quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Amor Amargo - Jennifer Brown




Sinopse 

Último ano do colégio: a formatura da estudiosa Alex se aproxima, assim como a promessa feita com seus dois melhores amigos, Bethany e Zach, de viajarem até o Colorado. O dia da viagem se torna cada vez mais próximo, e tudo corre conforme o planejado. Até Cole aparecer. Encantador, divertido, sensível, um astro dos esportes. Alex parece não acreditar que o garoto está ali, querendo se aproximar dela. Quando os dois iniciam um relacionamento, tudo parece caminhar às mil maravilhas, até que ela começa a conhecê-lo de verdade.

Resenha

Comprei esse livro por indicação num grupo no facebook, quando pedi sugestões de livros sobre relacionamentos abusivos. É um tema que geralmente gera boas histórias. Mas só fui descobrir que se tratava de um livro voltado para o público adolescente depois de ter comprado. Não curto muito livros juvenis, pelo menos esses mais modernos, acho tudo muito fútil e não consigo me envolver. Mas nesse caso foi diferente. Jennifer retrata muito bem o universo teen, com todos os seus maneirismos, mas trata com muita profundidade os temas sérios do livro. Alex é uma jovem que perdeu a mãe ainda criança e tal tragédia transformou radicalmente sua família. Seu pai se tornou um homem apático, distante das filhas e essa falta de proximidade transformou Alex numa menina carente, insegura e com baixa autoestima. Por isso, quando Colin, o atraente aluno novo, começa a lhe dar bola ela mal consegue acreditar.

Foi muito interessante a maneira como o rapaz foi mostrando aos poucos seu lado sombrio. A autora soube dosar bem a maneira como os abusos foram se intensificando, até você perceber que o que parecia um conto de fadas para Alex, se tornou uma verdadeira cilada. Mas uma coisa é nós, leitores, constatarmos que aquele é um relacionamento doentio. Outra é Alex se dar conta disso. Por vários momentos senti muita raiva da personagem, que se culpava pelas agressões do namorado, tentando encontrar justificativas para o seu comportamento. Mas em outros eu a compreendia, pois é difícil você admitir que aquela pessoa por quem se apaixonou, que te dá carinho, que te surpreende com presentes fofos, possa sentir prazer em te machucar.

O livro todo o tempo jogou com as minhas reações diante desse relacionamento destrutivo. Algumas atitudes de Cole me deixaram revoltado, perplexo e enojado, ao mesmo tempo que a passividade de Alex me exasperava. A maneira como a protagonista defendia o namorado a fazia parecer até mesmo conivente com a agressão. Em muitas situações queria lhe dar uma sacudida para que alterasse seu pai, seus amigos, a polícia, quem fosse, pra se libertar. Mas também entendia seus motivos. O quanto é dificil sair de uma relação como essa. A coragem que é necessária para expor sua própria infelicidade e pedir ajuda. Estar a mercê da crueldade das pessoas que vão te condenar por não ter tomado essa atitude antes. O quanto isso pode ferir seu amor próprio.

Gostei muito da maneira como Jennifer conduziu a narrativa. Sem apelar, sem maquineísmo e com personagens convincentes. O livro fica mais empolgante à cada capítulo, atingindo um grande clímax, houve emoção nos momentos dramáticos, mas sem cair no sentimentalismo e o assunto dos relacionamentos abusivos foi tratado com muita competência, dignidade e realismo. Um livro sobre adolescentes, mas que se comunica com qualquer público e principalmente, representa a realidade de qualquer mulher que sofra esse tipo de violência.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sete personagens iluminados da obra de Stephen King


Daniel Torrance (O Iluminado)

Dan Torrance é filho único do casal Wendy e Jack. Uma mãe amorosa e um pai alcoólatra, que desconta suas frustrações na família. Um garoto introspectivo que, ao se mudar com os pais para o Overlook Hotel, descobre possuir o dom da iluminação e passa a ser assediado por uma turba de fantasmas que assombram o hotel. Porém seu dom de ver os mortos também é sua proteção, que o torna imune ao apelo das forças malignas que tentam arrastá-lo para sua miséria. Mas o mesmo não ocorre com seu pai.


Mike (Joyland)

Portador de uma doença incurável, o maior passatempo de Mike é empinar pipa em sua cadeira de rodas. Mas apesar da limitada expectativa de vida, ele é um garoto alegre, que não perde a vontade de viver e tem um dom muito especial. Ele é um iluminado e quando seu caminho se cruza com o de Devin, um rapaz que trabalha num parque de diversões, sua vida ganha um novo sentido. Seu dom da iluminação será posto à prova, mas mais do que o autodescobrimento, ele será apresentado pelas mãos de Devin a um novo mundo, cheio de fantasia, esperança e poesia.


Abra (Doutor Sono)

Desde pequena Abra demonstrou que não era uma menina comum. Ao seu redor aconteciam coisas estranhas, como, por exemplo talheres surgindo pendurados no teto. E a iluminação de Abra era tão forte que a transformou no objeto de desejo de uma criatura horrenda, que se alimenta da iluminação de crianças como ela e é capaz das piores atrocidades para agarrar sua presa.


Duddits (O Apanhador de Sonhos)

Em Derry, no Maine, quatro garotos presenciam um ato de extrema violência, quando Duddits, um menino portador de síndrome de Down, é torturado por uma gangue de adolescentes. Num impulso de  coragem os quatro conseguem salvar a vida do indefeso menino. O que os amigos não sabem é que Duddits é um garoto especial, com poderes para penetrar na mente de outras pessoas. E pouco mais de duas décadas, eles descobrem que esse encontro será de importância vital para salvar a vida de toda uma cidade.

John Smith (A Zona Morta)

Após um acidente, Johny fica em coma por quatro anos e ao despertar, desenvolveu um poder que pode ser tanto um dom, como uma maldição: enxergar o futuro. Tal façanha ele consegue com o simples ato de tocar alguém ou algum objeto pertencente à essa pessoa. Com essa habilidade Johny pode evitar várias tragédias, inclusive a possibilidade de evitar uma catástrofe mundial.


Carrie (Carrie, A Estranha)

Carrie é uma menina com dificuldades de socialização devido à rigida criação que teve por parte de sua mãe, uma fanática religiosa. Seu comportamento retraído a torna alvo de bullying na escola e nos momentos de tensão ela deixa vir à tona o dom da telecinese. Um poder tão grande que, em outras circunstâncias poderia tê-la tornado uma verdadeira super heroína, mas que nas mãos de uma jovem tão frágil, desamparada e perturbada,a transforma numa verdadeira calamidade ambulante.


John Coffey (À Espera de um Milagre)

Como pode uma alma tão pura sofrer tantas injustiças? Um homem sensível, num grau de desenvolvimento espiritual tão elevado, que soube enfrentar um terrível martírio com dignidade. Um gigante com alma de criança que conquistou o coração de seus próprios algozes. Meu consolo é que ele era tão evoluído, que deve ter surfado sobre todo aquele sofrimento pelo qual passou.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sete vilões de Sidney Sheldon


Larry Douglas

Larry não valia nada, mas tinha seus encantos. Um belo piloto de guerra que cruzava continentes com todo seu esplendor, seduzindo as mulheres, mas fazendo com que elas pagassem um alto preço pela breve, e muitas vezes ilusória, felicidade que lhes proporcionava. Além disso, episódios mal explicados em sua carreira como piloto de guerra deixaram dúvidas sobre sua tão honrosa carreira profissional. Um canalha com C maiúsculo.



Ken Mallory

Quando o belo médico chegou ao Hospital Embarcadero, mexeu com o desejo das mulheres que trabalhavam ali. Porém, Kate não se deixou seduzir de imediato por seus encantos. O médico teve de suar muito para conquistar a misteriosa jovem que nunca demonstrou interesse por nenhum homem do hospital. O problema é que o que o motivou não foi nenhum sentimento especial pela doutora e sim algo bem mais sórdido. Ken desceu a um dos mais baixos níveis que um homem pode descer, não só por fazer de Kate a peça de um jogo, mas por erros bem mais graves conforme ele ia se enrolando em sua própria armadilha.


Daniel Cooper

Um investigador de uma empresa de seguros aparentemente inofensivo foi a pedra no sapato de Tracy Withney. Sua obsessão pela bela vigarista aumentava à cada novo golpe perpetrado por ela. Atormentado pela culpa por um crime atroz cometido no passado, ele tentava punir Tracy para se redimir. Uma figura patética, mas extremamente inteligente, sagaz e perigosa.



