terça-feira, 24 de novembro de 2015

A decepcionante continuação de um grande sucesso - Em Busca de Um Novo Amanhã - Tilly Bagshawe


Sinopse

Na companhia de Jeff Stevens, Tracy Whitney foi responsável por alguns dos maiores assaltos do mundo. Mas, apesar de adorar a adrenalina que essa vida lhe proporciona, quando ela e Jeff se casam, eles fazem um trato: deixar o passado de crimes para trás e formar uma família. Tracy se esforça para adaptar-se à nova rotina, mas ela sente que falta algo para que seja realmente feliz: um bebê. Porém, à medida que os meses passam e a tão desejada gravidez não acontece, ela se sente cada vez mais infeliz. Quando uma misteriosa e envolvente mulher surge na vida do casal, a até então indestrutível parceria deles é abalada. Um belo dia, Jeff acorda e descobre que Tracy desapareceu. Por mais de dez anos, ele faz o possível para descobrir o paradeiro da amada mas, como o restante do mundo, acredita que ela esteja morta... até que uma série de assassinatos leva um audacioso detetive francês a acreditar que a vigarista está envolvida nos crimes. Tracy Whitney está mais uma vez no centro de uma misteriosa trama. A diferença é que, agora, ela tem tudo a perder, inclusive o homem que continua a amar.

Resenha


Se Houver Amanhã foi publicado em 1985 e ambientado naquela mesma época. A última cena mostra a protagonista Tracy Whitney num avião, rumo ao Brasil, decidida a viver uma nova vida. Em Busca de Um Novo Amanhã retoma a história justamente nessa cena: Tracy no avião, encontrando Max Pierpoint. Porém, logo de cara me deparo com um anacronismo horrendo: comenta-se que Tracy escreveu um artigo na Wikipédia. Como assim, Wikkipedia em 1985? Achei que fosse um tropeço da autora e segui em frente. Mas logo percebi que a história estava se passando nos anos 2000! Como é possível uma pessoa entrar numa avião em 1985 e sair dele vinte anos depois? Não houve um intervalo, compreendem? A história continua de onde parou, com Tracy em seus vinte e poucos anos, mas é ambientada no começo desse século. A autora ignorou a cronologia dos acontecimentos, praticamente desmentindo Sidney Sheldon no livro anterior. Achei isso, além de bizarro, de uma falta de respeito imperdoável com a obra do mestre. É como se o livro anterior não houvesse existido. Como se Tracy e os demais personagens fossem obra dela e estivessem aparecendo pela primeira vez. Tanto que Tilly lança tantos spoilers de Se Houver Amanhã, que quem não o leu, perderá a vontade. Ela faz tantas recapitulações do primeiro livro, que parece estar nos dizendo: “ Não precisam ler se Houver amanhã, eu conto tudo pra vocês.” Como se ela tivesse competência para recriar uma das obras primas de Sidney Sheldon. Não entendo como a família pôde permitir esse insulto à memória do mestre.


A partir de então, o livro perdeu todo o encanto. Só consegui continuar lendo, admitindo para mim mesmo que essa não era a mesma Tracy Whitney de Sidney Sheldon. Eram outros personagens, com os mesmos nomes, mas num universo paralelo. E realmente, eles parecem outros personagens. Tracy em nada se parece com a mulher brilhante do primeiro livro. Ainda pratica seus golpes, mas são tão amadores que eu me espantei de Max Pierpoint, um espertalhão, cair num deles. Tilly não tem a mesma criatividade de Sheldon em criar planos mirabolantes. Em Se Houver Amanhã, cada roubo era uma aventura alucinante. Pegávamos o livro com uma mão só, pois a outra estava na boca, as unhas sendo roídas. Ficávamos curiosos com os estratagemas de Tracy, com o coração na mão quando ela quase era pega e deliciosamente surpresos ao final de cada golpe. Nesse livro não, tudo é muito morno. São golpes mal explicados, tolos e inverossímeis.  Jeff é outro que está irreconhecível. O personagem irresistível deu lugar a um cara apático, que passa o dia enfurnado num museu, sem esboçar nenhum vislumbre do charme que esbanjava. O casal protagonista é tão chato que eu queria pular as cenas narrando sua intimidade.

