domingo, 28 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa - David Ebershoff


Sinopse

A Garota Dinamarquesa reconstrói a história de Lili Elbe, talvez a primeira transexual da história a fazer a cirurgia de redesignação sexual (ou “mudança de sexo”). Vivendo até a meia-idade como Einar, um pintor dinamarquês na Europa dos anos 1920 e 1930, ela teve a sorte de contar não apenas com um médico pioneiro, mas com uma mulher brilhante, generosa e apaixonada, sua própria esposa, Greta, para encontrar sua verdadeira identidade. Num momento em que as questões de gênero estão cada vez mais em voga, o aclamado romance de David Ebershoff, que volta às prateleiras com novo projeto gráfico, capa com o pôster do filme e posfácio assinado pelo autor, é um livro delicado e envolvente e uma leitura necessária nos dias atuais.

Resenha

Apesar do texto fluído que cria uma narrativa cheia de frescor, o livro demora a engatar. Nas cem primeiras páginas há muitas divagações dos personagens relembrando episódios de seu passado. Esses acontecimentos são relevantes para o desenvolvimento do enredo, porém a forma não linear como são narrados torna a leitura dispersiva. Só quando a trama se fixa no cotidiano do casal protagonista e começamos a mergulhar no mundo angustiante de Einar e seu “alter ego” Lili, é que o livro começou a me prender. Coloco a expressão entre aspas porque a alternância de personalidades entre Einar e Lili, homem e mulher, dá a impressão de que duas personas habitam o mesmo corpo, havendo ocasiões em que uma delas predomina. O que faz como que o personagem seja diagnosticado equivocadamente como um caso de esquizofrenia. O livro se passa nas décadas de 20 e 30 do século passado, portanto, não daria para se esperar uma posição diferente dos médicos daquela época. Se hoje a transexualidade é algo tão controverso, o que se dizer naquela época. Tanto que até mesmo a possibilidade de uma lobotomia foi levantada.

Porém desde o começo o livro é repleto de indícios de que o problema de Einar era totalmente diferente de uma patologia. Já na infância ele já se sentia diferente e não sabia lidar com sua sexualidade. Apesar de ter nascido homem, sua personalidade predominante sempre foi a de Lili. Einar nunca existiu, foi apenas um produto do meio ambiente. No lar onde cresceu era inconcebível a ideia de um rapaz se relacionar com outros homens e Einar teve de se enquadrar no que era aceito pela sociedade, criando uma persona que correspondesse às expectativas do meio em que vivia. Mas Lili estava lá, incubada e desejando ardentemente vir à tona. E quando já estava adulto e casado ela emergiu pelas mãos de outra mulher. Num dia em que está sem uma modelo para compor um de seus quadros, Greta, esposa de Einar, pede que ele se vista de mulher e pose para ela. Lili então surge e não quer mais partir. Apesar de tanto Einar como Lili serem serem pessoas atormentadas, a versão masculina desse duo aparenta ser muito mais infeliz do que seu lado feminino. Sempre triste, retraído e cada vez mais doente tanto do corpo quanto da alma, Einar vai definhando.

No início Greta leva aquilo como uma brincadeira, mas as escapadas de Lili, que sai sozinha para se encontrar com outros homens, começam a comprometer  a integridade do relacionamento do casal. Porém ela, que no início do livro parece ser apenas uma cabeça de vento, mostra a mulher admirável que é, tendo sensibilidade o suficiente para entender o sofrimento de seu marido e buscar uma forma de ajudá-lo. Fiquei impressionado com a maturidade de Greta, que abnegadamente é obrigada a se dividir entre esposa de um homem doente e amiga de uma mulher que deseja ardentemente viver uma vida plena.

David tratou o assunto com muita delicadeza, dando a profundidade necessária aos personagens, nos apresentando sem pressa o dilema de Einar e Lili, mudando lentamente o tom do livro que se inicia com um clima leve e descomprometido e vai se adensando conforme o drama dos personagens vai se delineando. O autor em nenhum momento foi melodramático, transmitiu com elegância todo o sofrimento de alguém que não se sente à vontade em seu próprio corpo, que busca uma forma de assumir uma identidade que sempre lhe foi negada por uma sociedade que trata o que é diferente como uma aberração. O livro em nenhum momento é panfletário, os diálogos e a narrativa nunca fazem usos de frases feitas. É uma obra escrita com verdade, coragem e muito sentimento. Por vezes arrastado, o livro desafia um pouco a nossa paciência, mas a maneira como o autor lidou com o tema, compensa esses percalços.