George Mellis

"De perto, era ainda mais atraente. De um metro e noventa de altura, com feições bronzeadas perfeitamente modeladas, olhos negros e corpo escultural,quando sorriu revelou dentes brancos e regulares." Foi tudo isso que Eve Blackwell viu quando foi apresentada a ele. Mas por baixo de tanta beleza, se escondia um homem sem nenhum escrúpulo. Igualzinho a ela. George era um alpinista social que não media esforços para por as mãos na fortuna dos Blackwell. Mas tinha uma fraqueza: era impulsivo demais. Seus acessos de extrema violência era assustadores e deixavam uma trilha por onde ele passava.



Coronel Ramon Acoca

Este deu um grande trabalho para os terroristas e para as freiras que os acompanhavam. Caçava-os incansavelmente, sempre chegando perto, mas não o suficiente para alcançá-los. Mas apesar de toda a pose era apenas um pau mandado que seguia ordens de pessoas bem mais influentes. Um personagem com um passado trágico, mas que ao invés do sofrimento tê-lo tornado mais tolerante, o tornou uma pessoa ainda mais cruel.




Michael Moretti

Ele teve uma origem pobre, mas conseguiu vencer na vida, mesmo que por meios escusos. Aos poucos foi se tornando uma figura importante dentro da máfia, até se tornar um dos mais temidos chefões dos Estados Unidos. Era capaz de ordenar execuções com a maior frieza, mas sabia ser encantador quando queria. E, foi seu lado sedutor que atraiu a talentosa advogada Jennifer Parker. Um homem que emanava sensualidade com seu jeito violento, misterioso e implacável.




Constantin Demiris

Dono de uma incalculável fortuna, conquistador de dezenas de mulheres, um homem que se fez sozinho e que tem um senso de ética muito particular. Ele presenteia os que lhe deram uma mão e é impiedoso com quem o prejudicou. Cruzar o caminho de Constantin Demiris é pisar em ovos. Pois basta a mínima ofensa para ele destruí-lo sem o menor esforço.

domingo, 20 de novembro de 2016

O Órfão de Hitler - Paul Dowswell



Sinopse

Piotr é um menino polonês quando os nazistas invadem seu país e matam seus pais. Seu destino parece traçado: viver num orfanato, sendo depois oferecido para trabalho escravo. Mas seus olhos azuis, seu cabelo loiro e sua pele clara fazem dele um exemplo da raça pura, um modelo para a Juventude Hitlerista. Então, os alemães o entregam a uma família nazista. Só que Piotr, que nunca deixa de se sentir estrangeiro junto a sua nova família, começa a formar seus próprios conceitos sobre o que vê e o que lhe é dito. Ele não quer ser um nazista. E então assume um risco – o mais perigoso que poderia escolher na Berlim de 1942.

Resenha

A Segunda Guerra é um dos assuntos que mais me fascinam, principalmente quando se fala nos horrores do nazismo, uma mancha tão repugnante na História da humanidade que não dá para ficar impassível. Porém, diferente de todos os livros que li sobre o assunto, este mostra não o ponto de vista das vítimas ou dos oponentes do nazismo, mas dos cidadãos alemães que simpatizavam com a ideologia do terceiro reich. A narrativa é uma espécie de crônica da Alemanha nazista, retratando o cotidiano de uma sociedade mobilizada nos esforços de guerra e convicta de que os ideais defendidos por Hitler eram uma verdade absoluta. Fiquei abismado com a intensidade com a qual aquelas pessoas acreditavam estar fazendo a coisa certa seguindo os princípios de superioridade ariana que o ditador lhes incutia. Eles realmente acreditavam que faziam parte de uma raça superior e que os judeus deveriam ser exterminados da face da Terra para manter a pureza de sua espécie. O ódio que sentiam desse povo era irracional e a adoração por Hitler chegava a ser bizarra. O autor chega a mencionar uma versão da música Noite Feliz cantada pelos alemães naquela época, onde o nome de Hitler foi incluso na letra, de modo a exaltá-lo. Era uma crença cega em um homem que cometia crimes horrendos, mas que para eles estava salvando a Alemanha.

Mas é claro que nem todos partilhavam desse fanatismo, porém dizer qualquer coisa contra o Reich era correr o risco de ser deletado e mandado para um campo de concentração. O autor reproduziu muito bem todo clima de terror que havia na época, onde demonstrar compaixão por um judeu era praticamente assinar a própria sentença de morte. Porém, mesmo sabendo disso havia pessoas que se arriscavam em perigosas missões para tentar sanar um pouco do mal que era disseminado pelo nazismo. E uma delas é o protagonista Piotr, um órfão polonês que, retirado de um orfanato onde vivia em condições degradantes, é acolhido por uma família alemã e passa a viver como um deles. E isso significa ser um adepto fanático do nazismo. Porém, sua personalidade forte, sua coragem e boa índole entram em conflito com o que está acontecendo ao seu redor. Enquanto ele ainda é criança esses conflitos são interiores. Ao mesmo tempo que ele é apegado às suas origens polonesas, também é leal à família que o acolheu. Por isso, além da guerra que acontece lá fora, há uma grande guerra em seu interior, com sua compaixão pelos judeus se confrontando com sua vontade de ser um herói de guerra alemão e assim retribuir a hospitalidade do país que o recebeu e da família que o adotou. Mas conforme ele cresce, sua nobreza de caráter começa a falar mais alto, fazendo com que questione se ser um herói nos campos de batalha é mais importante que ajudar as vítimas indefesas que se esgueiram pela sua cidade.

Muita coisa no livro me deixou chocado, tanto em relação à hipnose coletiva que o povo alemão parecia estar sofrendo, idolatrando um monstro, quanto à maneira como os judeus eram tratados, mas o que me deixou enojado foi saber o que médicos alemães faziam com as crianças que sofriam de algum tipo do que eles chamavam de anormalidade. É doloroso saber que há apenas setenta e poucos anos as pessoas poderiam acreditar em algo tão absurdo e cometer crimes tão bárbaros em nome disso.

O livro tem uma bela reconstituição de época, mencionando muitos personagens reais, embora haja algumas discrepâncias cronológicas que o próprio autor justifica no final.
Personagens cativantes, embora um tanto superficiais. E uma tensão crescente que vai se intensificando, conforme o cerco vai se fechando tanto para a Alemanha, quanto para os personagens. Uma história que mostra que heróis de guerra não são apenas aqueles que são condecorados. Podem ser qualquer um. E criminosos de guerra não são apenas aqueles execrados publicamente. Podem ser cidadãos aparentemente inofensivos.





sábado, 12 de novembro de 2016

A Garota no Gelo - Robert Bryndza



Sinopse 

Quando um jovem rapaz encontra o corpo de uma mulher debaixo de uma grossa placa de gelo em um parque ao sul de Londres, a detetive Erika Foster é chamada para liderar a investigação de assassinato. A vítima, uma jovem e bela socialite, parecia ter a vida perfeita. Mas quando Erika começa a cavar mais fundo, vai ligando os pontos entre esse crime e a morte de três prostitutas. Que segredos obscuros a garota no gelo esconde? Quanto mais Erika está perto de descobrir a verdade, mais o asassassino se aproxima dela. Com a carreira pendurada por um fio Erika enfrenta várias dificuldadea no caminho, inclusive o assassino mais letal do que qualquer outro que já enfrentou antes.

Resenha

Antes de tudo, desconsiderem todo o marketing envolvendo comparações com Garota Exemplar e A Garota no Trem. A única semelhança desse livro com as obras de Gillian Flynn e Paula Hawkins é esse já batido "garota" do título. Apesar de todos os três compartilharem o mesmo gênero, que é o suspense, não há nenhuma semelhança entre o estilo de Robert e o das outras escritoras. Afastando-se das abordagens pouco convencionais muito em voga ultimamente, o autor faz o caminho inverso e nos oferece um clássico romance policial, que remete muito ao estilo de Agatha Christie do que aos ousados romances atuais. E embora muita gente possa dizer que o autor tenha caído no clichê, eu acredito que vale muito mais um clichê bem escrito do que um livro inovador onde o autor meta os pés pelas mãos.

Erika Foster, a protagonista foi o primeiro grande acerto do livro. Uma mulher com um passado trágico, que aos poucos vai nos sendo revelado. Apesar de ser uma mulher amarga, criei uma grande empatia por ela, devido à tragédia em sua vida pessoal e por sua ânsia em se agarrar ao trabalho como forma de manter a sanidade. Erika é uma profissional e tanto, perspicaz, dedicada e com muita coragem de defender suas convicções, mesmo que isso lhe custe consequências sérias. Por vezes impulsiva demais, ela acaba tomando atitudes radicais para provar que está na trilha certa, mostrando que apesar de muito intuitiva, tem pouca inteligência emocional para lidar com toda a politicagem na polícia.

