domingo, 20 de novembro de 2016

O Órfão de Hitler - Paul Dowswell



Sinopse

Piotr é um menino polonês quando os nazistas invadem seu país e matam seus pais. Seu destino parece traçado: viver num orfanato, sendo depois oferecido para trabalho escravo. Mas seus olhos azuis, seu cabelo loiro e sua pele clara fazem dele um exemplo da raça pura, um modelo para a Juventude Hitlerista. Então, os alemães o entregam a uma família nazista. Só que Piotr, que nunca deixa de se sentir estrangeiro junto a sua nova família, começa a formar seus próprios conceitos sobre o que vê e o que lhe é dito. Ele não quer ser um nazista. E então assume um risco – o mais perigoso que poderia escolher na Berlim de 1942.

Resenha

A Segunda Guerra é um dos assuntos que mais me fascinam, principalmente quando se fala nos horrores do nazismo, uma mancha tão repugnante na História da humanidade que não dá para ficar impassível. Porém, diferente de todos os livros que li sobre o assunto, este mostra não o ponto de vista das vítimas ou dos oponentes do nazismo, mas dos cidadãos alemães que simpatizavam com a ideologia do terceiro reich. A narrativa é uma espécie de crônica da Alemanha nazista, retratando o cotidiano de uma sociedade mobilizada nos esforços de guerra e convicta de que os ideais defendidos por Hitler eram uma verdade absoluta. Fiquei abismado com a intensidade com a qual aquelas pessoas acreditavam estar fazendo a coisa certa seguindo os princípios de superioridade ariana que o ditador lhes incutia. Eles realmente acreditavam que faziam parte de uma raça superior e que os judeus deveriam ser exterminados da face da Terra para manter a pureza de sua espécie. O ódio que sentiam desse povo era irracional e a adoração por Hitler chegava a ser bizarra. O autor chega a mencionar uma versão da música Noite Feliz cantada pelos alemães naquela época, onde o nome de Hitler foi incluso na letra, de modo a exaltá-lo. Era uma crença cega em um homem que cometia crimes horrendos, mas que para eles estava salvando a Alemanha.

Mas é claro que nem todos partilhavam desse fanatismo, porém dizer qualquer coisa contra o Reich era correr o risco de ser deletado e mandado para um campo de concentração. O autor reproduziu muito bem todo clima de terror que havia na época, onde demonstrar compaixão por um judeu era praticamente assinar a própria sentença de morte. Porém, mesmo sabendo disso havia pessoas que se arriscavam em perigosas missões para tentar sanar um pouco do mal que era disseminado pelo nazismo. E uma delas é o protagonista Piotr, um órfão polonês que, retirado de um orfanato onde vivia em condições degradantes, é acolhido por uma família alemã e passa a viver como um deles. E isso significa ser um adepto fanático do nazismo. Porém, sua personalidade forte, sua coragem e boa índole entram em conflito com o que está acontecendo ao seu redor. Enquanto ele ainda é criança esses conflitos são interiores. Ao mesmo tempo que ele é apegado às suas origens polonesas, também é leal à família que o acolheu. Por isso, além da guerra que acontece lá fora, há uma grande guerra em seu interior, com sua compaixão pelos judeus se confrontando com sua vontade de ser um herói de guerra alemão e assim retribuir a hospitalidade do país que o recebeu e da família que o adotou. Mas conforme ele cresce, sua nobreza de caráter começa a falar mais alto, fazendo com que questione se ser um herói nos campos de batalha é mais importante que ajudar as vítimas indefesas que se esgueiram pela sua cidade.

Muita coisa no livro me deixou chocado, tanto em relação à hipnose coletiva que o povo alemão parecia estar sofrendo, idolatrando um monstro, quanto à maneira como os judeus eram tratados, mas o que me deixou enojado foi saber o que médicos alemães faziam com as crianças que sofriam de algum tipo do que eles chamavam de anormalidade. É doloroso saber que há apenas setenta e poucos anos as pessoas poderiam acreditar em algo tão absurdo e cometer crimes tão bárbaros em nome disso.

O livro tem uma bela reconstituição de época, mencionando muitos personagens reais, embora haja algumas discrepâncias cronológicas que o próprio autor justifica no final.
Personagens cativantes, embora um tanto superficiais. E uma tensão crescente que vai se intensificando, conforme o cerco vai se fechando tanto para a Alemanha, quanto para os personagens. Uma história que mostra que heróis de guerra não são apenas aqueles que são condecorados. Podem ser qualquer um. E criminosos de guerra não são apenas aqueles execrados publicamente. Podem ser cidadãos aparentemente inofensivos.





4 comentários:

  1. Olá Ronaldo!
    Incrível como temos um gosto literário parecido.Gosto das suas resenhas por que sempre encontro ótimas indicações.Eu adoro livros que falam sobre a Segunda Guerra,porém me deixa doente ler sobre isso.Não entra na minha cabeça o mundo permitir o que aconteceu.Fiquei super interessado nesse livro.Obrigado por mais uma dica!Abraço.

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    1. É muito difícil mesmo aceitar que seres humanos agiram dessa maneira.

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  2. Parece ótimo Ronaldo. Vou ler esse livro!!!!

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    1. Acredito que você vá gostar, principalmente devido ao seu estilo de leitura.

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