PS: Na compra do livro eu ganhei um ingresso para o filme, fiquei super empolgado, até descobrir que só valia para as segundas feiras. Sacanagem né? Vai ficar como enfeite.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Metade Negra - Stephen King




Sinopse

Cansado de escrever livros de terror, o escritor Thad Beaumont decide por um fim a essa fase de sua carreira, matando simbolicamente George Stark, o pseudônimo que utiliza para escrever essas mórbidas histórias. Para ele, basta o reconhecimento que tem dos críticos, escrevendo alta literatura sob seu próprio nome. Mas seu pseudônimo não gosta nem um pouco de da ideia de deixar de existir. A metade negra de Thad ganha vida e clama por vingança.

Resenha


A Metade Negra é um dos muitos livros raros de Stephen King, que só são encontrados em sebos por valores extorsivos. O tinha em PDF, mas não consegui avançar com a leitura, pois ler nesse formato sempre foi uma tortura para mim. Até que tive a sorte de encontrar esse volume na Estante Virtual por um preço razoável e então não resisti. Foi com emoção que recebi o meu exemplar e pude então conhecer na íntegra essa história que é uma das mais macabras escritas pelo mestre. Porém, de tanto reclamar do PDF acabei pagando a minha língua, pois a fonte do livro é tão pequena que chega a parecer brincadeira de mau gosto da editora. A leitura não rende e por causa disso levei quase dez dias para terminar um livro de 358 páginas.

Stephen King nos traz uma premissa que nas mãos de um escritor menos habilidoso chegaria a ser ridícula. Thad Beaumont é um escritor famoso, reconhecido por suas obras de alta literatura, que usa um pseudônimo para escrever thrillers repletos de violência. Chega um momento em sua vida que ele passa a se sentir incomodado com esse outro lado de sua carreira e decide então revelar a identidade de seu pseudônimo George Stark, enterrando-o simbolicamente. O pseudônimo porém, revela ter uma identidade própria e retorna dos mortos em busca de vingança. Ou seja, um cara que nunca existiu (será?) ganha vida e passa a assassinar pessoas ligadas a Thad Beaumont, colocando o escritor sobre suspeita. Muita gente pode achar o enredo sem noção, eu também acharia se fosse escrito por outro autor, mas não é que Stephen King realmente transformou essa bizarrice num excelente suspense!

O livro começa com uma cena perturbadora. Thad, ainda criança, é operado de um tumor no cérebro e quando, na sala de operação, seu crânio é aberto, a enfermeira vê algo tão aterrador em seu interior que a faz sair correndo da sala de cirurgia. Anos depois, nos deparamos com Thad já adulto, casado, pai de um casal de gêmeos e reconhecidamente um escritor talentoso. Nessa ocasião, Thad havia acabado de renunciar ao seu pseudônimo de George Stark, após ter lucrado uma verdadeira fortuna com seus livros repletos de violência. E é a partir daí que sua vida perfeita começa a ruir. Os assassinatos cometidos por George são de uma violência extrema. E algo que me impressionou muito na narrativa de King é o recurso pouco usual de que ele lançou mão para dar mais impacto a essas cenas. Ao invés de dar destaque às vítimas, dando um perfil psicológico delas antes do assassinato, o autor se fixou nas testemunhas, nas pessoas que encontraram os corpos. Stephen dá um amplo retrato de cada uma delas e então as coloca na cena do crime, o que dá um grande. É como se as testemunhas fossem nossas conhecidas, o que nos torna mais próximos de toda ação.

