações de escritores, permanecendo até hoje, 170 anos ainda muito vivo no mundo editorial. Irmã das também escritoras Charlotte e Anne Brontë, foi a quinta dos seis filhos que tiveram Patrick Brontë e Mary Branwell. Na casa dos Brontë trabalhava Thabitha, uma empregada que costumava contar histórias às crianças (que mais tarde foi homenageada com a fiel personagem Nelly Dean, na obra de Emily) e o mundo do faz de conta aumentou o interesse dos irmãos pela leitura. Embora tenha escrito alguns poemas, O Morro dos Ventos Uivantes foi o único romance de Emily, talvez a mais introspectiva, arredia e solitária das irmãs Brontë.


Charlote Bronte 

Enquanto sua irmã Emily se enveredava pelo estilo mais romântico, lúgubre e melancólico, Charlotte Bronte seguiu por um caminho mais ousado com sua obra Jane Eyre, cuja protagonista quebrou vários estereótipos. Quanto à autora, um fato que a marcou demais foi o período em que viveu numa escola do clero, enviada para lá por sua tia, onde as condições eram tão precárias que duas de suas irmãs tiveram a saúde gravemente afetada, morrendo um ano depois de tuberculose, doença que também levou Emily Bronte, sua irmã mais famosa, anos mais tarde. A vivência nesse internato foi descrita em várias de suas obras. Apesar de inovar na literarura Charlotte era politicamente conservadora, tendendo mais para a tolerância em vez de revolução. Tinha um senso moral muito forte, mas apesar de tímida, sabia muito bem defender seus ideais.


Virginia Woolf

Filha do escritor, historiador, ensaísta e biógrafo de Sir Leslie Stephen, Virgínia teve uma vida emocional conturbada devido ao transtorno bipolar, cuja origem pode ter sido tanto dos rumores de abuso por parte de seus meio irmãos, quanto de uma predisposição hereditária. Em cinco de maio de 1895, quando morreu sua mãe, Virginia, então com 13 anos, sofreu seu primeiro colapso mental. Woolf começou a escrever profissionalmente em 1900 com um artigo jornalístico sobre Haworth, a casa da família Brontë, para o Times Literary Supplement.  Ficou conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo, exprimindo em sua obra toda a amargura escondida sob o verniz da sociedade. Morreu em 1941, tendo cometido suicídio.


Simone de Beauvoir

Desde que nasceu Simone fora cumulada de carinhos da família. Por isso, ninguém poderia supor que aquela menina mimada se tornaria a maior defensora da emancipação feminina. Não aceitou casar-se, desprezava os valores da sociedade burguesa e indignava-se com o fato do aborto ser considerado um crime. Suas ideias a assomavam de maneira tão intensa qua ela sentia uma necessidade imensa de passá-las para o papel, foi quando ganhamos uma formidável escritora, além de uma intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa.


Agatha Christie 

Num mundo dominado pelos homens ela se tornou um dos maiores nomes da literatura policial, alcançando o título de Rainha do Crime. Mas seu grande feito não foi apenas fazer tanto sucesso, ou mais, do que seus antecessores. Agatha revolucionou as novelas trazendo algo novo ao método investigativo, dando mais enfoque a uma sondagem psicologica do que à pistas físicas. Um fato curioso na vida da escritora, foi seu desaparecimento em 1919, logo após se separar do marido. Agatha passou dias desaparecida, até ser localizada num hotel, registrada sob o nome da amante de seu marido. A escritora alegou amnésia, mas muitos especularam se tratar de seu sumiço se tratar de um plano para se vingar do marido ou apenas um golpe publicitario. Agatha morreu em 1976 e até hoje permanece como a maior dama do romance policial.




