domingo, 27 de março de 2016

Mr. Mercedes - Stephen King


Sinopse

Em uma cidade do Centro-Oeste, centenas de pessoas desempregadas estão na fila para uma vaga numa feira de empregos. Sem qualquer aviso um motorista solitário irrompe no meio da multidão em um Mercedes roubado, atropelando os inocentes, dando ré e voltando a atropelá-los. Oito pessoas são mortas, quinze feridos. Em outra parte da cidade, meses mais tarde, um policial aposentado chamado Bill Hodges é ainda assombrado por um crime sem solução. Quando ele recebe uma carta enlouquecida de alguém que se auto-identifica como privilegiado e ameaça um ataque ainda mais terrível, Hodges se empenha em evitar outra tragédia. Brady Hartfield adorou a sensação de morte sob as rodas da Mercedes, e ele quer aquela corrida de novo. Apenas Bill Hodges, com um par de aliados altamente improváveis, pode prender o assassino antes que ele ataque novamente. E eles não têm tempo a perder, porque na próxima missão de Brady, se for bem sucedido, vai matar ou mutilar milhares.

Resenha

Quando eu soube que Stephen escreveria um livro policial fiquei com um pé atrás, já que esse gênero nunca foi a sua praia. Em uma entrevista, o autor disse que nunca escreve um livro com um final pronto. O desenvolvimento de seus enredos acontece durante a escrita, ou seja, ele começa uma história sem ter ideia de onde ela vai dar. E como em histórias policiais geralmente o desfecho é criado primeiro, achei que o livro se seguraria pelas características de King que já conhecemos, como os personagens bem escritos, a atmosfera de terror e aquele texto que conversa com o leitor, e não como um romance policial por si só. Encontramos todos esses predicados de Stephen King em Mr. Mercedes, mas como trama policial o livro não deixa nada a desejar.

Não há qualquer mistério em relação à identidade do assassino, sendo revelada logo no início, quando Brady nos é apresentado. Um rapaz desprezível, que se ressente do mundo e não tem o menor remorso em punir pessoas inocentes pela miséria humana em que vive. Brady é pequeno em seus sentimentos, mas capaz de atos monstruosos. Uma criatura invejosa, que se ressente da felicidade alheia e também explora a infelicidade do próximo. Espantei-me com o seu nível de perversidade e com sua capacidade de manipular mentes perturbadas. Mas apesar de seu potencial para destruir vidas, ele não é aquele tipo de vilão com excesso de auto-segurança. Pelo contrario, é muito fácil tirá-lo do sério. Diferente daqueles serial killers frios, inabaláveis, que estão sempre um passo a frente do detetive, Brady vive metendo os pés pelas mãos. E é muito divertido quando  Hodges, o detetive que o persegue, consegue desestabilizá-lo durante as conversas que eles têm pelo site Blue Umbrella (daí o guarda chuva azul da capa).

Por falar em Hodges, é um dos protagonistas mais cativantes de Stephen King. Um detetive aposentado que no início do livro se encontrava imerso numa profunda apatia, volta e meia pegando sua velha arma e cogitando a possibilidade de acabar com sua vida sem sentido, curtindo um profunda solidão amenizada somente pela  amizade que cultiva com Jerome, um adolescente brilhante, gênio da computação, cujos conhecimentos se tornam fundamentais em sua caçada ao assassino do mercedes. É curioso acompanhar a trajetória de Hodges durante o livro, vê-lo aos poucos saindo se seu estado depressivo, conhecendo uma mulher que lhe dá uma nova motivação para viver e, ao ser atingido por um tragédia pessoal causada por seu adversário, não se entregando à dor, mas perseguindo com um afinco ainda maior o responsável por todas aquelas atrocidades.
Outro ponto que me deixou deliciado foram as referências à algumas de suas obras.

A única coisa que me incomodou foram algumas cenas narradas no presente. Não entendi a necessidade disso, já que dá muito bem para diferenciar os fatos atuais dos flashbacks. Sempre que leio cenas narradas no presente, parece que estou diante de um roteiro e não de um livro. Também estou tentando perdoar King por algo que acontece na pagina 258, mas apesar de compreender que foi um fato necessário para o desenvolvimento da trama, fiquei muito desolado. E um último ponto negativo foi o fato de que na reta final o livro dá uma empacada. O autor se demora demais descrevendo os preparativos de Brady para um novo atentado. Isso faz com que o suspense crescente perca a força e teste a paciência do leitor. Mas King compensa esse marasmo criando um clímax vertiginoso nos últimos momentos do livro.