George Stark, o grande vilão da história vai surgindo gradualmente. Primeiro sua existência é apenas presumida. Depois, ele é apenas um vulto visto por uma das testemunhas, uma voz ao telefone, até que ele aparece em toda a sua opulência e toma as rédeas da vida de Thad e sua família. Conforme o livro segue rumo à reta final, vamos ansiando cada vez mais pelo confronto entre Thad e George e quando esse acontece, as emoções afloram das páginas. O final é arrebatador, um dos desfechos mais espetaculares de King. O único defeito foi o excesso de profundidade nos personagens, o que comprometeu o ritmo da narrativa. King imergia em suas mentes e ali perdia a noção do tempo. São páginas e mais páginas tomadas pelas ponderações de seus personagens, o que tornou a leitura um tanto enjoativa em alguns pontos. Uma narrativa mais enxuta teria tornado o livro muito mais empolgante. Mas mesmo assim curti demais a leitura e torço para que a Suma das Letras reedite essa obra. Com uma bela capa, páginas amarelas e é claro, fontes legíveis.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Indo Longe Demais - Tina Seskis


Sinopse

Emily Coleman é uma advogada que tinha uma vida feliz, ao lado do marido e com a chegada do filho tudo parecia perfeito.  Mas certo dia ela resolve largar tudo e todos, fugir, recomeçar a vida numa outra cidade. O motivo para seu sumiço é tão traumático que ela se recusa a falar sobre isso. Emily adota uma nova identidade e recomeça suia vida. Porém, o passado sempre dá um jeito de bater à porta.

Resenha
O livro começa com uma premissa irresistível. O que levaria uma mulher a abandonar marido, filho, pais, todo um passado e recomeçar sua vida do zero? A história se inicia com Emily pegando um metrô e partindo rumo a um destino desconhecido. Em primeira pessoa, ela nos transmite toda a insegurança que sente ao chegar a um lugar estranho, sem encontrar nenhum rosto conhecido, o medo de não encontrar uma hospedagem e passar a noite na rua, a dor de deixar as pessoas que ama para trás. Emily narra de modo minucioso sua aventura em se estabelecer numa nova cidade. O choque que sente ao chegar num local decrépito, tão diferente de sua bela casa, o esforço que faz em torná-lo mais habitável, comprando objetos de decoração, sua relação com a radiante Angel, que imediatamente se torna sua melhor amiga. A pensão onde ela se instala é repleta de personagens pitorescos, porém achei uma pena a autora não tê-los desenvolvido melhor. A história dá vários saltos, deixando de trabalhar as situações de conflito. São páginas e mais páginas narrando cenas cotidianas, mas quando algo de interessante acontece, é rápido demais, não nos deixando saborear a situação.

Os capítulos são alternados entre passado e presente. No passado, a história é narrada em terceira pessoa através do ponto de vista de diversos personagens e confesso que gostei muito mais dos flashbacks do que da narrativa principal. Acompanhamos o nascimento de Emily e sua irmã gêmea, Caroline, que desde pequena tem por ela uma grande rivalidade. Caroline é mesquinha, ciumenta, fútil e problemática, enquanto Emily é uma pessoa tranquila, doce e um pouco insegura. A maneira como ela conheceu seu marido é muito fofa e fiquei encantado com o casal e torci muito para que se reencontrassem.

O livro teve um bom início, a história foi bem conduzida na metade, mas quando nos aproximamos da fase final, a autora se perde. É tudo muito entrecortado, Emily, com quem eu simpatizara no início vai se mostrando uma personagem cada vez mais patética, tomando atitudes que combinariam muito mais com a sua irmã Caroline. Sem falar nos seus acessos de frescura. A mulher viaja em pé no metrô porque tem nojo de sentar nos bancos.

O desfecho pra mim foi decepcionante. A capa promete reviravoltas no final, mas, apesar de verossímil o motivo pelo qual Emily abandona sua família não tinha nada de espantoso. E devo ressaltar que a autora jogou sujo com o leitor. Fazer com que a gente deduza algo e nos surpreender depois é uma coisa. Mas deliberadamente dizer algo no início e depois desmentir, é ser desonesto. Tanto no início do livro quanto na contracapa há uma informação descaradamente falsa e isso não dá pra perdoar. Por isso, desejo boa sorte a quem quiser encará-lo. É um livro curto, mas com muita encheção de linguiça. Uma narrativa confusa e um final frustrante. Detesto quando tenho de fazer resenhas negativas, porque significa que o livro foi uma decepção, e a gente sempre espera o melhor quando começa a ler, mas a história tomou um rumo tão sem noção que me fez perder o entusiasmo. A sinopse dá a ideia de um trhiler instigante, mas o livro é apenas um drama morno, sem nada de especial.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Sete livros ambientados na Segunda Guerra Mundial

Um dos conceitos básicos de arte é tirar da dor algo de belo. E é isso o que acontece com um dos momentos mais dramáticos da humanidade. A Segunda Grande Guerra foi retratada no cinema, nas artes plásticas, no teatro e, principalmente na literatura, onde foi dissecada e cada aspecto seu explorado. E, mais do que pano de fundo, em algumas obras a Guerra é retratada como um personagem, que interfere na vida dos demais, separando famílias, causando conflitos e aguçando a ambição daqueles que lucraram com esse lado negro da nossa História.