quarta-feira, 1 de março de 2017

Valsa Maldita - Tess Gerritsen


Sinopse  

No ambiente frio e sombrio de um antiquário em Roma, a violinista americana Julia Ansdell depara com uma partitura intrigante — a valsa Incendio — e é imediatamente atraída pela peculiar composição. Determinada a dominar a obra complexa, Julia decide ser o instrumento que fará com que sua melodia seja ouvida. Já de volta à Boston, no instante em que o arco de Julia começa a ser deslocado pelas cordas do violino, a música parece exercer um efeito inexplicável e macabro sobre sua filha pequena, que se mostra drasticamente transformada. Convencida de que a melodia hipnótica de Incêndio está desencadeando uma maldição, Julia decide investigar a história por trás da partitura e encontrar a pessoa que a compôs. Suas buscas a levam à milenar cidade de Veneza, onde Julia descobre um segredo sinistro de várias décadas envolvendo uma família perigosamente poderosa que fará de tudo para impedir que ela revele a verdade ao mundo.

Resenha

O livro é dividido em duas épocas. No presente, a história de Julia, e todo seu drama envolvendo a descoberta de uma partitura antiga, o comportamento estranho de sua filha e todas as implicações que isso traz. No passado, a história é ambientada na Itália da Segunda Grande Guerra, tendo protagonista o jovem Lorenzo, um violonista judeu que vive o início de um romance com a voluntariosa Laura, abortado pela súbita perseguição ao seu povo em Veneza. Ou seja, o livro trata de dois dos temas que mais gosto de ler: a maldade infantil e os horrores do nazismo. Sem falar na música, que é o denominador comum entre as duas narrativas.

Eu simpatizei de cara com a protagonista. Uma mulher talentosa, apaixonada pela música e acima de tudo prática. Assim que desconfia de que sua filha apresenta um desvio de personalidade, ela encara a situação de frente, não fica de mimimi, tapando o sol com a peneira como é comum com as mães nesse tipo de livro. Ela assume que a filha é um perigo para todos ao redor, sofre com isso é claro, mas toma logo uma atitude e procura um psiquiatra. Quanto à suas suspeitas em relação à partitura que adquiriu em Veneza, ela também enfrenta a situação e se lança numa investigação sobre a origem da  misteriosa valsa.

Mas se a narrativa atual é repleta de um irresistível suspense psicológico, com uma heroína travando uma batalha solitária para provar aquilo em que só ela acredita, a história de Lorenzo é uma tocante história de amor que aos poucos vai sendo sufocada pela coerção aos judeus na Itália de Mussolini. Como sempre acontece nesse tipo de narrativa, o terror vai surgindo aos poucos, com os judeus sofrendo pequenas restrições, até o inferno se instalar em suas vidas. A autora explora muito bem o drama de famílias separadas, sofri muito com os personagens, arrastados para toda aquela miséria humana. Para quem está acostumado com livros sobre o nazismo, há poucos elementos novos, mas os relatos não deixam de ser dramáticos.

Já na narrativa do presente, achei o livro corrido demais em alguns trechos. Algumas cenas deveriam ser mais bem trabalhadas. O livro é muito curto, duzentas e cinquenta páginas. Se tivesse umas cinquenta a mais, daria para saborear melhor o clima de suspense. Mas, por outro lado, não há enrolação. Tanto no passado quanto no presente a ação é ininterrupta. Durante toda a narrativa fiquei curioso para saber qual a relação que havia entre as duas histórias, além da música, que era a paixão dos protagonistas. Esse é um dos trunfos do livro, te deixar intrigado em saber como narrativas tão diversas, em épocas tão distantes uma da outra, vão convergir.

A explicação sobre um dos mistérios do livro, envolvendo a perturbação da filha de Julia me deixou de queixo caído tamanha a sua simplicidade. Em poucos parágrafos Tess arrematou algo que parecia muito complexo e de uma maneira muito convincente. Tudo bem que a solução é algo batido em alguns tipos de livros de suspense, mas eu fui pego desprevenido. Sofri tanto com as desventuras de Julia, estava tão imerso em sua busca pela verdade, que nem cogitei uma solução daquela. Terminei o livro já sentindo saudade dos personagens. O suspense é muito bom, mas o que me impressionou mesmo foi a linda e dilacerante história de amor e separação envolvendo Lorenzo, sua família e sua amada Laura. Um relato de extrema poesia em meio a um dos mais sombrios episódios da história da humanidade.