Nos livros anteriores Tilly se esforçou bastante para reproduzir o estilo de Sidney Sheldon, e teve êxito. Era essa a graça de seus livros, nos dar a ilusão de uma obra inédita do mestre. Mas nesse, ela nem mesmo tenta imitá-lo. Não senti quase nenhuma similaridade com o estilo dele. Principalmente nos toques de humor que ele dava às suas histórias. Há uma cena em que Jeff entra na sala de um ginecologista e dá de cara com uma paciente com as pernas abertas. Sheldon jamais recorreria a um truque tão grosseiro para fazer o leitor rir.

Tilly é uma boa escritora. Tem uma narrativa vigorosa, é ótima nas descrições de cenários e delineia bem os personagens, embora não os aprofunde. O livro tem uma boa trama: alguém está copiando os golpes aplicados por Tracy ao longo de sua carreira e, nos mesmos dias em que esses crimes ocorrem, prostitutas são assassinadas. Um investigador dedicado faz a ligação entre os crimes e se aproxima de Tracy para que juntos tentem desvendar o mistérios. E, além disso, uma segunda golpista, quase tão bela como Tracy, rivaliza com ela. Tudo isso traz à obra atrativos suficientes para que a leitura nãos seja uma total perda de tempo. Mas o livro carece de ritmo. Assim como o anterior Sombras de Um verão, a história demora demais a empolgar.

Como sequência de um livro tão especial, considero Em Busca de Um Novo Amanhã um fracasso. Acredito que se uma história chega ao fim, é porque não há mais nada a ser contado. Porém, Tilly não concorda com isso, tanto que uma nova sequência já foi lançada lá fora, conforme podem conferir aqui. É, pessoal, pelo jeito a Tilly não vai largar esse osso.

domingo, 22 de novembro de 2015

Sete mafiosos da literatura

D. Vito Corleone

O mais famoso chefão da cultura pop só poderia ter sido um dos mais implacáveis mafiosos. Um italiano de origem humilde que se aventurou a tentar a vida nos Estados Unidos e lá começou a construir seu império, não hesitando em se utilizar de métodos violentos para  se estabelecer em seus negócios. Apesar disso, era um homem que amava profundamente sua família e não desejava que seus filhos seguissem o seu caminho. Um personagem que se tornou uma referência para todos os escritores que se desejem enveredar no mundo da máfia.


Cesare Cardinalle 

Para muitos, Cesare era apenas um homem de negócios com uma reputação ilibada. Mas aqueles que conheciam o mínimo que fosse de sua verdadeira face, sabiam o suficiente para temê-lo. Um criminoso que enriquecera matando quem entrasse em seu caminho. Principalmente pessoas dispostas a testemunhar contra a máfia. Um mafioso que não costumava mandar recado, resolvendo seus assuntos com as próprias mãos, o que lhe um enorme prazer. E sempre acompanhado de seu afiado estilete.


Vinnie Amendola

Esse é figurinha fácil nos livros de Robin Cook. Vinnie é um mafioso que vive às voltas com fraudadores de planos de saúde, corpos jogados nos rios e acaloradas discussões de "negócios" acompanhadas de uma boa massa num discreto restaurante italiano. Mas apesar de experiente, impiedoso e audacioso, Vinnie vive levando rasteiras da legista Laurie Montgomery. E após ter falhado nas diversas vezes em que tentou se livrar da médica, acabou por desistir e manter uma distância segura de sua inimiga.


Rehvenge

Conhecido como O Reverendo, Revhenge fundou o Zero Sun, um bar de fachada para o tráfico de drogas onde as figuras mais incomuns costumam aparecer. Como vampiros, por exemplo. Devido à sua linhagem, parte Sympatho, uma espécie capaz de manipular os sentimentos alheios, ele depende de substâncias químicas para controlar sua natureza nociva aos que o cercam, o que o torna fornecedor e usuário de drogas. Mas nada disso o torna menos poderoso, sedutor e letal.