O Menino do Pijama Listrado

Os horrores do Holocausto narrados pelo ponto de vista de uma criança de nove anos tornou esse livro numa verdadeira fábula sobre amizade, esperança e inocência. Bruno não sabe o que é a guerra, o que é nazismo, o que é política e por que os judeus são diferentes dos demais alemães. Por isso, não entende porque teve de sair de sua bela casa em Berlim, para viver num local desolado, longe da vida com a qual estava habituado, sem ter com quem brincar e longe de seus amigos. Ele passa seu tempo na janela do quarto e de lá observa uma cerca, para além da qual centenas de pessoas vestidas de pijama circulam, o que lhe deixa com um frio na barriga. Em seus passeios, Bruno conhece Shmuel, um garoto do outro lado da cerca que, curiosamente, nasceu no mesmo dia que ele.  Floresce uma amizade entre ambos e, conforme Bruno investiga as atividades de seu pai, a verdade sobre a sua situação vai lentamente surgindo e destruindo sua inocência.


O Anel de Noivado 

A Segunda Grande Guerra separando famílias é o tema principal desse que é considerado o melhor livro de Danielle Steel. Kassandra von Gotthard, esposa de um banqueiro, se apaixona pelo escritor judeu Dolff Sterne. Quando estoura a Segunda Guerra, ele passa a ser perseguido pelos nazistas e Kassandra, por estar envolvida com esse homem acaba sofrendo as consequências. Após a morte brutal de Kassandra sua filha herda seu anel, que a acompanhará nos difíceis momentos que a guerra lhe reserva. Separada da família pelo terceiro Reich, a jovem encontra o amor, ironicamente, nos braços de um oficial nazista que é a única pessoa que pode ajudá-la fugir da Alemanha e refazer sua vida nos Estados Unidos. Lá, longe de todos os que um dia amou, seu único vínculo com o passado é o anel, que representa a esperança de um dia reencontrar alguém de sua família.


O Rouxinol

A ocupação nazista na França é a responsável pelas divergências entre duas irmãs. Após a partida do marido que ruma para o fronte, Vianne se vê sozinha com os filhos quando o país é invadido pelos alemães. Um oficial das tropas de Hitler confisca a casa de Vivian, transformando-a num quartel general e ela é obrigada a viver sob a vigilância do inimigo, submissa ao terceiro reich, temendo pela sua segurança e a dos filhos. Já Isabelle, sua irmã, é uma garota contestadora, que se apaixona por um guerrilheiro e se une ao movimento de Resistência. Cada irmã segue um caminho e as consequências de suas escolhas são imprevisíveis.


A Bicicleta Azul

Esse é o primeiro livro de uma trilogia que marcou uma geração. Léa Delmas está com 17 anos, quando conhece seu primeiro amor e com ele o sexo. É nessa mesma ocasião em que estoura a Segunda Guerra Mundial e o belo caminho que a jovem começava a traçar é brutalmente interrompido por uma dura realidade. Léa é obrigada a lidar com a ocupação nazista na França, justamente na época em que encontra um grande amor. Através da corajosa personagem, acompanhamos todo o drama da família Delmas na luta pela sobrevivência e compartilhamos das impressionantes descobertas que o amor lhe proporciona.


A Menina que Roubava Livros

Os livros são o refúgio de uma menina que tenta escapar dos horrores causados pela Segunda Guerra. Quem nos conta sua história é a morte, de cujas mãos essa garota conseguiu escapar e por quem ela se afeiçoou. Liesel é filha de uma comunista, que perseguida pelos nazistas, deixa a garota e seu irmão aos cuidados de um casal, que os adota por dinheiro. O garoto morre durante o trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. Dele Liesel se apossa, mesmo sem saber ler. Para ela, o livro é um vínculo com suas origens, um laço com seu passado. Mas conforme é alfabetizada por seu padrasto, ela passa a roubar outros volumes, enquanto acompanha à sua volta ascensão do Terceiro Reich. 