Quanto à investigação em si, esperava um pouco mais de detalhes sobre perícia criminal. Achei que o autor fosse seguir pelo caminho de Tess Gerritsen, mas, apesar de haver um pouco de medicina forense no enredo, através da qual Erika obtém pistas importantes para chegar à verdade, a investigação se baseia muito mais nos interrogatórios dos envolvidos com a vítima do que em pistas científicas. E é nisso que o livro mais se assemelha aos clássicos policiais. Tem até mesmo uma família da alta sociedade inglesa, cheia de conflitos, onde alguns dos membros são suspeitos do assassinato da garota do título. O autor explora muito bem a personalidade de cada um, faz um excelente retrato dos bastidores do poder, onde investigações podem ser prejudicadas pela intervenção de gente poderosa e mostra a hipocrisia que há entre os muito ricos.

Mas a cereja do bolo foi a inclusão do ponto de vista do assassino. Quando a investigação já está num momento avançado e Erika demonstra estar no caminho da verdade, passamos a ter acesso à voz do criminoso, que circula pelos acontecimentos de modo incógnito, fazendo com que o suspense só aumente. Foi sensacional acompanhar seus pensamentos, ações e reações, sem conhecer sua identidade. Confesso que achei a revelação do culpado previsível, pois bem antes do final eu já tinha quase certeza de que era realmente aquela pessoa, mas o livro teve alguns desdobramentos tão desconcertantes que fiquei curioso em saber o real motivo dos crimes, pois há várias mortes. Quanto à detetive, gostaria de ter conhecido um pouco mais sobre o seu passado, mas como se trata de uma série, isso será certamente abordado nos próximos volumes, que espero serem logo publicados. Por ora foi um ótimo começo de uma série que promete.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A Traição do Sapato Novo - Jeremias Bimbatti Filho





Sinopse

Uma relação de muitos anos, a celebração magnífica preparada, ele aguarda no quarto enquanto ela arruma-se no banheiro. Ao despir-se percebe um inesperado problema: um simples nó de cadarço o impede de tirar sua roupa. Apertadíssimo! Como nosso ilustre homem resolverá esta traição de um sapato num momento crucial deste? Uma história sobre os obstáculos que nos amedrontam quando o universo parece conspirar contra nossos planos. Este enredo faz parte da obra "O Livro das Identidades" (ainda em andamento). Entretanto, funciona também de maneira separada tendo começo, desenvolvimento, e fim. É possível encontrar revelações nos extras, um complemento adicional para quem deseja saber mais. Com três capítulos e um desfecho envolvente, será irresistível não ler novamente! Ah, os mistérios desta capa serão desvendados apenas por aqueles mais atentos.

Resenha

Não sou adepto da leitura digital, mesmo sabendo que essa plataforma tem uma imporância cada vez maior no mercado editorial e beneficia muito tanto os leitores quanto os autores, ainda tenho muito apego aos livros físicos e motivos pra isso não me faltam. Um deles é o próprio título desse blog. Por isso, só aceitei a parceria com o autor Jheremias Bimbatti por se tratar de um livro curto. São apenas quatorze páginas, mas fiquei impressionado com a capacidade do autor em compactar tanto conteúdo num texto tão curto.

A começar pelo estilo. Ao invés de optar uma escrita mais direta e coloquial, Bimbatti usa um texto rebuscado, que à primeira vista pode até parecer um tanto pedante, mas logo se percebe o tom de ironia em cada frase. O texto é carregado de sarcasmo, com um personagem pretensioso que à todo momento deixa claro o quanto se superestima. É muito divertida a maneira como ele fala sobre si mesmo.

E é por isso que a situação em que ele se encontra, com calça e cueca arriadas, impedido por um malfadado cadarço de tirar o sapato, se torna tão engraçada. Sem falar nos embaraços que essa situação pode causar. Um cara cheio de pose, surpreendido por algo tão trivial quanto um nó intrincado.

Mas o mais sensacional é o intuito dessa pequena história, pois no final é proposto um enigma tão instigante, que eu reli o conto várias vezes tentando encontrar as pistas para a solução. Até mesmo a capa pode esconder pistas. Apesar de muito curta, a história dá margem a diversas interpretações e por isso criei várias teorias sobre a solução do enigma. Uma leitura de poucos minutos, mas que me fez ficar horas atrás de pistas para desvendar o mistério. Quem se aventurar, não vai se arrepender. O livro está à venda na Amazon, no momento dessa postagem pelo valor de R$ 1,99.

domingo, 30 de outubro de 2016

Sete meninas más da literatura

Sete crianças que tocaram o terror foi um dos primeiros posts do blog, publicado há mais de dois anos e até hoje está entre os mais vistos. Afinal a maldade infantil é um dos temas mais controversos da literatura. E muitos leitores tem me cobrado a presença de Rhoda, personagem da obra de Willian March, entre a criançada do mal. Porém, como disse, o post foi publicado em 2014, muito antes da publicação do livro aqui no Brasil. Por isso, fiz uma nova lista, desta vez dedicada apenas às meninas que tocaram o terror na literatura.


Rhoda

Abrindo essa lista, ninguém menos que ela, Rhoda, uma das precursoras das crianças malvadas da literatura. Uma menina dócil, educada, que deixa todos admirados com sua maturidade, seu comportamento exemplar, mas que esconde debaixo dessa fachada uma índole que a transforma num perigo potencial para aqueles que cruzam seu caminho. Basta você ter algo que Rhoda deseja, para se transformar em seu alvo.



Theres

Ainda bebê ela foi encontrada numa floresta por um casal de músicos e acolhida por eles. Logo, descobriu-se que ela tinha um dom especial relacionado à música e por isso se tornou valiosa demais para que cogitassem a possibilidade de perdê-la. Mas a garota guardava segredos muito mais profundos e esse casal não sabia o perigo que corria tendo-a sob sua guarda. Um prova de que por trás do talento artístico, beleza e inocência pode haver uma maldade de proporções apocalípticas.



Vonda

No livro de Raphael Montes, onde cada conto se refere a um pecado capital, Vonda representa a inveja. Aos 13 anos, sua maior diversão é inventar histórias junto de sua irmã gêmea. Porém, essa brincadeira ingênua começa a ter contornos macabros quando Volda começa a cobiçar o namorado da irmã mais velha das gêmeas. As histórias lúdicas se transformam em um plano muito mais sinistro e para colocá-lo em prática basta um passo.


Claudia 

Transformada em vampira ainda na infância, a francesa Claudia foi amaldiçoada a viver eternamente no corpo de uma criança. E essa condição faz com que ela se rebele contra sua realidade. A criança que não pode envelhecer contempla amargamente as belas mulheres nas quais ela nunca se tornará e direciona sua fúria tanto contra suas vítimas, quanto contra os responsáveis por sua criação.


Eve

Aos cinco anos ela quase colocou fogo em sua irmã gêmea. E esse não foi o único atentado contra a doce Alexandra. Era só deixá-las sozinhas com que a menina sofria algum tipo de acidente. Eve odiava a irmã desde a mais tenra idade. Qualquer presente, carinho ou elogio que a garota ganhava era para ela uma ofensa pessoal. Para Eve, Alexandra estava tomando um lugar que deveria ser só seu. E essa rivalidade era só o prelúdio para um jogo de intrigas que se desenrolou até a sua vida adulta.


Camille

Irritiante, cruel, dissimulada e muito, mas muito chata. Todas essas características são as mais sutis em relação à Camille. Pois ela tem defeitos muito piores que esses. Ela faz parte daquele gênero de meninas muito comuns nas escolas, a garota popular que controla as outras e abusa de seu poder, cometendo assim os maiores desmando. Uma jovem sádica, que assim que vê o menor sinal de fraqueza ataca sem piedade.

Dhiane

Trata-se da história de uma babá que é presa por um grupo de “ crianças” e sofre uma série de torturas.  Na verdade as idades aí variam, dos 10 aos 17 anos, portanto, alguns são adolescentes.
Dianne é a mais velha, com 17 anos, é a líder do grupo e possívelmente a mente mais cruel entre as crianças. Em alguns momentos ela até se mostra amável com sua vítima, mas em outras atitudes demonstra ser a mais fria, cruel e manipuladora do grupo. Uma garota que não demonstra a menor piedade com o sofrimento alheio e só quer levar aquela brincadeira macabra até o fim.





quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Os Pássaros - Frank Baker




Sinopse 

Pássaros. Milhares, talvez milhões, sobrevoam Londres, de forma aparentemente inexplicável e sem sentido, onde parecem observar os habitantes da capital, que os consideram divertidos, se tanto um pouco estranhos. Enquanto as pessoas ainda tentavam entender o que faziam ali, eles começam a atacar, ferindo e até mesmo matando com tremenda brutalidade e violência. Seriam eles uma força da natureza ou uma manifestação sobrenatural? Ninguém sabe. A única certeza é que o objetivo dos pássaros é a destruição da humanidade e ninguém tem ideia de como impedi-los.