Senti nessa obra uma forte presença do estilo de Richard Bachman, pseudônimo que o ator utilizou para escrever alguns de seus livros mais violentos e fico feliz em saber que esse lado de King continua ali, à espreita. Mr. Mercedes é o primeiro livro da trilogia Bill Hodges e termina com um gancho que me deixou ávido pelo próximo volume. Espero que a segunda parte não demore a chegar ao Brasil.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Capa do filme versus capa original

Capa do filme ou capa original, qual vocês preferem? Acredito que os amantes de livros sempre vão dar preferência à original, já que muitas vezes a adaptação não é nada fiel ao livro e a capa vende uma imagem que não tem nada a ver com o que vai se encontrar nas páginas. Como, por exemplo, a foto de um ator que não corresponde em nada a descrição do personagem. E quando as editoras substituem as capas antigas pela do filme e a versão anterior desaparece do mercado? Muitas vezes somos obrigados a comprar um livro com a foto de um filme que detestamos. Mas há algumas capas de filmes que valorizam muito mais a história do que a capa original. Gostando ou não, de uns tempos pra cá se tornou obrigatório trocar a capa quando um livro é adaptado. Por isso, é melhor se acostumarem.


Eu até gostei da escalação de Bem Afleck para o papel de Nick, mas prefiro mil vezes a capa original por vários motivos. Primeiro é que é muito estranho você ver um livro com a palavra “garota” no título e dar de  cara com um marmanjo.  Tudo bem que há o sugestivo  olhar de Amy por trás dele, mas nem dá pra notar direito. Outro  motivo é que a capa antiga, além de linda, é muito mais sugestiva. Os cabelos esvoaçando, como se ela estivesse fugindo, as letras rosa, o fundo negro, traduzem muito bem a essência do livro.


No caso de Lugares Escuros, mesmo a capa original seguindo o mesmo belo padrão do livro anterior, fico com a capa do filme pelo fato de que é muito mais artística e mal dá pra identificar a Charlize Teron ali. 


Não gosto de nenhuma delas, mas prefiro a capa original pelo simples fato dela não exibir a cara de pamonha da Kristen Stewart. Além disso, a capa da maçã, se tornou um ícone. Tenho uma amiga que não gostava de ler, mas  de tanto ver pessoas no metrô lendo aquele “livro da capa preta”, se interessou e acabou virando uma leitora. Só por isso essa capa já virou um clássico. Mas qe parece capa de livro hot, isso parece.

Gostei muito da escalação dos atores em A Culpa É das Estrelas, mas não dá pra negar que a capa original se tornou uma verdadeira marca. Tanto que virou moda estampar objetos com o Okay, com as cores da capa no fundo.

No caso de O Senhor dos Anéis, a capa da edição unificada ficou primorosa,  além de facilitar muito a vida, botando toda a saga num volume só.



Em A Hospedeira, mais uma vez a capa original é mil vezes mais bonita do que aquele cartaz do filme. Eu tenho essa edição antiga e juro que um dia ainda lerei.


A 5ª onda teve duas capas do filme, mas nenhuma superou a original.


No caso dessa obra, primeiro ela foi lançada em fascículos, com o título de O Corredor da Morte.  Na ocasião do filme, lançaram essa capa com Tom Hanks que parece um daqueles cartazes antigos de cinema. Não curti. Mas a Suma das Letras teve o bom gosto de lançar uma capa tão sensível quanto o coração do gigante John Coffey. Sem falar na fonte bem mais legível que aqueles pontinhos microscópicos da Objetiva.


Cate Blanchet é linda, mas Carol tem muitas capas melhores que a do filme.


No caso de A Garota Dinamarquesa, não só a capa, mas o título também mudou. Desde o sucesso do livro de Gyllian Flynn, garota virou a palavra da moda.  Nesse caso não  gostei de nenhuma das capas.


O silêncio dos Inocentes é outro exemplo de livro que já chegou com a capa do filme. Posteriormente houve uma reedição na coleção Supersellers com uma capa nova. Já os demais livros da série, que também foram adaptados, tiveram mais de uma capa, exceto Hannibal. Achei que por causa da série haveria uma reedição, mas não rolou. E agora que cancelaram a série, acho mais difícil ainda darem alguma atenção a Thomas Harris. Também, o cara não publica um livro novo há milênios.