Curiosidade 

A valsa Incendio, mencionada no livro foi composta pela própria Tess Gerritsen (sim, ela também é musicista, além de médica e escritora) e dá pra ouvir uma parte no site da autora, o problema é que p trecho é só de um minuto e não dá pra ouvir as arrepiantes notas finais que são citadas no livro. Mas encontrei-a inteira no youtube, executada pela própria Tess. Confesso que fiquei com um pouco de medo de ouvir, mas valeu pena, traduz toda a melancolia do livro. Segue o link para a valsa Incendio.













quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Jantar Secreto - Raphael Montes




Sinopse

Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que sequer cogitavam existir em cada um deles.

Resenha

Apesar de ser um grande fã do Raphael, relutei muito em comprar esse livro pelo fato que canibalismo não está entre meus temas preferidos. Não tenho estômago pra essas coisas e só essa capa, apesar de muito bem elaborada, me dava náuseas. E, julgando um livro sem nem ler a sinopse, decidi que pularia essa obra do autor. Mas depois de passar muitas vezes por ele na Livraria Cultura sem me dignar a sequer dar uma folheada, resolvi dar uma espiada na sinopse e foi o suficiente para me seduzir. A história de quatro jovens estudantes que dividiam um apartamento no Rio, passando por dificuldades financeiras e os infortúnios que os levariam a se envolver com jantares de carne humana era irresistível. Os quatro protagonistas, amigos de infância, não poderiam ser mais diferentes e o autor faz questão de ressaltar as peculiaridades da personalidade de cada um deles. Até mesmo os cursos que faziam eram completamente diversos, mas as habilidades de cada um seriam fundamentais para a série de acontecimentos bizarros que estavam por vir. Dante, o administrador de empresas gay, narrador da trama; O ético estudante de Medicina Pedro; O vaidoso chefe de cozinha Hugo e o obeso técnico de TI, Leitão.

É impressionante a maneira como as vidas desses quatro rapazes vira  do avesso de uma hora para outra e como uma situação crítica vai conduzindo à outra, numa comédia de erros macabra, que à cada capítulo os embaraça numa verdadeira teia. Quando você acha que desceram ao fundo do poço, tem sempre um pouco mais a se afundar. O livro tem muitas reviravoltas, muitas delas imprevisíveis, que só aguçava minha curiosidade em saber onde aquele rio de sangue ia levar.

E por falar em sangue, Raphael não nos poupa dos detalhes mais repulsivos. Todo o processo de consumo de carne humana é descrito em minúcias, do corte da carne, passando pelo preparo até a degustação. A naturalidade com a qual a carne humana é tratada como uma iguaria chega a dar calafrios. A maneira cínica como alguns personagens encaram os jantares secretos, a perversidade e o desprezo pela vida humana me enojaram. E me senti mal com as cenas de extrema violência, na qual seres humanos eram tratados como presas de uma caçada covarde.

O livro dosa muito bem o horror, o suspense e também o humor, tudo isso temperado com muitas referências da cultura pop, todas elas pertinentes ao enredo. Tudo é muito atual, com termos como Netflix, Uber e Masterchef surgindo à todo momento. Uma linguagem moderna, incluindo até mesmo um capítulo no whatsapp. O autor dá uma brasilidade deliciosa aos personagens, mostrando que o termo tupiniquim não precisa ser pejorativo. Os conflitos entre os protagonistas vão se adensando até que uma amizade de infância se transforme numa rivalidade, um jogo de vida e morte, onde as divergências entre eles cria uma atmosfera de tensão crescente. Quanto ao final, confesso que foi previsível, mas em partes. Acertei umas coisas, outras não, mas o autor não deixa pontas soltas. O autor conseguiu mais uma vez se superar, criando um livro que, sem trocadilho, merece ser devorado.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sete vingadoras de Sidney Sheldon

Para comemorar o centenário de Sidney Sheldon, não há melhor homenagem do que falarmos daquilo que ele fazia de melhor: criar heroínas movidas pela sede de vingança. É claro que essa não era a única matéria prima de seus livros, embora muitos críticos digam o contrário. Mas boa parte de seus melhores enredos se baseavam em mulheres vingativas, que faziam as páginas virarem sozinhas com seus planos mirabolantes.