Resenha

Em 1963 entrou em cartaz o filme Os Pássaros, dirigido por Alfred Hitchcock e, segundo ele, baseado livremente no conto de Daphne du Maurier. Porém assim que a fita foi anunciada, Frank Baker, um escritor inglês mandou uma carta ao famoso diretor de cinema alegando ser sua a autoria da obra original e reivindicando uma compensação financeira. Essa nunca veio, mas após o lançamento do filme o livro de Baker foi reeditado e possivelmente vendeu bem mais que as trezentas cópias da primeira edição. Além de eu amar a obra de Hitchcock, toda essa polêmica aumentou minha vontade de conhecer a obra de Frank Baker, que chegou aqui pela Dark Side.

Narrado em primeira pessoa, o livro é um relato de um pai contando fatos ocorridos em sua juventude para sua filha. Logo no início sabemos que o mundo não é mais o mesmo depois da passagem devastadora dos pássaros e acompanhamos a prosa melódica do narrador contando como tudo aconteceu. O protagonista é um jovem de classe média, que tem um emprego burocrático e vive com a mãe viúva. Ele tem uma visão crítica da sociedade, descrevendo seus hábitos com um sarcasmo que denota o quanto acha fútil o modo de vida do europeu moderno. Seu desdém pelas convenções sociais, pelos avanços tecnológicos, pela futilidade do consumismo, pela hipocrisia da sociedade são alardeados sem reticências em sua narrativa. Porém, sendo um membro dessa mesma sociedade, ele é obrigado a ceder, a muitas vezes dançar conforme a música, a se submeter aos desmandos de um chefe arrogante por necessitar do emprego, a esconder sua bissexualidade, apesar de não negá-la a si mesmo. E, sendo uma pessoa com uma percepção incomum, vivendo uma vida comum, isso parece sufocá-lo. Tanto que seu texto, apesar de conter um humor irônico, tem um toque de amargura. É somente em contato com a natureza que ele se torna pleno. É entre a erma vegetação que ele encontra a sua paz e se despe do personagem que mascara seu verdadeiro eu.

E eis que surgem os pássaros. Eles surgem de modo esporádico, primeiro despertando a curiosidade da população que fica desconcertada com aqueles grupos de aves que do nada começam a se reunir e se aproximar das pessoas. Mas não tarda para que o inusitado logo se transforme em ameaça, com os primeiros ataques contra os humanos. Os pássaros zombam da população, fazem cocô em Hitler durante um de seus discursos, atacam o Rei da Inglaterra, matam um executivo e até mesmo pertubam o Papa em uma de suas aparições públicas. Como se assim  tripudiassem das convenções da sociedade. O livro também dá muita ênfase a relação urbanidade versus natureza. Há uma grande exaltação à pureza da vida campestre, tanto que quando o protagonista sai de férias para uma temporada no campo, descobre que aquele é um lugar do qual os pássaros nunca se aproximaram.

Quanto à polêmica envolvendo o filme, como não conheço o conto de Daphne, não tenho como afirmar se há algum plágio da obra de Frank Baker. Mas o filme de Hitchcock tem muitas semelhanças com esse livro. O protagonista que se envolve com uma estrangeira, a cena onde uma mulher é atacada na cabine telefônica e o horror catastrófico que vem do céu. Mas, apesar de ter uma atmosfera de terror, Os Pássaros é um livro que não se enquadra apenas nessa categoria. É uma obra ampla demais para ser definida num único gênero. Tanto que o livro não tem o ritmo de um thriller. Há muita ação, porém esta é psicológica. O autor nos conduz com maestria através de uma viagem pela alma de um protagonista admiravelmente bem construído, fazendo com que vivamos seus dilemas mais profundos. Mas também há muito suspense. Sem falar nas cenas de um horror apocalíptico em que os pássaros fazem as suas investidas. As trinta últimas páginas são uma leitura espetacular com cenas épicas de catástrofe. Tudo isso num texto rebuscado, por vezes melancólico, mas de uma fluência que te faz virar as páginas sem nem perceber.









terça-feira, 25 de outubro de 2016

Homem-Aranha - Entre Trovões - Christopher L. Bennett



Sinopse

Nunca foi segredo para ninguém que J. Jonah Jameson usasse o Clarim Diário para seus ataques ao Homem-Aranha; e, por mais que o Amigão da Vizinhança se esforce, sempre será uma ameaça segundo a opinião pública. Mas as coisas tomam novas proporções a partir do momento em que a vida de Peter Parker vira do avesso e pessoas muito próximas sofrem as consequências. Enquanto Manhattan é devastada por frequentes ataques, o herói tem de enfrentar a engenhosidade de robôs movidos por um só intuito: acabar com sua vida. Como se não bastasse, o sentido-aranha alerta que o aracnídeo não pode confiar nem mesmo em Mary Jane e na adorável tia May, e tudo aponta somente em uma direção: JJJ.
A busca por respostas pode custar a vida do herói, e vilões como Electro estão dispostos a garantir isso.


Resenha

Cada vez curto mais essa coleção da Marvel publicada pela Novo Século. Cada livro tem um estilo diferente, mas todos os que li me agradaram muito, seja pela escolha das histórias, pela qualidade da escrita, pela profundidade que dá aos personagens dos quadrinhos, algo que só a literatura pode proporcionar, e também pelos aspectos gráficos. A narrativa se alterna entre a vida doméstica de Peter Parker, com Mary Jane e Tia May, as intrigas do mundo jornalístico, na qual JJJ destila seu ódio contra o Homem Aranha e muitas cenas de ação, nas quais o nosso super herói trava uma batalha solitária contra um exército de robôs que surgem do nada e causam os maiores estragos por onde passam. Homem Aranha não sabe quem está por trás desses ataques e começa a investigar, tendo como suspeitos seus arqui inimigos.

Encontramos um Peter Parker mais amadurecido, trabalhando como professor de biologia e casado com Mary Jane. É curioso acompanhar a intimidade do casal, a maneira como eles conciliam suas vidas com suas outras atividades. Mary Jane com sua carreira artística e Peter com sua vida complicada vida de super herói. Um casal que leva essa realidade nada convencional com muita boa vontade, apesar dos atritos ocasionais que ela pode gerar. Mas o melhor são as cenas com Tia May, que nos presenteia com toda a sua sabedoria em diálogos edificantes e muito bem escritos.

Mas, apesar de mais amadurecido, o Homem Aranha não perde seu bom humor. O autor conseguiu reproduzir com eficácia toda a irreverência do herói, com suas deliciosas tiradas. JJJ também está impagável nesse livro. Sua rivalidade com o Homem Aranha rende ótimos momentos. O editor está mais neurastênico do que nunca, fazendo de sua rabugice um perfeito contraponto com o bom humor do super herói.

Os únicos momentos chatos do livro são, ironicamente, as cenas de ação nas quais o Aranha enfrenta os robôs. Como o próprio herói diz, é tedioso enfrentar máquinas, pois não dá para provocá-las com piadinhas durante o combate. Os maçantes detalhes técnicos sobre robótica, também colaboram para dar uma empacada na leitura. Sem falar nas constantes disgressões sobre o funcionamento do sistema de teias do Homem Aranha. Porém são pequenos detalhes que não prejudicam o livro como um todo. Excelente opção para uma leitura leve, cheia de referências à saga do Aranha, o que é o deleite para quem acompanha os quadrinhos, mas que não aliena quem conhece o personagem apenas através dos filmes. Mais um título da coleção que me encantou.



domingo, 9 de outubro de 2016

Sete heroínas nada convencionais



Raquel

Raquel é uma heroína nada convencional. Uma bêbada, que foi mandada embora de seu trabalho após chegar no serviço embriagada e desde então perambula pela cidade para preencher seu tempo e também para fingir para a amiga com quem divide o apartamento, que continua trabalhando. Seu estado físico e psicológico são lamentáveis. É alvo de deboche das pessoas, percebe isso, mas não consegue fazer nada para mudar. Sua autoestima é zero. Raquel muitas vezes me tirou do sério com suas atitudes desastrosas. A moça não dá uma dentro, tudo o que ela faz acaba se virando contra ela e isso faz com que ela fique cada vez mais emaranhada em sua autopiedade.