Freddie Jackson

Ele tinha quase todos os defeitos do mundo, mas o pior deles era a inveja. Já era um veterano no crime, quando seu primo Jimmy começou a engatinhar nos negócios fora da lei. E foi por com um crescente ressentimento que ele acompanhou a ascensão de seu antigo discípulo e quis tomar tudo o que o rapaz conquistara, inclusive sua mulher. E os métodos utilizados não foram nada sutis. Um vilão sem nenhum escrúpulo, que deixou em seu rastro uma longa trilha de calamidades.

Michael Moretti

De origem humilde, Michael começou sua jornada no mundo da máfia fazendo pequenos serviços para as “famílias”, até se tornar um dos chefões. Acostumado a ter tudo o que deseja, sente-se desafiado com a rejeição de uma íntegra advogada a quem assedia para que passe a trabalhar para ele. Determinado, não mede esforços para ter Jennifer Parker prestando-lhe serviços. O problema é que quando o consegue, ela acaba por ganhar também seu coração, se tornando sua maior fraqueza.


Vince

Como um mafioso tradicional, ele herdou os negócios do pai e os assumiu com toda a competência. Faça perguntas sobre ele que logo será convidado por seus capangas a entrar num carro para uma viagem, da qual só retornará se tiver muita sorte. Extremamente violento, provocá-lo pode significar perder algumas partes do corpo. Um cara pavio curto, acostumado desde criança com a violência. Mas toda essa valentia escorre pelo ralo quando está diante de sua adorada enteada, por quem demonstra um enorme carinho.


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Os Cães - Robert Calder


Sinopse

Numa pacata cidade de Nova Inglaterra, Alex Bauer, um professor universitário, encontra um cachorrinho abandonado, levando-o para casa e, como tempo, afeiçoa-se extremamente a ele - ignorando que de uma estação experimental de criação de cães, a uns 150 metros de distância, desaparecera um filhote de um cruzamento especial. E então, certo dia, após um incidente, o cão foge para o mato e volta à sua natureza primitiva.O que se segue é um cataclisma de terror que domina uma região e se torna para Alex Bauer um verdadeiro inferno.

Resenha

O livro está longe de ser uma história de terror, ao contrário do que é anunciado na capa. A impressão que tive é a de que o autor usou o tema de cães ferozes atacando seres humanos, para discutir suas ideias existencialistas. Até aí, tudo bem, é bacana você descobrir que um livro de entretenimento, tem algo mais profundo por trás. Colin Wilson fazia isso muito bem, personificando correntes filosóficas através das atitudes de seus personagens. Mas Calder não obteve o mesmo êxito. O autor se mostrou tão desajeitado ao expor suas ideias, que elas destoam completamente da história. Num momento o personagem principal, Professor Bauer, está às voltas com seu cão de estimação, notando algo anormal em seu comportamento. No outro, está sentado com sua ex-mulher, ambos fazendo dissertações sobre relacionamento que parecem ter sido retiradas de algum livro de psicologia e coladas dentro do diálogo. Os personagens despejam textos herméticos, com uma linguagem rebuscada e altamente técnica, só para comentarem sobre o casamento que não deu certo. Num momento estão bebendo descontraidamente, no outro, agindo como estudantes na apresentação de um seminário. Conversas que seriam simples e agradáveis transformam-se em verdadeiros tratados.

Os personagens robóticos se movimentam a esmo pela história. Os conflitos são mal expostos, tudo narrado com um distanciamento acadêmico. Parece que estamos lendo um texto de um livro escolar de História. As cenas de ação, nas quais os cães atacam as pessoas incautas que atravessam seu caminho, são até que bem sacadas, mas mal contadas, o autor não passa nenhum entusiasmo. O livro não tem ritmo algum. Muitas cenas são interrompidas assim que começam a ficar interessantes, para não serem retomadas. Nos momentos que seriam mais dramáticos, o autor dá um salto na narrativa, resumindo com breves palavras a conclusão das cenas anteriores.

Nos últimos momentos o autor tenta dar emoção à história, apelando para miséria a humana em que se sente imerso Bauer, lamentando um casamento infeliz e o fato de seu cão, a quem deu tanto amor, ter desfigurado o rosto de seu filho. Mas aí já era tarde demais. O autor ignorou o potencial dramático de sua própria história durante toda a narrativa e quis apelar para a emoção somente nos últimos momentos.

