domingo, 28 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa - David Ebershoff


Sinopse

A Garota Dinamarquesa reconstrói a história de Lili Elbe, talvez a primeira transexual da história a fazer a cirurgia de redesignação sexual (ou “mudança de sexo”). Vivendo até a meia-idade como Einar, um pintor dinamarquês na Europa dos anos 1920 e 1930, ela teve a sorte de contar não apenas com um médico pioneiro, mas com uma mulher brilhante, generosa e apaixonada, sua própria esposa, Greta, para encontrar sua verdadeira identidade. Num momento em que as questões de gênero estão cada vez mais em voga, o aclamado romance de David Ebershoff, que volta às prateleiras com novo projeto gráfico, capa com o pôster do filme e posfácio assinado pelo autor, é um livro delicado e envolvente e uma leitura necessária nos dias atuais.

Resenha

Apesar do texto fluído que cria uma narrativa cheia de frescor, o livro demora a engatar. Nas cem primeiras páginas há muitas divagações dos personagens relembrando episódios de seu passado. Esses acontecimentos são relevantes para o desenvolvimento do enredo, porém a forma não linear como são narrados torna a leitura dispersiva. Só quando a trama se fixa no cotidiano do casal protagonista e começamos a mergulhar no mundo angustiante de Einar e seu “alter ego” Lili, é que o livro começou a me prender. Coloco a expressão entre aspas porque a alternância de personalidades entre Einar e Lili, homem e mulher, dá a impressão de que duas personas habitam o mesmo corpo, havendo ocasiões em que uma delas predomina. O que faz como que o personagem seja diagnosticado equivocadamente como um caso de esquizofrenia. O livro se passa nas décadas de 20 e 30 do século passado, portanto, não daria para se esperar uma posição diferente dos médicos daquela época. Se hoje a transexualidade é algo tão controverso, o que se dizer naquela época. Tanto que até mesmo a possibilidade de uma lobotomia foi levantada.

Porém desde o começo o livro é repleto de indícios de que o problema de Einar era totalmente diferente de uma patologia. Já na infância ele já se sentia diferente e não sabia lidar com sua sexualidade. Apesar de ter nascido homem, sua personalidade predominante sempre foi a de Lili. Einar nunca existiu, foi apenas um produto do meio ambiente. No lar onde cresceu era inconcebível a ideia de um rapaz se relacionar com outros homens e Einar teve de se enquadrar no que era aceito pela sociedade, criando uma persona que correspondesse às expectativas do meio em que vivia. Mas Lili estava lá, incubada e desejando ardentemente vir à tona. E quando já estava adulto e casado ela emergiu pelas mãos de outra mulher. Num dia em que está sem uma modelo para compor um de seus quadros, Greta, esposa de Einar, pede que ele se vista de mulher e pose para ela. Lili então surge e não quer mais partir. Apesar de tanto Einar como Lili serem serem pessoas atormentadas, a versão masculina desse duo aparenta ser muito mais infeliz do que seu lado feminino. Sempre triste, retraído e cada vez mais doente tanto do corpo quanto da alma, Einar vai definhando.

No início Greta leva aquilo como uma brincadeira, mas as escapadas de Lili, que sai sozinha para se encontrar com outros homens, começam a comprometer  a integridade do relacionamento do casal. Porém ela, que no início do livro parece ser apenas uma cabeça de vento, mostra a mulher admirável que é, tendo sensibilidade o suficiente para entender o sofrimento de seu marido e buscar uma forma de ajudá-lo. Fiquei impressionado com a maturidade de Greta, que abnegadamente é obrigada a se dividir entre esposa de um homem doente e amiga de uma mulher que deseja ardentemente viver uma vida plena.

David tratou o assunto com muita delicadeza, dando a profundidade necessária aos personagens, nos apresentando sem pressa o dilema de Einar e Lili, mudando lentamente o tom do livro que se inicia com um clima leve e descomprometido e vai se adensando conforme o drama dos personagens vai se delineando. O autor em nenhum momento foi melodramático, transmitiu com elegância todo o sofrimento de alguém que não se sente à vontade em seu próprio corpo, que busca uma forma de assumir uma identidade que sempre lhe foi negada por uma sociedade que trata o que é diferente como uma aberração. O livro em nenhum momento é panfletário, os diálogos e a narrativa nunca fazem usos de frases feitas. É uma obra escrita com verdade, coragem e muito sentimento. Por vezes arrastado, o livro desafia um pouco a nossa paciência, mas a maneira como o autor lidou com o tema, compensa esses percalços.

PS: Na compra do livro eu ganhei um ingresso para o filme, fiquei super empolgado, até descobrir que só valia para as segundas feiras. Sacanagem né? Vai ficar como enfeite.


12 comentários:

  1. Vc vai assistir a adaptação? se for, me avise se é fiel!! Quero muito saber

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Guto. Ainda não vi a adaptação, mas estou curioso. Como você disse que o filme é lento, acho que é fiel sim, pois o livro também não tem muito ritmo.

      Excluir
  2. Olá Ronaldo!
    Asssisti a adaptação e graças a sua resenha vou precisar do livro rs O filme é excelente e pelo visto adaptou muito bem. Uma pena o ingresso ser apenas para as segundas.
    Bjs

    EntreLinhas Fantásticas - SORTEIOS NO BLOG! PARTICIPE :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Preciso ver a adaptação, pois é muito elogiada.

      Excluir
  3. Esse é um daqueles livros dos quais só fui saber da existência tarde demais. :( Ok, ainda não assisti o filme e poderia muito bem ler o livro antes, mas poxa vida, sempre que passo em frente ao cinema parece que ele me grita... hahaha
    Infelizmente será mais um daqueles que provavelmente assistirei só o filme, que, por acaso, me chama muito atenção, pois sou realmente interessadíssima em discussões LGBTs.

    Abraço! :)
    Mago e Vidro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também prefiro ler o livro antes pra não perder a vontade.

      Excluir
  4. Oi, Ronaldo!
    Obrigado por sua resenha. Eu já estava ansioso para ler o livro e agora fiquei com muito mais vontade. Lili parece ser uma dessas personagens cativantes, que ficam em nossas memórias por um bom tempo.
    Abraço
    Blog do Ben Oliveira

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu preferi a Greta, mas o livro é cheio de personagens fascinantes.

      Excluir
  5. Ei, te indiquei para um prêmio lá no meu blog. É como uma "corrente de indicações e espero que você goste das minhas. Beijos, Isa.
    http://belblioteca.blogspot.com.br/2016/03/premio-dardos.html

    ResponderExcluir
  6. Olá!

    Eu assisti ao filme, e achei incrível! Eddie Redmayne foi simplesmente sensacional! Ainda não tive a oportunidade de ler o livro, mas sua resenha me deixou com muito mais vontade de adquirí-lo.

    Abraços!

    https://pequenasmemoriasliterarias.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um livro que trata de um assunto tão polêmico de modo muito delicado.

      Excluir