Annabel Hayer

Annabel é uma personagem bem diferente das que costumam protagonizar livros de suspense. Apesar de num trecho alguém se referir a ela como dona de "um belo rosto", ela não é descrita como uma mulher bonita. Gorda, já perto da meia idade e sem vaidade nem carisma, Annabel é uma pessoa sozinha, desesperançosa e sem nenhuma autoestima. Vive com seu gato, personificando o velho clichê da solteirona encalhada. Mas os clichês param por aí. Annabel é uma personagem extremamente aprofundada pela autora, uma mulher que convive há tanto tempo com a solidão, que está tão habituada em ser vista como a esquisitona, a ser menosprezada e muitas vezes nem mesmo ser vista como um ser humano, que passou a acreditar em sua insignificância.


Capitu

Uma mulher de personalidade forte, que criou o maior enigma da literatura brasileira: traiu ou não traiu? As ações de Capitu brincam a todo momento com as convicções do leitor, fazendo com que ora duvide, ora acredite na sua inocência. Ela, à primeira vista, pode parecer apenas mais uma mocinha da época do romantismo, subjugada pela opressão masculina, onde tem de se submeter à desconfiança e ao pré julgamento apenas por ser uma mulher bonita. Mas ela é muito mais que isso. Capitu, com sua beleza insidiosa representa a insegurança masculina diante daquilo que ama, mas não consegue controlar. Conforme seu próprio acusador diz: "Capitu era mais mulher do que eu homem".


Noelle Page

Noelle começa o livro como uma típica mocinha romântica, que sai de uma cidade pequena e se aventura na cidade grande, fica deslumbrada com todas as promessas que Paris lhe oferece, encontra um grande amor e sofre uma decepção. A partir daí um outro lado da jovem veio à tona. Um lado mais forte, mais decidido, mas também muito mais sombrio. Noelle nos choca com suas atitudes, abre caminho para conquistar seus desejos das maneiras mais questionáveis, para lá na frente, nos surpreender novamente. Uma mulher movida pela vingança, capaz de terríveis atos em nome do ódio e de pecados mortais em nome do amor.


Jane Rizzoli

Única filha mulher com dois irmãos brutamontes que eram o orgulho do pai, Rizzoli desde cedo aprendeu que seu lugar era ficar em segundo plano. Rabugenta, sem vaidades, sem auto estima, Rizzoli representava a antítese das heroínas. Uma mulher toda complexada, que não faz questão de agradar, impopular em seu ambiente de trabalho e que tem muita dificuldade em conquistar seu espaço na corporação. Mas aos poucos, Rizzoli vai provando seu valor e ganhando o respeito de seus colegas. E ao encontrar um grande amor sua vida tem um novo rumo. É curioso acompanhar a evolução da personagem conforme a série avança. Muitas outras Rizzolis vão surgindo dentro dessa mulher que conquistou o público mesmo com todos os seus defeitos.


Amy

Quem não leu Garota Exemplar deve pular essa personagem, pois é quase impossível falar de Amy sem soltar spoilers. Na minha opinião ela não se enquadra muito na categoria de heroínas, mas o público a aclamou tanto que não dá para deixá-la de fora. Amy é uma das protagonistas mais controversas da literatura moderna, surpreendendo o público ao revelar que não era a vitima inocente que a gente acreditava, mas pelo contrário, era a algoz. Mesmo tendo tomado uma atitude tão mesquinha, imatura e egoísta de simular a morte para incriminar o marido infiel, a personagem se tornou um grande sucesso, principalmente entre o público feminino. Talvez por representar a desforra de uma mulher numa sociedade onde a infidelidade masculina é tratada como um erro insignificante. Os motivos podem ser os mais diversos, mas, por incrível que pareça muitas pessoas dizem que amam a Amy. Enquanto também há quem a despreze. Para mim, ela nada mais é que uma mulher fraca, insana, mentirosa e egocêntrica incapaz de superar uma traição. As opiniões sobre Amy podem variar, mas ninguém fica impassível diante dela.



Lisbeth Salander

Desde a infância Lisbeth teve de lidar com a violência masculina. E desde muito cedo aprendeu a revidar da mesma forma. No início através de atos impetuosos, mas com o passar dos anos, sua maneira de se vingar se tornou mais bem planejada. Adulta, Lisbeth é uma figura que estampa em sua aparência seu passado conturbado, uma figura pálida, anoréxica, de cabelos bagunçados e com o corpo coberto por tatuagens. Lisbeth Salander se torna uma hacker de capacidade excepcional. Porém não é isso o que a torna tão especial. Lisbeth é considerada por alguns a maior personagem que surgiu no século 21. Isso porque ela representa  a nossa era de uma maneira visceral. Ela carrega as marcas que o Estado lhe impôs, mas sua independência é um eco da liberdade de pensar, de viver, de amar e de nos expressar que tanto lutamos pra preservar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Uni-Duni-tê - M.J.Arlidge



Sinopse

Um assassino está à solta. Sua mente doentia criou um jogo macabro no qual duas pessoas são submetidas a uma situação extrema: viver ou morrer. Só um deverá sobreviver. Amy e Sam, um jovem casal, foram dopados, capturados, presos e privados de água e comida. E não há como escapar. De repente, um celular toca com uma mensagem que diz que no chão há uma arma, carregada com uma única bala. Juntos, eles precisam decidir quem morre e quem sobrevive. Em poucos dias, outros pares de vítimas são sequestrados e confrontados com esta terrível escolha. À frente da investigação está a detetive Helen Grace, que, na tentativa de descobrir a identidade desse misterioso e cruel serial killer, é obrigada a encarar seu passado. Em uma trama violenta que traz à tona o pior da natureza humana, ela percebe que a chave para resolver este enigma está nos sobreviventes. E ela precisa correr contra o tempo, antes que mais inocentes morram.

Resenha

Comecei a leitura desse livro com desconfiança. Parecia bom demais pra ser verdade e achei que o autor não daria conta do recado. Ou seria um livro muito bom ou muito ruim, sem meio termo. Mas, por incrível que pareça esse livro conseguiu ser as duas coisas. A trama é muito boa. Uma história de assassinatos em série com alguns elementos curiosos. A ideia de usar as vítimas como peças de um jogo mortal. As vítimas sendo assassinadas, não pelas mãos de um serial killer, mas pelo seu companheiro de cárcere. A dificuldade do sobrevivente em lidar com a culpa. Tudo isso faz com que a história seja envolvente.

O livro tem um ritmo febril, não há nenhum momento tedioso e, com um texto fluído, as páginas correm sem que se perceba. O autor sabe muito bem conduzir a trama. Cada sequestro gera uma nova pista, que desencadeia um novo desdobramento na história, fazendo com que se veja com cada vez mais clareza o padrão entre os crimes.

Porém, apesar da excelente trama, o livro me decepcionou em vários aspectos. As cenas nas quais as vítimas estão presas são mal exploradas. Momentos que poderiam nos proporcionar um grande jogo psicológico se tornam banais, tanto pela superficialidade com que são narradas, quanto pela frequência com que ocorrem. Ao invés do autor colocar um par de vítimas em cativeiro e mostrar seu desespero se intensificando quanto mais tempo elas ficam presas, ele faz com que tudo aconteça rápido demais e parte logo para as vitimas seguintes. Além do livro ser muito mal escrito. Os personagens são apáticos e a tentativa do autor de dar-lhes profundidade os tornou patéticos. Tudo é muito corrido, os capítulos não tem mais que cinco páginas, pois o autor não sabe desenvolver as situações. Falta clima, faltam personagens convincentes, falta segurança na escrita. Os detalhes forenses são muito evasivos, evidenciando a falta de um trabalho de pesquisa da parte do autor sobre o assunto.

Porém, apesar de todos os defeitos foi uma boa leitura. Uma história com cara de lenda urbana que manteve meu interesse à cada capítulo. Mesmo com os diálogos ridículos, o melodrama de alguns personagens e os absurdos, que na verdade até me divertiram. Poderia ter sido um livro muito melhor, claro, mas mesmo assim valeu.

sábado, 1 de outubro de 2016

Resultado Top Comentarista de Setembro




Pessoal, aqui vai o resultado do Top Comentarista de setembro. O prêmio é o livro Flores Partidas, de Karin Slaughter. Conforme o combinado, o vencedor seria aquele que seguisse todas as regras e tivesse a maior quantidade de comentários nos posts de setembro. Em caso de empate, como ocorreu com cinco participantes, seria decidido por sorteio e o vencedor foi João Soares.