O Buraco da Agulha

A espionagem é um dos aspectos mais fascinantes da Segunda Guerra Mundial e Ken Follet é um mestre em criar tramas mirabolantes. Agulha é o codinome de um brilhante espião alemão, que se lança numa corrida contra o tempo para descobrir o segredo dos aliados e aniquilá-los. Ele é capaz de derrubar qualquer obstáculo que surja em seu caminho para alcançar o seu objetivo, até mesmo tentar matar a jovem inglesa por quem se apaixona. Mas o seu grande engano foi subestimar a perspicácia dessa mulher. Um thriller alucinante que nos lança nos momentos decisivos da Guerra e nos faz vibrar à cada página.



O Outro Lado da Meia Noite

Paixões dilacerantes se mesclam com os turbulentos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial nesse vigoroso romance de Sidney Sheldon. Na Paris, ocupada pelos nazistas, a bela Noelle se vê diante de uma perigosa missão: tirar da cidade um velho amigo judeu com quem tem uma dívida de gratidão. Já na América, a ingênua Catherine é a noiva de Larry Douglas, um piloto de avião, reconhecido como um herói de guerra, mas que é capaz de atitudes desprezíveis. A história dessas duas mulheres percorre o período entre 1919 e 1947, pegando em cheio o período da Segunda Guerra, justamente onde tanto para as personagens, quanto para o mundo, acontecimentos decisivos mudam o seu destino.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ossos Perdidos - Kathy Reichs


Sinopse

A Dra. Temperance Brennan já está habituada com casos mirabolantes que exigem sua perícia como antropóloga forense. Mas desta vez, os ossos a que lhe caem em mãos não são resultado dos crimes urbanos com o qual está acostumada a lidar. Ao visitar a cena de assassinato de um comerciante judeu ela se depara com a pista de um esqueleto que acredita-se ser de Jesus Cristo.Tempe e o namorado, o detetive Ryan se empenham na investigação e descobrem estar no caminho de poderosas instituições. As pistas levarão o casal até a Israel, onde terãod e enfrentar difíceis obstáculos para desvendar esse mistério.

Resenha

Para quem não sabe, os livros de Kathy Reichs foram a base para a série de TV Bones, a comédia policial protagonizada pela Dra. Temperance Brennan, na qual especialistas forenses vivem às voltas com complicados crimes. Mas não esperem encontrar  nas páginas a adorável antropóloga avoada e muito menos sua divertida equipe. A Dra. Brennan do livro não tem nada a ver com a personagem da série, sendo seu único ponto em comum a profissão de especialista em ossos.

Narrado em primeira pessoa pela antropóloga, Ossos Perdidos é um suspense com um ritmo incessante, que nos leva das frias salas de perícia criminal de Montreal até as panorâmicas paisagens de Jerusalém. Tive duas experiências com Kathy. A primeira foi com Segunda-Feira de Luto, um excelente thriller que pecava apenas pelo excesso de termos técnicos. Achei Kathy extremamente pedante nesse livro, dando explicações que eram covardia a um leitor leigo. Já Deja Morta, seu romance de estreia, não consegui terminar. O abandonei devido a ser exageradamente descritivo. Cada mudança de cenário me deixava desalentado, porque sabia que seriam umas cinco páginas só pra ambientar a cena. Mas em ossos o 12º livro da série, que não está sendo lançada em ordem no Brasil, notei logo de cara que a autora evoluiu muito. O livro é bem mais enxuto que os anteriores e até a personagem está mais divertida. Brennan vive soltando piadinhas durante a narrativa, a maioria, das piadas são péssimas, mas dão uma leveza bem vinda à trama.