Noelle Page

Um amor pode se transformar em ódio, principalmente quando um homem conquista o coração de uma jovem inocente, para logo depois destruir suas ilusões. Mas essa decepção só tornou Noelle mais forte. O desejo de vingança a impulsionou a se tornar uma das mulheres mais famosas do mundo até chegar a hora de acertar as contas com seu passado.


Lúcia Carmine

Lúcia nunca foi um exemplo de garota comportada, tanto que um de seus passatempos era dar uns pegas no segurança da família. Mas sua vida de diversão acaba quando seu pai é acusado de inúmeros crimes e ela se vê privada de toda a segurança, glamor e conforto. Porém ela não deixa essa afronta passar batida e vai atrás dos responsáveis pela ruína de sua família. E para Lúcia, o fato de que seu pai era um dos maiores mafiosos da Itália não faz nenhuma diferença.


Melina Demiris

Depois de sofrer muito com as humilhações do marido, o poderoso armador Constantin Demiris, Melina se cansa da opressão, das traições e do desprezo com os quais convive há anos e decide dar o troco. Para se vingar do marido ela é capaz de um ato drástico, uma decisão da qual não terá como voltar atrás. Mas será que ela teria alguma chance contra um homem tão implacável?


Jill Castle

Josephine passou maus bocados quando foi pra Hollywood tentar a vida como atriz. Numa selva onde os mais fracos não tem nenhuma chance, ela teve de lidar com todo o lado podre do showbizz. Mas sua sorte mudou, ela se tornou Jill Castle e quando se viu no topo, tratou de revidar as ofensas, rejeições e humilhações pelas quais passou. Até o momento em que mexeu com a pessoa errada e descobriu que quem tem telhado de vidro deve se cuidar.


Tracy Whitney

No início ela só queria justiça. Mas caiu numa armadilha e teve de amargar um terrível período na prisão. Porém, a vida é imprevisível e num capricho do destino ela se vê diante da oportunidade de se vingar. Mas a carreira de vingadora é apenas o início para a grande aventura que é  a vida dessa formidável heroína.


Leslie Stewart

Ser trocada por outra é muito ruim, mas quando se descobre isso através dos jornais é muito pior. Leslie era inteligente, bonita e sensual. E se seus atributos não eram o suficiente para manter o homem que amava ao seu lado, ela os usaria para destruí-lo.


Toni Prescott

É preciso muito cuidado para falar desse livro sem soltar spoilers, por isso, apesar de eu ser o mais evasivo possível, recomendo que quem ainda não leu pelo menos a primeira parte, pule essa personagem. Marcada por um segredo horrível em seu passado, Toni se tornou uma mulher arredia, sempre na defensiva e com uma enorme incapacidade de manter qualquer tipo de relacionamento. E a única maneira de diminuir a dor que a corroía era se vingando daqueles que, em sua mente, representavam o mundo que ela abominava. Seria uma vingança até compreensivel, se ela não direcionasse sua ira para os alvos errados.



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sob a Redoma - Stephen King


Sinopse

Num dia como outro qualquer a pequena cidade de Chester’s Mill, no Maine, é subitamente isolada do resto do mundo por um campo de de força invisível. Para piorar a situação, James “Big Jim” Rennie, político dissimulado e um dos três membros do conselho executivo da cidade, usa a redoma como um meio de dominar a cidade. O isolamento expõe os medos e as ambições de cada um, até os sentimentos mais reprimidos. Assim, enquanto correm contra o pouco tempo que têm para descobrir a origem da redoma e uma forma de desfazê-la, ainda terão de combater a crueldade humana em sua forma mais primitiva.