Parabéns, aguardo seus dados de entrega no e-mail rsetembro@hotmail.com em até três dias.

As regras podem ser conferidas aqui.

Muito obrigado a todos, foi muito legal a interação e espero poder fazer novas premiações.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

À Sombra de uma Mentira - Alex Marwood


Sinopse

Poucas horas depois de se conhecerem, Jade e Bel, ambas com 11 anos, veem-se envolvidas na morte de uma garotinha e tachadas de assassinas. As duas meninas são enviadas a diferentes reformatórios, onde recebem novas identidades e são instruídas a nunca mais entrar em contato uma com a outra. Agora elas são Kirsty, uma respeitável jornalista freelancer de Londres, e Amber, gerente de um parque de diversões no sul da Inglaterra. Quando Amber encontra um corpo em uma das atrações do parque, a mídia fica em polvorosa, e Kirsty, enviada para cobrir os assassinatos, acaba cruzando o caminho de sua velha conhecida. Com medo de que seu passado seja descoberto e exposto pelo frenesi da imprensa, Kirsty e Amber lutam para manter o segredo a salvo.

Resenha

Quando vi esse livro entre os lançamentos da Record, fiquei fascinado pela sinopse. E quando recebi o exemplar fiquei ainda mais entusiasmado com os elogios de Stephen King e até de Jojo Moyes (que não tenho em tão alta conta, mas é uma grande referência atual). O prólogo foi bem impactante, dando a impressão de que um livro vibrante me aguardava. Mas bastaram algumas páginas pra eu sentir exatamente o contrário.

Sabemos que as meninas foram condenadas ao reformatório por estarem envolvidas na morte de outra criança, mas não sabemos como isso aconteceu. O livro então intercala passado e presente, reconstituindo o fatídico dia em que o crime ocorreu e, nos dias atuais, apresenta as protagonistas já adultas. Ambers é a administradora de um parque de diversões, sem filhos e que vive com um namorado atraente e enigmático. É uma pessoa que se importa com seus colegas de trabalho, tentando ajudá-los em suas dificuldades das mais diversas formas. Porém, achei-a ingênua demais para uma pessoa que passou por tanta coisa ruim. Kirstie, por sua vez, é uma jornalista desconhecida, casada e com um casal de filhos, passando por dificuldades financeiras devido ao fato do marido se encontrar desempregado.

Apesar do início chato, das longas e maçantes cenas do cotidiano, do excesso de personagens e da falta de empatia por cada um deles, criei uma certa expectativa com o momento em que as heroínas se reencontrariam. Acreditei que a partir daí o livro decolaria, mas nada mudou. A história dá voltas e mais voltas sem sair do lugar. As páginas avançavam e eu não conseguia enxergar uma trama, apenas um emaranhado de acontecimentos desconexos. E nem mesmo a série de crimes que permeia o livro, com jovens aparecendo mortas pela cidade me instigaram.

Só me animei a continuar lendo por causa de um elemento ou outro que surgia na história e dava alguma emoção, porém eram situações que não davam em nada. Rendiam alguns bons momentos, mas logo o livro caía novamente no marasmo. Quanto ao final, foi totalmente previsível. A autora usou recursos tão amadores para escrever um enredo policial que não enganariam nem mesmo os leitores mais inexperientes. Se é que se pode dizer que o livro tinha um enredo. Não gosto de fazer resenhas depreciativas, tento sempre encontrar pontos positivos, pois sei que escrever um livro não é tarefa fácil, mas nesse caso, tive de me esforçar muito para encontrar algo bom pra dizer. Foi uma grande decepção.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Como Eu Era Antes de Você - Jojo Moyes



Sinopse

Aos 26 anos, Louisa Clark não tem muitas ambições. Ela mora com os pais, a irmã mãe solteira, o sobrinho pequeno e um avô que precisa de cuidados constantes desde que sofreu um derrame. Quando o café onde trabalha fecha as portas, Lou é obrigada a procurar outro emprego. Sem muitas qualificações, consegue trabalho como cuidadora de um tetraplégico. Will Traynor tem 35 anos, é inteligente, rico e mal-humorado. Preso a uma cadeira de rodas depois de ter sido atropelado por uma moto, o antes ativo e esportivo Will agora desconta toda a sua amargura em quem estiver por perto. Sua vida parece sem sentido e dolorosa demais para ser levada adiante. Obstinado, ele planeja com cuidado uma forma de acabar com esse sofrimento. Só não esperava que Lou aparecesse e se empenhasse tanto para convencê-lo do contrário.


Resenha

Há muito tempo não lia um livro desse gênero, mas foram tantas as opiniões positivas que o encarei com muita boa vontade. Louisa não demorou a me conquistar com seu jeito despretensioso, seu humor autodepreciativo, sua transparência. Também me irritou com sua passividade em relação ao menosprezo que recebia da família. Aqueles pais me tiraram do sério, sempre colocando Louisa pra baixo e enchendo a bola de Katreena, sua irmã egoísta.

Achei Will um personagem apaixonante, mesmo com sua ranzinzice totalmente justificada. Adorei sua inteligência, seu sarcasmo e as alfinetadas que dava em Louisa. Era linda a maneira como ele, mesmo naquela cadeira de rodas, conseguia lhe apresentar um mundo novo, através da música, da literatura, dos filmes, mas, principalmente, de suas experiências.

A autora conseguiu criar cenas muito divertidas, narrando as tentativas, às vezes desastrosas, de Lou tirar Will de sua apatia. Mostrava também seus acertos, que criavam um vínculo cada vez maior entre os dois. Os momentos de Louisa com Patrick, seu namorado super atleta, também foram ótimos, um cara obcecado pelo próprio fisico, mas ridiculamente insensível, um contraponto perfeito para Will.

Mas chegou um ponto em que descobri que, apesar da linda história, dos bons personagens, mesmo sendo bastante estereotipados, da trama bem conduzida, o texto da autora é muito fraco. Esperava uma escrita mais madura, diálogos mais consistentes. Conforme eu lia, mais ficava enjoativa a leitura, tanto que levei sete dias para terminar um livro de 319 páginas. Quanto ao final, não esperava nada diferente, as coisas tinham realmente de terminar daquele modo, porém senti falta de mais emoção. Uma história tão dramática merecia um final mais bem trabalhado. Achei que aconteceu tudo muito rápido. Gostei da história, me envolvi com o drama de cada personagem, me emocionei em algumas cenas, mas muitas dessas qualidades se diluíram num texto tedioso. Ou seja, gostei da história, mas esperava mais. Me decepcionei com sua escrita. Dessa forma, até pretendo ler outros livros da autora, mas com uma expectativa bem menor.

domingo, 25 de setembro de 2016

O Intruso - Peter Blauner



Sinopse

O Intruso te leva psicologicamente fundo na vida dos deserdados, dos sem-teto, dos que vivem à margem de uma grande sociedade capitalista que ensina a triste arte de animalizar seres humanos. Um livro político e policial, poético e violento, denunciador e verdadeiro, emocional e crítico. Uma história na qual pessoas dos mais diversos circulos entram numa colisão com consequências desastrosas.

Resenha

Li esse livro muitos anos atrás e foi uma das melhores leituras da minha vida. E após encontrar uma resenha dele no blog Biblioteca do Terror, resolvi ir atrás de um exemplar para uma releitura. Não me recordava de praticamente nada do enredo, mesmo tendo sido o livro tão especial para mim, apenas que tinha um morador de rua rondando uma família. A própria sinopse não revela muito sobre a história e por isso também revelarei o mínimo, pois é aquele tipo de livro que deve ser descoberto página à página.

John G é um maquinista de metrô, que devido a um drama pessoal, perde a vontade de viver e, após um incidente em seu trabalho mergulha num poço de degradação humana. De cidadão digno, funcionário competente, em cujas mãos diariamente eram colocadas as vidas de milhares de pessoas, que ele conduzia através da cidade, ele se torna um morador de rua. É triste a maneira como o autor descreve a gradual decadência de um homem de bem, que primeiro perde o emprego, depois o lar e finalmente a dignidade. Como qualquer ser humano, John G reluta em descer cada passo, sentindo-se humilhado com cada grau de degradação, até se ver privado de tudo, misturando-se a turba de sem tetos que se esgueiram pelas ruas de Nova York.

