domingo, 22 de maio de 2016

A Cor Púrpura - Alice Walker


Sinopse

Premiado com um Pullitzer e cuja adaptação cinematográfica é uma das obras primas de Steven Spielberg,  A Cor Púrpura é a história da difícil vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Pobre e praticamente analfabeta, Celie foi abusada desde a infância pelo padrasto e depois pelo marido. Um universo delicado, no entanto, é construído a partir das cartas que Celie escreve e das experiências de amizade e amor, sobretudo com a inesquecível Shug Avery. Apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder, em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais.

Resenha

O livro é narrado de forma epistolar. Em sua vida desalentadora, Cellie tem como única válvula de escape as cartas que escreve para Deus. Nelas, em sua escrita rudimentar, cheia de erros de ortografia, muitas vezes com frases desconexas, Cellie discorre sobre sua vida sofrida, tendo de se submeter aos abusos físicos e psicológicos de um padrasto e saindo das mãos dele para se casar com um homem que não a trata nem um pouco melhor. A narrativa desajeitada de Cellie compromete a fluência da leitura nas primeiras páginas, mas logo você se acostuma e descobre que aquela escrita dá uma autenticidade dilacerante aos seus relatos. Com seu jeito simplório, Cellie nos transmite a sua visão de mundo, retratando uma sociedade opressora em relação aos negros e duplamente opressora em relação à mulher negra, já que esta é subjugada tanto na rua, como dentro de seu lar.

Os personagens são de uma riqueza impressionante. Uma delas é Sofia, a mulher que não se deixa dominar pelo marido, Harpo, o que para ele é visto como uma aberração a ponto do rapaz não saber como lidar com essa situação. Afinal, cresceu vendo as mulheres como criaturas subservientes, a começar por Cellie, sua madrasta. Esta chega a se sujeitar à extrema humilhação que é a de cuidar da amante do marido, que se recupera de uma enfermidade. Porém, o que não se poderia esperar eram os frutos que a relação entre as mulheres lhe traria.  A amizade entre elas não tarda a acontecer.  Shug lhe apresenta um mundo novo e ensina a Cellie que ela tem todo o direito de ser amada, de ser tratada com respeito e carinho. É muito bela a transformação de Cellie, que aos poucos começa a enxergar o marido como ele realmente é, não o seu dono que tem o direito de lhe agredir porque a sustenta, mas um boçal.

Nessa fase do livro, as cartas de Cellie passam a ser dirigidas à sua irmã, Nellie, que é missionária na África. E temos também acesso as cartas que Nellie envia, relatando sua vida no outro continente. Essas cartas trazem um panorama da cultura africana, descrevendo lindamente os costumes de um povo, a opressão que também acomete os negros em sua própria terra de origem e os conflitos que surgem em seu caminho, do outro lado do mundo.

Apesar da seriedade dos temas abordados, Cellie tem um humor ingênuo, o que diminui o impacto de sua narrativa sobre a dura realidade dos negros no Sul dos Estados Unidos, mas não mascara a crueldade com que estes eram tratados pelos brancos. Além disso, é um livro que trata do feminismo com um admirável discernimento, sem os extremismos que vemos hoje em dia.  Mas, além disso, A Cor Púrpura é um livro de uma profunda humanidade, a jornada de autoconhecimento de uma mulher que narra de um modo singelo seu desabrochar.


2 comentários:

  1. Eu já ouvi falar nesse livro, mas nunca procurei saber mais sobre ele. Gostei da sua opinião e vou procurar para ler.
    Adorei a sua resenha e estou te seguindo aqui..

    Abraço!

    http://www.lendo1bomlivro.com.br/
    Instagram: @lendo1bomlivro

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    1. É uma ótima leitura, difícil não se emocionar.

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