Resenha

Como já comentei com vocês em outro post, Sob a Redoma é o livro não lido mais antigo que tenho na estante. Comprei-o há quase dois anos e fui sempre fui deixando-o pra depois, colocando os livros mais finos na frente. Resultado: demorei muito a conhecer essa fantástica criação de Stephen King. Assisti às duas primeiras temporadas da série e um pouquinho da terceira e as comparações são inevitáveis, mas é difícil dizer o que é melhor, livro ou o seriado, pois é a mesma base para historias muito diferentes. Enquanto a série se foca mais em explorar os mistérios do domo, o livro dá maior ênfase aos conflitos humanos. O livro é empolgante desde o início, com a ação acontecendo desde a primeira página. Diferente da maioria de suas obras, King não se demora na construção de seus personagens, salvo raras exceções como o vilão Big Jim. Até porque se o fizesse o livro teria pelo menos quinhentas páginas a mais, pois são muitos. Mas mesmo pouco aprofundados, são personagens muito vívidos, sólidos e apaixonantes.

Barbie é um protagonista que me conquistou logo de cara. No livro ele não é tão ambíguo quanto na série. É claramente um herói. Descolado, corajoso e íntegro, Barbie não se intimida em confrontar Big Jim, um politico megalomaníaco, que se aproveita da situação crítica para se tornar o ditador de Chester's Mill. Big Jim é o personagem mais detestável de Stephen King. Perto do original o da série é um aprendiz. É impossível manter-se impassível diante de seu oportunismo, arrogância e crueldade. Mas sua soberba era também a sua fraqueza. Bastava algo sair fora de seus planos que ele perdia as estribeiras e era delicioso acompanhar seus acessos de fúria. Já Junior, seu filho, é um psicótico tão repugnante como o da série, porém bem menos depressivo. E é claro, Julia. Esperava encontrar no livro a mesma heroína da série, jovem, linda, correndo de um lado a outro com seus cabelos esvoaçantes, mas encontrei uma solteirona com mais de quarenta anos, cujo único companheiro era Horace, seu cachorro. Mais clichê, só se o bicho de estimação fosse um gato. Julia é uma das personagens menos trabalhadas no livro. Apesar de audaciosa e uma peça fundamental na guerra contra Big Jim, quase nada se falou sobre sua vida pessoal. Mas mesmo assim ela me conquistou.

É impressionante como o autor expõe o quanto os seres humanos podem mostrar a sua verdadeira natureza em momentos de crise. Pessoas aparentemente inofensivas se revelam capazes das piores atrocidades simplesmente por estarem protegidos pela impunidade e armados pela autoridade. Assim como há pessoas que não se deixam intimidar por essa nova ordem estabelecida e arriscam a vida numa espécie de movimento de resistência. Além de pessoas abnegadas que se dedicam em ajudar os mais debilitados, descobrindo serem muito mais fortes do que acreditavam.

O livro segue um ritmo cíclico com acontecimentos que vão se intensificando até explodir em atos de extrema de violência, com um breve momento de calmaria, onde os personagens se refazem de um grande choque, se reagrupam e fazem novas alianças, para logo depois outra série de incidentes desembocar numa nova catástrofe. O livro é viciante do início ao fim. Algumas coisas me decepcionaram no final, como por exemplo a explicação sobre a origem da redoma, que achei boba demais, mas foram meros detalhes. E o fato de King dar uma explicação já é lucro, coisa que ele não costuma fazer. Até porque a redoma foi apenas um pretexto para falar sobre o comportamento humano, do que somos capazez, pro bem e pro mal, em momentos de tensão e isso ele fez com tanta malícia, que me seduziu, me horrorizou e muitas vezes me surpreendeu. Foi uma grande aventura estar preso sob a redoma durante esses quatorze dias de leitura. Mais um livro de Stephen King que entra para os meus favoritos.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Silenciadas - Kristina Ohlsson