Porém, se os detalhes forenses estão na medida certa e numa linguagem mais acessível, outro aspecto da trama empacou a leitura. O livro fala sobre o assassinato de um comerciante judeu, cujo motivo está relacionado ao aparecimento de uma ossada que remonta a época de Jesus e cuja origem pode abalar os fundamentos da religião católica. É um excelente mote para um enredo, mas são tantos detalhes históricos, cronologias e ramificações genealógicas que tem hora que o meu raciocínio dava um nó. Porém Kathy a todo instante recapitulava os fatos por meio dos diálogos de seus personagens. Quando eu achava que precisaria voltar algumas páginas para tirar algumas dúvidas, Brennan e seus parceiros recapitulavam os acontecimentos, o que facilitou muito a minha vida. Porém nada disso prejudica o ritmo dos acontecimentos. Devido a esses detalhes, a leitura não é tão fluída, mas a ação é incessante. A protagonista tem seu quarto de hotel revirado, é seguida por homens suspeitos, é encurralada numa caverna por um grupo de fanáticos religiosos e até mesmo enfrenta uma fera selvagem. O livro, além da trama policial, tem muita aventura e humor. E Reichs geralmente encerra os capítulos com um gancho, o que te faz querer ler sempre mais um pouco e nessa brincadeira, as páginas passam que nem percebemos.

Com ossos perdidos, me reconciliei com Kathy Reichs. Pretendo ler os outros livros que saíram no Brasil. Só lamento que, com uma série longa como essa, tão poucos títulos tenham sido traduzidos e ainda fora de ordem. Mas é o que tem pra hoje.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Traição - Karin Alvtegen


Sinopse

Eva é uma empresária bem sucedida que, ao descobrir que seu casamento terminou devido ao envolvimento de seu marido com outra mulher, decide se vingar. Seu caminho se cruza com o de Jonas, um jovem solitário que durante os últimos dois anos mantém vigília ao lado da namorada em coma. Porém, Jonas quer muio mais do que uma noite de sexo inconsequente e esse jogo amor, vingança e traição leva os integrantes a consequências imprevisíveis.

Resenha

A narrativa em terceira pessoa é dividida entre o ponto de vista de uma esposa traída, do marido que decide abandoná-la e de um rapaz com sérios problemas psicológicos que passa seus dias num hospital ao lado da namorada em coma. No início senti certa empatia por Eva que, desesperada com a distância do marido, faz de tudo para recuperar o clima de romance entre os dois. Henrik, por sua vez, sente uma raiva crescente de sua mulher por ela ter o mau gosto de demonstrar seu sofrimento, enchendo-o de culpa num momento em que deveria estar desfrutando da felicidade de um novo romance. Ou seja, o cara trai a esposa e ainda a culpa pelo seu próprio remorso. Desprezível, pra dizer o mínimo.

Porém, a pouca simpatia que senti por Eva, foi se esvaindo conforme ela não demonstrava nenhum amor próprio. E, como se não bastasse, quando ela decide reagir é para se empenhar numa vingança contra o marido e sua amante, que é a professora de seu filho, Linda. Eu compreendo que uma traição, principalmente num casamento de anos, deva ser algo muito doloroso, mas é algo que acontece. Se a relação terminou, que cada um vá para o seu lado. Ela poderia xingá-lo, jogar um vaso em cima dele, arrancar até suas cuecas no divórcio, mas seguir com a sua vida. Porém Eva se lança numa vingança mesquinha, o que só a faz perder a razão. Vingança de mulheres abandonadas geralmente dão ótimos enredos, mas em situações completamente diferentes. Uma jovem que tenha sido iludida, abusada ou mesmo lesada por um homem, tem de ir à forra mesmo. Mas uma mulher que uma hora está rastejando atrás do marido e na outra querendo se vingar, não demonstra nenhuma convicção no que deseja. Sem falar que a vingança é tão amadora que parece coisa de colegial.

Jonas, o rapaz com a namorada em coma, é outro que me irritou.  De início ele é apresentado como um namorado dedicado, que além de passar horas velando a namorada, tem de lidar com o TOC. Está aí um assunto que achei que tornaria sua história interessante, mas a autora explorou superficialmente o transtorno e transformou-o num personagem caricato. Seu caminho cruza com o de Eva e acreditei que a partir dali a história ficaria mais instigante, mas uma série de mal entendidos leva a um final decepcionante. Acompanhar toda aquela comédia dos erros para me deparar com um desfecho daqueles, foi de matar. A única vantagem é que o livro é bem curto.

Como ponto positivo, devo ressaltar as questões sobre fidelidade que a autora consegue levantar através dos diálogos entre Eva e Jonas. A autora conseguiu tocar num ponto sensível que nos leva a boas reflexões sobre onde começa a verdadeira traição. Será que trair é continuar com alguém, mesmo não havendo mais amor? Traição levanta essas questões, mas de uma maneira desajeitada, que não me cativou nem um pouco.