E, além disso, o texto é pesado demais. Ler uma dezena de páginas era um grande esforço e só o terminei rápido porque queria me livrar logo do livro. Não costumo depreciar livros sem pelo menos mencionar alguns pontos positivos, mas esse, não me rendeu nenhum bom momento.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sem Tempo Para Despedidas - Linwood Barclay


Sinopse

Numa manhã, Cynthia acorda e estranha o silêncio incomum em sua casa. Descobre então, que todos os membros de sua família desapareceram sem vestígios. Vinte e cinco anos se passam e ela, casada e com uma filha, ainda sofre com o mistério. Em busca de respostas, aceita participar de um programa de TV para reviver o caso, esperando que isso atraia alguma testemunha que possa esclarecer o mistério. O que ela não sabe é que desenterrar o passado pode ter consequências perigosas.

Resenha

Narrado em sua maior parte em primeira pessoa, pelo ponto de vista do marido de Cynthia, o professor Terry, o livro se inicia mais como um drama familiar. O autor não tem pressa. Não que o livro seja arrastado, mas o autor se preocupa em ambientar bastante a história, narrando cenas da rotina do casal, seja em sua casa, no trabalho ou na escola de sua filha, explorando todas as consequências da tragédia na vida de Cynthia, que se tornou uma pessoa desequilibrada. Ela faz questão de levar a filha Grace, diariamente à escola, temendo que alguém a roube; Ela aborda estranhos achando que é algum dos membros desaparecidos de sua família; Ela liga diversas vezes para a produção do programa sobre crimes do qual participou, em busca de novidades.

Somente após um terço do livro é que a trama vai ganhando contornos policiais e assim, se tornando gradualmente mais intrigante. Fatos estranhos vão surgindo, fazendo com que se dê início a uma linha de investigação. Sabemos que há alguém rondando a família, o que rende algumas cenas capazes de dar um frio na barriga, e a partir do momento em que novos crimes passam a ocorrer, o livro ganha um ritmo de suspense alucinante. Com raríssimas exceções, todos os fatos aparentemente casuais jogados no meio da história tem alguma relevância, fazendo com que o final arremate com muita emoção todas as pontas soltas.

Terry, que no início era um tanto apático, ganhou minha simpatia, com todo o seu esforço para desvendar essa trama intrincada, sempre desejando o melhor para a sua esposa e sua filha e mostrando-se corajoso ao correr sérios riscos para salvar sua família, mesmo sendo um professor que mal sabe pegar numa arma,

Não esperava muito desse livro e foi uma grata surpresa ir descobrindo com o decorrer da história que estava com um brilhante thriller em mãos.

domingo, 15 de novembro de 2015

Madison, 1300 - Ira Levin


Sinopse

Uma série de Mortes misteriosas aterrorizam os moradores de um prédio de apartamentos de Manhattan. Alguém ali espiona a vida de todos os inquilinos por meio de um sofisticado sistema de vídeo. Uma mulher solitária se, muito parecida com uma das vítima,s se v~e em meio a um turbilhão de acontecimentos bizarros.

  Resenha  

A premissa do livro é ótima, um edifício como cenário de misteriosas mortes, uma executiva do ramo editorial na meia idade, cuja única companhia é sua gata, envolvida com um rapaz mais jovem e alguém observando tudo o que acontece dentro de cada apartamento através de um sofisticado sistema de câmeras. Porém, Ira parece não ter tido disposição para transformar tudo isso num bom livro.

A narrativa é confusa, praticamente composta de diálogos e descrições dos movimentos dos personagens. É sempre alguém pegando uma xícara, ajeitando a blusa, fechando uma porta. Mas boas descrições de cenário não existem. O livro não tem atmosfera, parece que estamos lendo um roteiro de cinema. Como um dos personagens espiona a vida dos inquilinos através de vários monitores, é possível que essa escolha da narrativa tenha sido proposital, fazendo com que o livro pareça um filme, mas não deu certo, pois não dá pra entrar na história. O livro foi escrito sem nenhuma emoção, é um texto muito mecânico e por isso não há como criar empatia com os personagens e seus conflitos.