O caminho de John G cruza com o de Jake, um advogado de classe média, a quem passa a atormentar, rondando sua família, cobrando deles uma dívida que, segundo ele parece acreditar, a sociedade lhe deve. O que mais impressiona no livro é o quanto seus personagens não nos deixa impassíveis. Eu me envolvia com seus dramas, torcia para que cada um encontrasse seu caminho e, principalmente, brigava muito com eles. Ficava indignado com a maneira como John G, o morador de rua, se aproximava da família do advogado e lhes roubava a paz. Revoltado com a falta de atitude de Jake em defender sua família, com seu excesso de diplomacia. E me exasperava até mesmo com Dana, assistente social, esposa de Jake, por não ter tido inteligência emocional o suficiente ao lidar com um de seus assistidos, permitindo que este passasse dos limites profissionais. Mas da mesma maneira que eles me tiravam do sério, eu compreendia o lado de cada um. Essa é a vantagem de um escritor que constrói muito bem seus personagens. Eles se tornam humanos demais.

Com o aparecimento de um novo personagem, o verdadeiro intruso do título, que se aproxima sutilmente da familia de Jake com intenções não muito claras, os acontecimentos se precipitam para um ato de violência que muda totalmente o rumo dos acontecimentos. A partir daí a história se torna ainda mais tensa, ganhando contornos de um vibrante suspense de tribunal. Mesmo que na releitura o livro não tenha tido o mesmo impacto de que quando o li pela primeira vez, ainda o considero uma obra excepcional. O autor retrata de modo pungente as angústias, frustrações e a desigualdade de uma grande metrópole. Mostra o quanto cada um de nós está vulnerável diante de um sistema que pode te desprover até mesmo da pessoa que você é. E com rara sensibilidade nos apresenta de maneira comovente uma realidade com a qual tropeçamos em cada esquina.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Fábrica de Vespas - Iain Banks



Sinopse

Frank, um garoto de 17 anos bastante incomum, vive com seu pai em um vilarejo afastado, em uma ilha escocesa. A vida deles, para dizer o mínimo, não é nada convencional. Para aliviar suas angústias e frustrações, Frank começa a praticar estranhos atos de violência, criando bizarros rituais diários onde encontra algum alívio e consolo. Suas únicas tentativas de contato com o mundo exterior são Jamie, seu amigo anão, com quem bebe no pub local, e os animais que persegue ao redor da ilha. Abandonado à própria sorte, ele observa a natureza e inventa sua própria teologia. Para ele, a natureza humana seria boa a princípio, mas corrompida pela civilização. Quando descobre que Eric, seu irmão, fugiu do hospital, onde foi internado após um surto de violência, Frank tem que preparar o terreno para seu inevitável retorno, um acontecimento que implode os mistérios do passado.

Resenha

O livro é narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Frank, um adolescente que vive num lar assombrado pela insanidade. Um pai obsessivo compulsivo, que tem o peculiar hábito de medir todos os objetos da casa. Um irmão foragido da polícia, que fora preso por sua compulsão por colocar fogo em cães. E ele próprio, um garoto antissocial, que sofre de uma deficiência em seu órgão sexual e possui uma índole assassina. Frank divaga pelos fatos do presente e do passado, narrando suas experiências mórbidas com animais, sua rotina deprimente, as lembranças difusas que tem da mãe e sobre seus assassinatos.

O autor conduz a narrativa com muita habilidade, dosando a revelação de cada acontecimento com parcimonia, aguçando nossa curiosidade. A criatividade com a qual Frank mata cada uma de suas vitimas, além do simbolismo implícito em cada morte, me deixou abismado. Frank não tortura suas vítimas humanas, não tem nenhum contato direto com elas durante a execução de seus planos, não se esbalda em sangue como seria de se esperar de um assassino patológico, mas prepara armadilhas engenhosas para suas presas que são pegas desprevenidas. Uma das mortes, envolvendo uma criança de cinco anos me perturbou de modo particular. A maneira como Frank se aproveitou de sua inocência para levá-la a cair numa armadilha foi repugnante. À medida que a cena avançava menos eu queria ler aquilo.

Frank é um personagem intenso e cheio de nuances, apesar de sua aparência exterior ser a de um rapaz retraído, de aspecto pesado e até mesmo passar uma imagem de estúpido. Fiquei fascinado pela clareza com que ele enxergava o mundo à sua volta, distinguindo o bem do mal com nitidez. Ele sabe das implicações morais de seus atos, sabe o que é certo e errado, mas sua maior preocupação antes de cometer um crime é a de ser cuidadoso para não ser pego. Além disso, a auto análise que Frank faz de seus instintos perversos é de um discernimento impressionante. Mas, por incrível que pareça a narrativa de Frank nem sempre é fria. Pelo contrário, em muitos momentos é carregada de emoção, de desespero e de pesar. Frank é um personagem complexo demais para ser enquadrado numa definição tão simplista e até mesmo estereotipada. Ele é sim um psicopata, mas o que o impulsiona a cometer crimes é muito mais do que a ausência de remorso ou o sadismo. Além do assassino que nos horroriza com seus atos, há também um enfoque alegórico em Frank, que representa a angústia de uma pessoa que se ressente de algo que a vida lhe tirou e se vinga de modo covarde nos mais indefesos. Do homem misógino que despreza as mulheres, julgando-as seres inferiores, para esconder de si mesmo sua insegurança. Do ser inteligente que é capaz de se analisar profundamente, que usufrui do autoconhecimento, mas morre de medo do desconhecido. E do quanto esse autoconhecimento pode ser enganoso, pois no fundo não sabemos de verdade quem somos.

O livro tem um bom ritmo, o autor mantém o interesse do leitor soltando as revelações no momento certo, sem segurar os lances por tempo demasiado, mas também não entregando tudo de uma vez. As passagens em que Frank relata suas experiências bizarras com animais são bem chatas, mas o autor nunca perde o foco. Ele sempre desvia essas cenas cuidadosamente para o que mais interessa, que é o passado de Frank. E nas últimas páginas há uma revelação tão impactante que fiquei atordoado. Eu esperava alguma surpresa no final, mas a verdade sobre Frank foi um baque. Quanto ao que é a fábrica de vespas, só lendo para saber. Excelente livro, com um conteúdo reflexivo, um texto fluído e uma obra de grande relevância para a literatura, que após 34 anos, finalmente chegou ao Brasil. Parabéns à DarkSide pela publicação.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Adulto - Gillian Flynn



Sinopse

Uma jovem ganha a vida praticando pequenas fraudes. Sua mais recente ocupação consiste em se passar por vidente. Certo dia, ela atende uma mulher rica, que se mudou há pouco tempo para a cidade com o marido, o filho pequeno e o enteado adolescente e logo enxerga nesta cliente uma oportunidade de tirar vantagem da situação. No entanto, quando visita a impressionante mansão dos Burke, que Susan acredita ser a causa de seus problemas, e se depara com acontecimentos aterrorizantes, a jovem se convence de que há algo tenebroso à espreita.

Resenha

Mesmo em se tratando de um conto de 59 páginas, a autora tem cuidado em construir sua protagonista, retratando-a com a competência pela qual já é conhecida. Uma jovem vigarista, cujo nome nunca é citado na narrativa em primeira pessoa, que sobrevive de pequenos golpes, criada sem nenhuma estrutura, o que a tornou uma criatura sem raízes. Uma mulher livre, sem pudores que, apesar de não ter recebido uma educação formal, se sente intensamente atraída pela leitura. Adorei a maneira como a autora introduziu a literatura de terror no enredo, através da paixão da heroína por esses livros. Há várias referências a varios títulos, o que nos coloca diante de um belo exemplo de metalinguagem.

No que se refere ao terror na trama, a autora, tão conhecida por sua habilidade em conduzir tramas fugindo dos lugares comuns, dessa vez abusa dos clichês. Para criar uma atmosfera de sombria ela recorre aos maiores chavões do gênero. Não tenho nada contra esse tipo de recurso dependendo do contexto e em se tratando de uma trama de terror nos moldes clássicos, não tinha muito como fugir disso.

Porém, nas últimas páginas fui pego de surpresa, pois o que eu acreditava ser apenas uma história clássica de terror tem um novo desdobramento e então reconheci o estilo de Gillian em ação. A autora joga conosco, fazendo com que não se saiba em que acreditar. Você se coloca no lugar da personagem, sem saber que posição tomar.

Um bom conto, que me deixou impressionado pela quantidade de reviravoltas em tão poucas páginas e que rende uma leitura rápida, intrigante e gostosa. Não é nada fora de série, muito caro para a quantidade de páginas, acho que R$ 10,00 seria um preço razoável, mas uma boa opção para quem quiser sentir o gosto de uma velha história de terror. Quem tiver a oportunidade de lê-lo, vá em frente, seja comprando numa grande oferta, arrumando emprestado, pedindo de presente ou como for.



