quinta-feira, 19 de maio de 2016

Menina Má - William March



Sinopse

Um livro polêmico, que se tornou o maior sucesso de um autor até então obscuro, Menina Má fala sobre a maldade infantil. Pouco depois de ganhar uma medalha em um concurso de caligrafia, almejada intensamente por sua colega Rhoda, o pequeno Claude é encontrado morto. Não tarda para que Christine, mãe de Rhoda, desconfie de que a filha tenha algum envolvimento com o acidente que vitimou o garoto. Porém  a ingênua mulher não está preparada para enfrentar a dura realidade que é a de descobrir as verdades perturbadoras que escondem aquela enganosa inocência infantil.

Resenha

Embora o tema da maldade infantil ainda seja um tabu na vida real, fazendo com que muitas pessoas ainda resistam a aceitar o fato de que crianças sejam capazes de cometer crimes, na cultura pop, o tema é muito comum, tendo sido explorado por diversas perspectivas nos mais variados estilos literários e em diversas mídias. Mas na década de cinqüenta, abordar um tema tão controverso quanto a psicopatia infantil, ainda era algo muito ousado e esse foi um dos motivos de toda a polêmica que o livro de maior sucesso de Willian March suscitou. Menina Má foi publicado numa época em que a psicanálise estava em voga, assunto nas rodas de festas, principalmente os estudos de Sigmund Freud e a influência das teorias do psicanalista na obra de Bill é evidente.

O início da narrativa é bastante dispersivo, o que acredito que pode testar a paciência do público mais acostumado aos thrillers modernos. Embora a primeira cena já traga uma alusão ao temperamento excepcionalmente maduro da garota Rhoda, o autor apresenta uma larga galeria de personagens imersos em diálogos paralelos ao enredo principal, que pode chatear alguns leitores. Mas logo se percebe que tudo o que é dito naquelas longas conversas de salão é relevante para o enredo. Willian na verdade usa esse artifício para preparar o palco para o grande drama psicológico que vem a seguir. Ele pinta um mundo insano, onde as pessoas escondem os maiores conflitos interiores por trás de uma aparente descontração. Onde há propósitos obscuros por trás dos gestos mais banais, onde as pessoas demonstram atitudes de uma extrema mesquinhez, como a dama da alta sociedade que pisa no vestido de uma mulher numa festa por ciúme do próprio irmão, ou o zelador que pratica atos de vandalismo por um mero ressentimento social. O autor discorre por diversos motes da psicologia no decorrer do livro como homossexualidade “incubada”, incesto e complexo de Édipo. Um exemplo desse último tema é quando Claude, um ingênuo menino apresenta o costume de chamar sua mãe Hortense de “minha namorada”.

Mas quando estamos por volta da página 70, Rhoda diz ao que veio e somos lançados no meio de um turbilhão de acontecimentos desencadeados pela mal explicada morte de uma criança. A partir daí o lado sombrio da menina começa a emergir a ponto de sua mãe Christine começar a encarar a verdade de que sua filha é realmente uma menina má. É dilacerante a maneira como acompanhamos o sofrimento de uma mulher dividida entre se iludir ou aceitar o fato terrível de que colocou no mundo alguém com uma índole assassina. E o que é pior, que apresenta essa tendência desde a infância. Mas os pontos altos do livro são os confrontos entre Christine em Rhoda. O desespero da mulher em contraste com a frieza da filha, que tem uma habilidade incrível de sair pela tangente, sempre adulando a mãe quando ela a coloca contra a parede, dão uma dramaticidade teatral ao livro. Sem falar num recurso narrativo que hoje em dia é até clichê, principalmente por ter sido utilizado exaustivamente em telenovelas, mas que serve muito bem a esse livro, que é a famosa arma de fogo na gaveta. O autor por diversas vezes menciona uma pistola que Christine guarda em sua cômoda e o conhecimento desse detalhe, adicionado ao clima tenso do livro, dão uma aula de suspense. Tenho de ressaltar uma personagem interessantíssima que vive borboletando pelo livro que é Monica, vizinha de Christine, uma senhora que vive falando de psicologia, posando como uma grande entendedora da alma humana, mas que não percebe todo o sofrimento pelo qual sua amiga vem passando. Toda sua racionalidade não tem nenhuma utilidade prática na vida cotidiana e senti na construção dessa personagem uma crítica do autor aos profissionais da psicanálise. Monica acha que sabe de tudo por ter acesso a um conhecimento acadêmico, mas na verdade, não consegue enxergar o óbvio.

O que senti falta no livro foram mais desdobramentos. Embora o autor nos prepare revelações surpreendentes no decorrer da trama, o enredo tinha potencial para muito mais acontecimentos. A maioria da ação é psicológica e eu gostaria muito de ver Rhoda aprontando mais algumas de suas artes criminosas. Não que o que ela tenha feito nessas 261 páginas tenha sido pouco, mas esperava que sua capacidade para praticar o mal fosse mais desenvolvida, já que fica claro logo no início que ela não se detém diante de nenhum dilema moral. Mas isso não impacta em nada na qualidade da leitura. À cada página eu ficava mais ansioso em saber no que todos aqueles acontecimentos iam dar, até chegar na última página e me deparar com um final que, apesar de não ter me surpreendido, foi perversamente irônico.


13 comentários:

  1. Olá Ronaldo!
    Quero muito ler esse livro! Desanimei um pouco no começo da resenha, quando você diz que o começo é fragmentado, mas ainda assim quero ler. Gosto muito desse tipo de história.
    Bjs

    EntreLinhas Fantásticas - Participe do nosso SORTEIO do DIA DO ORGULHO NERD

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    1. Quem desistir no início perderá um grande livro, pois depois que ele ganha ritmo, é difícil de largar.

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  2. Essa deve ser a capa mais linda sua estanteeeeeee não creio que vc comprou esse livro. Eu já tinha visto um video falando que esse livro era super denso e lento rsrs. Vc ama esse gênero então já seria óbvio que vc ia gostar. Se ele fosse mais assustador e ela matasse horrores de pessoas seria bem mais legal né kkkkkkkk se ela fosse tipo A ÓRFÃ (do filme) kkkkkkkk melhor filme!!!

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    1. Com toda a certeza é a melhor capa, não só a capa, mas todo o trabalho gráfico é lindo. O livro não chega a ser denso, mas enrola um pouco no início. E em caráter, ela não fica muito atrás da Orfã não.

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  3. Oi, Ronaldo! Adorei sua resenha. Estou lendo Menina Má e adorando. Gostando do ritmo rápido, dos personagens que se sentem em um divã e dos conflitos.
    Abraços
    Blog do Ben Oliveira

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    1. Os personagens são um verdadeiro poço de complexos, adorei a construção de cada um deles.

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  4. Parece interessante e diferente.
    Adorei a resenha.

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  5. Nossa, esse já está na minha lista. Fiquei bem curioso de como é o final,não vejo a hora de ler. A darkside books está fazendo um ótimo trabalho, essa capa é muito bonita.

    naciadelivros.blogspot.com

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    1. Eles capricham demais em todas as suas edições, Rafael. Mas essa capa está entre as melhores. Acredito que você vá gostar, pelo que costuma ler.

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  6. Acabo de comprar o meu! Ótima resenha parabéns.

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  7. Olá Ronaldo! Quero muito ler esse livro!!!! Adorei sua resenha e como sou fã de um suspense fiquei feliz de saber que posso esperar muitas emoções desse livro!

    Grande abraço
    eventualobradeficcao.blogspot.com.br

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