Essa onda de edições com a capa do filme não é recente. Foram lançadas duas edições de bolso de O Iluminado na década de 80 estampando Jack Nicholson na capa. Mas nenhum supera a última lançada pela Suma.



A reedição de Carrie é uma das capas que mais gosto, Carrie sangrenta é outro nível. Certa vez encontrei o livro com a capa do filme na edição de bolso por um valor ínfimo, mas fiz questão de comprar a edição tamanho normal. A Suma já havia relançado Carrie recentemente e a capa não era ruim. Aliás, notei que as capas de Carrie passaram por uma ''evolução das espécies'' no decorrer dos anos. As primeiras eram muito toscas.

Há casos como o de Nicholas Sparks, onde alguns livros só recebem a edição do filme. A minha capa preferida é a do querido John.


E por que será que a série Harry Potter, nunca recebeu edições com as capas dos filmes?

Espero que tenham gostado do post. Capas de livros têm se tornado cada vez mais relevantes e por isso terão um marcador exclusivo aqui no blog. Afinal, quem nunca comprou um livro pela capa?


quinta-feira, 17 de março de 2016

O Fio do Bisturi - Tess Gerritsen


Sinopse

Para a Dra. Kate Chesne, aquele parecia ser mais um procedimento cirúrgico de rotina, mas após injetar a anestesia o monitor disparou o alarme. O coração da enfermeira Ellen O’Brien havia parado. Um óbito estúpido e absolutamente inesperado. E todas as suspeitas recaem sobre Kate. Afinal, tudo indicava que ela havia avaliado erroneamente o eletrocardiograma de Ellen. Para David Ransom, o caso começou encerrado. Má prática. Como advogado da família O’Brien, ele iria condenar a anestesista em um estalar de dedos. Afinal, essa era sua especialidade. Mas ele não esperava ter seu escritório invadido por Kate, tampouco ser desafiado a buscar a verdade. Kate estava certa de que fora usada. Quando um médico e uma enfermeira são encontrados com os pescoços lacerados, David começa a dar crédito a ela. Um assassino anda a solta entre os pacientes e a equipe do Hospital de Honolulu. Agora David busca respostas para as mesmas perguntas de Kate. Quem será o próximo? E por quê?

Resenha

Esse livro é uma grande prova de que nem sempre o talento é nato. Muitas vezes o autor desenvolve sua capacidade de escrita com o tempo. Publicado em 1990, O Fio do Bisturi é um dos primeiros livros de Tess, da época em que ela ainda se dedicava ao suspense romântico. E bota romântico nisso. O tom do livro é tão meloso que chega a ser cafona. Assim que Kate, a protagonista, conhece David, o advogado que a acusa, ela sente uma quase incontrolável atração física por ele. Até aí, tudo bem, um leve clima de romance geralmente dá mais sabor a uma trama de suspense, mas Tess exagera, fazendo com que a personagem viva pelos cantos devaneando sobre a virilidade do advogado. É só olhar pra ele que ela já  imagina “aquelas mãos enormes  tocando seu corpo”, “seus dedos passando por aquele peito repleto de pelos dourados ”,  “aqueles lábios a beijando”. É muito forçado. É o mesmo estilo de escrita daqueles livros Julia, Sabrina, Bianca, só que elevado ao cubo. Se em alguns livros eu acho graça dessas cenas, nesse chegou a me dar vergonha alheia. É muito brega.

Mas, por incrível que pareça, após a página cem, a trama policial, que até então estava morna, me fisgou. O passado sofrido de um dos personagens é revelado, novas implicações vão surgindo e o clima de perigo iminente fazem com que o enredo tenha desdobramentos inesperados. Outro ponto positivo foi o humor. Assim que a trama se acelera e o casal começa a se entender, o livro começa a ser pontuado por um humor ingênuo, mas muito bem vindo. Consegui desvendar parte do mistério, e a solução me remeteu a alguns dos enredos da série Rizzoli. Ali tive um vislumbre da autora brilhante que Tess se tornaria uma década depois.

