quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Os Pássaros - Frank Baker




Sinopse 

Pássaros. Milhares, talvez milhões, sobrevoam Londres, de forma aparentemente inexplicável e sem sentido, onde parecem observar os habitantes da capital, que os consideram divertidos, se tanto um pouco estranhos. Enquanto as pessoas ainda tentavam entender o que faziam ali, eles começam a atacar, ferindo e até mesmo matando com tremenda brutalidade e violência. Seriam eles uma força da natureza ou uma manifestação sobrenatural? Ninguém sabe. A única certeza é que o objetivo dos pássaros é a destruição da humanidade e ninguém tem ideia de como impedi-los.

Resenha

Em 1963 entrou em cartaz o filme Os Pássaros, dirigido por Alfred Hitchcock e, segundo ele, baseado livremente no conto de Daphne du Maurier. Porém assim que a fita foi anunciada, Frank Baker, um escritor inglês mandou uma carta ao famoso diretor de cinema alegando ser sua a autoria da obra original e reivindicando uma compensação financeira. Essa nunca veio, mas após o lançamento do filme o livro de Baker foi reeditado e possivelmente vendeu bem mais que as trezentas cópias da primeira edição. Além de eu amar a obra de Hitchcock, toda essa polêmica aumentou minha vontade de conhecer a obra de Frank Baker, que chegou aqui pela Dark Side.

Narrado em primeira pessoa, o livro é um relato de um pai contando fatos ocorridos em sua juventude para sua filha. Logo no início sabemos que o mundo não é mais o mesmo depois da passagem devastadora dos pássaros e acompanhamos a prosa melódica do narrador contando como tudo aconteceu. O protagonista é um jovem de classe média, que tem um emprego burocrático e vive com a mãe viúva. Ele tem uma visão crítica da sociedade, descrevendo seus hábitos com um sarcasmo que denota o quanto acha fútil o modo de vida do europeu moderno. Seu desdém pelas convenções sociais, pelos avanços tecnológicos, pela futilidade do consumismo, pela hipocrisia da sociedade são alardeados sem reticências em sua narrativa. Porém, sendo um membro dessa mesma sociedade, ele é obrigado a ceder, a muitas vezes dançar conforme a música, a se submeter aos desmandos de um chefe arrogante por necessitar do emprego, a esconder sua bissexualidade, apesar de não negá-la a si mesmo. E, sendo uma pessoa com uma percepção incomum, vivendo uma vida comum, isso parece sufocá-lo. Tanto que seu texto, apesar de conter um humor irônico, tem um toque de amargura. É somente em contato com a natureza que ele se torna pleno. É entre a erma vegetação que ele encontra a sua paz e se despe do personagem que mascara seu verdadeiro eu.

E eis que surgem os pássaros. Eles surgem de modo esporádico, primeiro despertando a curiosidade da população que fica desconcertada com aqueles grupos de aves que do nada começam a se reunir e se aproximar das pessoas. Mas não tarda para que o inusitado logo se transforme em ameaça, com os primeiros ataques contra os humanos. Os pássaros zombam da população, fazem cocô em Hitler durante um de seus discursos, atacam o Rei da Inglaterra, matam um executivo e até mesmo pertubam o Papa em uma de suas aparições públicas. Como se assim  tripudiassem das convenções da sociedade. O livro também dá muita ênfase a relação urbanidade versus natureza. Há uma grande exaltação à pureza da vida campestre, tanto que quando o protagonista sai de férias para uma temporada no campo, descobre que aquele é um lugar do qual os pássaros nunca se aproximaram.

Quanto à polêmica envolvendo o filme, como não conheço o conto de Daphne, não tenho como afirmar se há algum plágio da obra de Frank Baker. Mas o filme de Hitchcock tem muitas semelhanças com esse livro. O protagonista que se envolve com uma estrangeira, a cena onde uma mulher é atacada na cabine telefônica e o horror catastrófico que vem do céu. Mas, apesar de ter uma atmosfera de terror, Os Pássaros é um livro que não se enquadra apenas nessa categoria. É uma obra ampla demais para ser definida num único gênero. Tanto que o livro não tem o ritmo de um thriller. Há muita ação, porém esta é psicológica. O autor nos conduz com maestria através de uma viagem pela alma de um protagonista admiravelmente bem construído, fazendo com que vivamos seus dilemas mais profundos. Mas também há muito suspense. Sem falar nas cenas de um horror apocalíptico em que os pássaros fazem as suas investidas. As trinta últimas páginas são uma leitura espetacular com cenas épicas de catástrofe. Tudo isso num texto rebuscado, por vezes melancólico, mas de uma fluência que te faz virar as páginas sem nem perceber.









4 comentários:

  1. Olá Ronaldo!!
    Putz!!Esse livro está na minha lista desde que vi que ia ser lançado e agora com sua resenha fiquei ainda mais animado em adquiri-lo.
    E o mais interessante é que pela sinopse eu espera um terror\suspense mas agora com sua resenha vejo que o livro abrange outros assuntos.
    Querendo pra agora esse livro.

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    1. É um livro bem diferente daquilo que eu supus, mas não foi decepcionante.

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  2. Sua resenha ficou muito boa, Ronaldo! Descreveu muito bem a leitura de Os Pássaros. Fiquei curioso para ler a história da outra autora e rever o filme, mas creio que o livro acabou indo além do filme, principalmente, nesta questão filosófica. Para afirmar, só depois de assistir... Mas foi a impressão que eu tive.
    Abraços

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    1. Se realmente Hitchcock se baseou nesse livro foi uma livre adaptação, pois o enfoque é bem diferente mesmo.

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