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Compras da Bienal 2016


A Bienal é o momento mais esperado por nós, que amamos ler. Depois da primeira a gente vicia, tanto que no ano passado não aguentei esperar e fui também na do Rio. Mas, apesar de tão aguardada, achei a bienal meio caída esse ano. Nem mesmo peguei fila pra comprar o ingresso. Por um lado foi bom, pois a quantidade reduzida de pessoas tornou o trânsito lá dentro mais fácil. Detesto lugares lotados, com gente empacando na minha frente, pessoas que não olham para a frente, esbarram em você e ainda te xingam. Mas dessa vez não teve nada disso, pelo menos nos dias que eu fui.

Ir à bienal em busca de preços baixos é uma furada. Além dos absurdos R$ 25,00 de ingresso, os preços dos livros não são nada especiais. Com exceção da Record, que deu até 30 % de desconto em vários livros, inclusive lançamentos, os estandes estavam enfiando a faca no nosso bolso. A salvação foram aqueles saldões, pois apesar de numa primeira olhada você só ver aqueles livros encalhados, fuçando bem encontra-se muita coisa boa. 

Achei O Bispo de Steven James numa super oferta. Os livros desse autor são bem caros, por isso compensou, mesmo eu sabendo que esse volume vai ficar um bom tempo na fila, já que é o penúltimo da série e eu até agora só li o primeiro. 

Sou muito fã da Irmandade da Adaga Negra, apesar daquelas cenas hot ridículas, mas havia desistido da série pelo fato desta ter se tornado cada vez mais chata a partir do nono volume. Mas não resisti ao chamado do rei, nem ao ótimo preço e decidi dar mais uma chance aos irmãos.

Preces e Mentiras era um livro que eu já namorava há tempos e paguei um preço que nem nos sebos eu encontraria. Só foi difícil achar uma edição bonitinha, pois a maioria estava com as capas manchadas por algum defeito de impressão.


Mas não é só no fim de feira que passei a bienal. Visitei praticamente todos os estandes e me permiti um pouco de ostentação. A começar por pagar R$ 19,90 em O Adulto. Nem sei porque gastei essa grana num livro tão fino, comprei num impulso. Achei bacana a Intrínseca ter lançado esse conto individualmente, para que os fãs da Gillian Flyinn possam reunir a coleção completa de sua obra toda padronizada, mas deveria. comercializa-lo num valor menor.

A Novo Século arrebentou com uma promoção de seus títulos de novelizações da Marvel. Estou curtindo muito essa coleção e escolhi Homem Aranha, Entre Trovões. A Novo Século também estava com marcadores transbordando das prateleiras, coisa que não vi nos outros estandes.

Depois de ouvir muita gente se debulhar com a Jojo Moyes, meu amigo Guto do blog Consumindo Sagas é um que enche o saco falando dessa autora, resolvi conhecer seu texto. E como quero ler o livro antes de ver o filme, optei pelo mega sucesso Como Eu Era Antes de Você.

A DarkSide não teve estande próprio, mas encontrei alguns de seus livros num outro e comprei o tão aguardado Fábrica de Vespas, livro que levou 32 anos para chegar ao Brasil, que fala sobre um psicopata juvenil.


Quanto as atrações, foram poucas esse ano. A estação do Harry Potter foi o que mais se destacou, houve novamente o trono de ferro, de Game Of Thrones e o espaço da Turma da Mônica estava lindo. Muitos youtubers e poucos escritores de verdade. Até houve a presença de alguns autores que gosto, mas as datas não coincidiram com os dias que fui. Porém, tive o prazer de reencontrar meu querido Vitor Bonini, sempre simpático. Como não levei o livro, pois ele já o autografara em outra ocasião, o Vitor revirou o estande à procura de um exemplar sem etiqueta de preço para tirarmos a foto. Fica a dica para alguns autores metidos a estrelas que se recusam a posar ao lado de quem não compra seus livros.


Entre pontos positivos e negativos a bienal é sempre uma festa. É muito bom estar cercado de milhares de livros e encontrar pessoas que entendem sua loucura. E agora resta aguardar mais dois anos ou economizar uma grana para ir novamente na do Rio ano que vem.

domingo, 11 de setembro de 2016

Flores Partidas - Karin Slaughter



Sinopse

Quando Lydia contou para a irmã que o cunhado havia tentado estuprá-la, Claire não acreditou. Dezoito anos depois, porém, tudo o que Claire achava saber sobre o marido se provou uma mentira. Quando vídeos escondidos no computador de Paul mostram uma face terrível do homem que ela julgava conhecer, Lydia percebe que o drama de sua família tem muitas camadas que precisarão ser descobertas antes que a assustadora verdade por fim venha à tona. Mais de vinte anos atrás, a família Delgado sofreu um grande trauma: a caçula, Julia, desapareceu sem deixar rastros. Até que um acontecimento trágico reaproxima as irmãs, que se unem em uma trégua relutante para, vasculhando o passado, buscar respostas. Mas essa jornada vai trazer à tona segredos que destruíram a família décadas antes, junto com uma chance inesperada de redenção.

Resenha

Atualmente muitos escritores têm seguido uma tendência controversa na literatura em criar heroínas fora do convencional. Digo que é um caminho controverso porque é uma manobra arriscada. Grande parte dos leitores ainda se apega àquelas protagonistas idealizadas, com as quais é fácil se identificar. São poucas as protagonistas fora do convencional que conseguiram me conquistar ou me convencer, mas no caso desse livro, Karin foi muito bem sucedida na construção de suas personagens. Claire é uma mulher na meia idade, que veio de um lar marcado pela tragédia, mas que tem um casamento feliz com um homem rico, poderoso e que a cumula de atenções. Claire tinha tudo para ser uma dondoca fútil, mimada e super protegida. Mas ela não é nada disso. Tanto que logo no primeiro capítulo a encontramos sozinha num bar, aguardando o marido, recém saída em condicional, após uma breve temporada na cadeia. Sua irmã Lydia não fica atrás. Apesar de ter encontrado estabilidade em sua vida, dona do próprio negócio, com uma filha adolescente e um namorado apaixonado, ela já aprontou das suas em sua juventude. Mas o que realmente lhe deixou marcas profundas foi o rompimento com Claire, após ter acusado Paul, marido da irmã, de ter tentado estuprá-la.

Com a morte de Paul, que ocorre de forma dramática logo no início do livro, as duas se reencontram e ao descobrir fatos obscuros sobre o marido ao remexer em seu computador, Claire se reaproxima da irmã. À medida que ela vai chafurdando na lama que o marido deixou pra trás, mais podres vão surgindo e as descobertas atingem Claire de modo tão dilacerante que eu me via cada vez mais emaranhado naquela história, dividindo o sofrimento com a personagem e cada vez mais curioso sobre até onde os segredos de Paul poderiam levar. É comovente a reaproximação das duas irmãs. Dolorosa, hesitante cheia de ressentimentos. Um reencontro que traz à tona muitas mágoas do passado, além de remexer na ferida nunca cicatrizada que é o desaparecimento nunca solucionado de Julia, a irmã caçula. Karin explora todo esse turbilhão de emoções sem cair no melodrama, mantendo a elegância de sua escrita, mas sem nenhuma reticência em exumar todos o sofrimento que permanece enterrado no coração de cada uma daquelas pessoas.

E, como se já não bastasse tanto mistério e emoção, passando da metade do livro a autora dá uma reviravolta, alterando completamente o jogo. Confesso que antecipei essa revelação devido a algumas pistas que foram deixadas no caminho, mas não esperava que esse acontecimento pudesse me deixar em tamanha dúvida a respeito do verdadeiro caráter de um determinado personagem, torcendo para que ele me surpreendesse e se redimisse, mas cada vez mais desconcertado com suas atitudes.

O livro tem um ritmo constante, dando tempo para que absorvamos a intensa carga dramática, nada corrido nem lento demais, exceto nas cem últimas páginas onde a autora se torna excessivamente descritiva nas ações dos personagens, empacando a leitura. É uma página inteira pra narrar alguém atravessando a rua. Isso tirou um pouco do meu entusiasmo, fazendo com que eu demorasse mais do que pretendia para terminar. Mas, mesmo assim, foi uma das melhores leituras dos últimos tempos. Um livro pungente, ricamente escrito que me deixou impressionado com o talento dessa escritora. E quem quiser concorrer um exemplar de Flores Partidas, basta participar do top comentarista de setembro.