Sinopse

Quinze anos atrás: uma adolescente é surpreendida enquanto colhia flores e brutalmente violentada. No presente, um homem é morto em um atropelamento. Ele não tem nenhuma identificação e não é reportado como desaparecido. Ao mesmo tempo, um sacerdote e sua esposa são encontrados mortos em um aparente duplo suicídio. Fredrika Bergman, juntamente com a equipe de investigação de Alex Recht, é encarregada de investigar esses casos aparentemente desconexos. A investigação leva a uma rede de contrabando de pessoas: um novo agente a operar rotas de imigração ilegal a partir de Bangkok, Tailândia. À medida que a polícia desmantela o esquema, começa a se revelar uma trilha que remonta à década de 1980, a um crime não denunciado, mas cujas consequências irão muito além do que qualquer um poderia esperar.

Resenha

Comprei esse livro apenas pela sinopse. Não sabia que se tratava de uma autora sueca e nem que fazia parte de uma série com uma detetive como protagonista. Depois disso, é claro que fiquei com muito mais vontade de ler, pois gostei de quase todos os romances policiais escandinavos que já li e amo séries protagonizadas por detetives femininas. No início fiquei espantado com a enorme quantidade de personagens que a autora jogou em cima de mim. Como na sinopse diz que se trata da investigação de três crimes aparentemente sem ligação, já esperava que os capitulos se alternassem entre cada um dos assassinatos, porém são muitos os personagens, não apenas as testemunhas e suspeitos de cada crime, mas também entre o núcleo policial da história. A equipe é formada por quatro investigadores e cada um tem sua história, seus conflitos que se desenvolvem paralelamente à investigação.

De todos, o que menos gostei foi da protagonista Fredrika. Apesar de no seu lado profissional ela ser bastante competente, sua vida pessoal é um grande melodrama e sua atitude conformista em relação a alguns problemas me cansaram. Entendo que ela estivesse passando por uma gravidez complicada, mas seu tom lamentoso não despertou nenhuma empatia em mim. Gostei mais dos personagens masculinos. Alex, líder da equipe, cuja esposa guarda um segredo que ameaça a harmonia de seu casamento. E os detetives Joar e Peder, o primeiro um cara tranquilo e misterioso, o outro um homem de pavio curto, que antipatiza com o companheiro.

Mas apesar da imensa quantidade de personagens, a autora soube conduzir a trama com habilidade. Mesmo com tantas implicações, não fiquei perdido na história. A trama é bem intrincada, mas a complexidade de toda aquela rede de crimes ao invés de torná-la confusa, só a tornou intrigante o suficiente para que eu ficasse afoito pra chegar logo no final e desvendar todo aquele mistério. Seu texto é bem fluído, sem se demorar em descrições excessivas. Como é comum nos romances policiais escandinavos, não há nenhum enfoque em perícia criminal, as pistas são adquiridas basicamente através dos interrogatorios das testemunhas.

O livro aborda como tema principal a questão dos refugiados e embora tratado com superficialidade, achei curiosos alguns detalhes sobre o tráfico humano, um negócio milionário que explora o desespero de pessoas que dão todas as suas economias pela chance, ou ilusão, de uma vida melhor num outro país.  O final não me surpreendeu, em alguns aspectos foi até previsível, mas fiquei curioso pra saber como determinados acontecimentos se sucederam e a autora não me decepcionou com as explicações. Conforme o livro se encaminha para o desfecho fica claro quem está envolvido nos crimes, mas os motivos são mais chocantes do que aquele que eu havia suposto. Até aí a narrativa segue muito bem, os crimes são todos esclarecidos, mas a autora resolveu estragar seu bom trabalho, deixando em aberto o final de alguns personagens. Sei que é uma série e muitas situações serão retomadas nos próximos volumes, mas outras não, pois os detetives são personagens recorrentes, mas aqueles relacionados com os crimes não. Eu não tenho muito interesse em saber o destino dos personagens após os esclarecimentos dos crimes, mas custava a autora escrever um parágrafo que fosse dizendo de fulano morreu ou não? Isso diminuiu o entusiasmo que eu tive no início da leitura em acompanhar a série. Não quero passar por essa sensação de ficar no vácuo novamente.