É um bom livro para quem está se iniciando em histórias de suspense. Já os leitores com mais bagagem, certamente se decepcionarão, pela narrativa sem vigor, pela trama banal e principalmente pelo apelo romântico. Quem ainda não a conhece, recomendo que não comece por esse livro pois seria injusto com a autora. Todos os mais de quinze volumes publicados pela Record são excelentes, portanto, não faltam opções. Escolham qualquer um, só não deixem de lê-la.

terça-feira, 15 de março de 2016

Nudez Mortal - J.D. Robb


Sinopse

A tenente Eve Dallas está à caça de um assassino cruel, cujas vítimas são prostiutas que vivem na Nova York de 2058. Em mais de dez anos na força policial ela já viu de tudo e sabe que a própria sobrevivência depende de seus instintos. Eve avança contra todos os avisos que lhe dão para não se envolver com Roarke, bilionário irlandês, o principal suspeito de um dos casos de assassinato que ela está investigando. A paixão e a sedução, porém, possuem regras próprias, e depende de Eve assumir um risco nos braços de um homem sobre o qual ela nada sabe, a não ser a necessidade de sentir o toque dele, que se transformou em um vício para ela.

Resenha

Antes de tudo peço desculpas pela demora em responder os comentários. Passei mais de quinze dias sem computador, levando canseira dos técnicos,  por isso o blog ficou tanto tempo parado. Nesse intervalo  tive mais tempo para ler e por isso vou compensar o período de inatividade. Essa semana teremos várias postagens e a primeira é a resenha dessa deliciosa experiência que fiz dando início à série Mortal, de JD Robb. Nora Roberts  para os íntimos.

Já havia ouvido muito falar dessa série, principalmente da mulherada que ficava enlouquecida com o herói Roarke. Até a Mari, do S2 Ler, que é tão fissurada em livros policiais sangrentos, se rendeu aos encantos desse personagem. Por isso comecei o livro curioso para descobrir o que esse cara tem de tão especial. Mas Roarke é apenas um dos muitos elementos que tornam essa série tão envolvente. Por se tratar de Nora Roberts, achei que a trama policial seria apenas um pretexto para falar do romance entre os protagonistas, mas a autora me surpreendeu, criando uma trama instigante, bem armada e cheia de reviravoltas.  Há cenas impactantes, onde a autora descreve os assassinatos sem nenhuma sutileza. Eve, a detetive, também não deixou a desejar. Uma mulher aparentemente forte, mas que convive com um trauma do passado que em alguns momentos a deixa tão fragilizada quanto uma criança desamparada. Adorei a personagem, que apesar dos conflitos emocionais, não fica de mimimi. Faz seu trabalho com competência, não é politicamente correta, mas é uma pessoa ética, que faz seu trabalho com paixão.

Já o romance entre ela e Roarke é a parte que menos me atraiu.  Eu nunca consigo levar a sério aquelas cenas de sedução. Sempre acho graça do clima que surge entre os personagens. É sempre a mesma história: o cara pretensioso, a mulher que não quer dar o braço a torcer e expressões como “a voz rouca de desejo” brotando à cada parágrafo.  Mas, tirando uma cena de mais de dez páginas descrevendo desnecessariamente uma transa do casal (odeio cenas hot),  Nora pegou leve no clima de romance, que permeia todo o livro, mas não desvia o foco da história que é a investigação.
Um ponto que achei que fosse me incomodar foi o fato de que a série se passa no futuro, em 2058. O que mais curto nesses thrillers urbanos é a ambientação.  Como moro numa metrópole, há uma identificação maior quando acompanho cenas onde personagens pegam o metrô, andam por ruas movimentadas e passam no supermercado para comprar comida congelada.  Por isso, achei que um cenário futurista me distanciaria muito da trama. Mas me enganei. O futuro criado por Nora não é tão diferente assim do nosso presente. Há algumas curiosidades bem interessantes, como o fato do café natural ter sido substituído pelo sintético devido à destruição das florestas tropicais. O café de verdade é um privilégio dos milionários, tanto que logo que se conhecem, Roarke presenteia Eve com um quilo de café, o que a deixa toda derretida. Até eu ficaria. Um futuro sem café de verdade seria tenebroso demais.

Agradeço a todos que me falaram bem da série. Não fiquei alucinado para ler os próximos (que bom, pois ao todo são 24 livros publicados só no Brasil), mas pretendo esporadicamente revisitar esse universo de Nora Roberts, onde  a tecnologia avançou, mas a natureza humana permanece a mesma.  Onde as armas de fogo foram abolidas, mas crimes continuam ocorrendo. E onde as pessoas se comunicam por aparelhos ultramodernos, mas nada substitui o calor humano. Ah, e entendi o motivo de Roarke fazer tanto sucesso. O cara realmente tem pegada.