Kay, a protagonista, é apresentada como uma editora bem sucedida, uma mulher segura e que convive bem com a solidão, mas com o decorrer dos capítulos se transforma numa bobalhona, que fica de quatro por um rapaz mais novo, Peter. O romance entre eles vai se aprofundando, mas eles não conseguem convencer como um casal. E conforme os segredos do rapaz são revelados, Kay age com uma passividade irritante. O único personagem com um pouco mais de solidez é Sam, um ator decadente, mas mesmo ele não desperta simpatia.

Como pontos positivos devo ressaltar a engenhosidade do autor em alguns detalhes na execução de alguns crimes, o assassino sabe forjar os elementos de um crime de maneira genial.

 O livro teve uma adaptação cinematográfica que no Brasil recebeu o título de Invasão de Privacidade, com Sharon Stone no papel principal. O filme é muito superior ao livro e por isso a leitura foi uma grande decepção. Principalmente por se tratar de um autor tão bem conceituado.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Procura-se - Giovanna Vaccaro



  Sinopse

Ariane tem pouco tempo de vida. Desde os seis anos, sofre com a doença arterial coronariana, uma deficiência cardíaca genética; rara em pessoas jovens, mas fatal.
Para agravar a situação, após uma crise de insuficiência cardíaca, ela recebe a notícia de que deverá passar, o mais urgente possível, por um transplante de coração, caso contrário, seus dias estão por um fio. Porém, ela tem uma nova razão para pulsar: seu novo amigo Miles. Ariane se envolve em uma paixão “quase” perfeita – diante do difícil drama que enfrenta! Juntos, eles tentarão encontrar uma saída e farão de tudo para congelar o tempo e eternizar cada segundo que lhes resta, como um extenso fio de esperança que surge a seu futuro tão incerto.

Resenha

A premissa do livro me deu a ideia de uma história triste, com uma jovem sofrendo de uma doença incurável, mas tentando ser feliz durante o pouco tempo que lhe resta. Mas o tom da narrativa não tem nada de deprimente. Sentimos certa melancolia numa passagem ou outra, mas o clima preponderante do livro é de humor, positivismo e leveza.

No começo achei Ariane uma jovem implicante, rabugenta e muito crítica. Ela tem uma visão analítica apurada de tudo e todos ao seu redor. Porém, muito desse seu temperamento é interiorizado. Por fora ela é uma pessoa muito fácil de lidar. Uma filha obediente, uma irmã companheira e uma excelente amiga. A maneira como ela lida com sua doença, que a acompanha desde os seis anos de idade, é bastante admirável. Ariane é orgulhosa demais para compartilhar sua condição com todo mundo, por isso, pouquíssimas pessoas sabem de sua doença, o que é perigoso, já  que em seus momentos de crise, depende de uma medicação específica que é vital para sua saúde. A doença é a coronariana, da qual eu nunca havia ouvido falar, mas que Giovanna explica de modo sucinto, mas bastante esclarecedor.

O romance entre Miles e Ariane ocorre lentamente, de forma bem natural, sem joguinhos, com o casal cultivando uma promissora amizade. Não há pieguice na relação entre os dois. Formam um casal divertido, sempre fazendo brincadeiras um com o outro. Seus encontros têm geralmente uma mistura de romantismo e humor. Miles é direto, mas respeitoso, atrevido, mas cuidadoso, um cara seguro de si. Já Ariane é receptiva, mas evasiva, abre as portas de sua casa para ele, mas mantém uma distância segura, freando o entusiasmo do rapaz. E é justamente na mesma época em que conhece Miles é que descobre que tem apenas dois meses de vida caso não consiga um transplante

Achei a escrita de Giovanna coesa. Ela tem um senso de ritmo bastante apurado, sabendo conduzir cada cena, cada capítulo e emendar com a situação seguinte. Muitos parágrafos ou capítulos terminam com alguma frase de efeito, que ou te instiga a ler mais, ou finaliza o trecho de modo redondinho, demonstrando um capricho todo especial na escrita. Suas descrições dos personagens são vivas, geralmente acrescentando impressões pessoais da própria Ariane, já que a narrativa é em primeira pessoa.

Há alguns pontos negativos a serem ressaltados:

Callie, melhor amiga de Ariane sofre uma decepção com seu namorado Harry e decide se vingar. Foi um lance que movimentou bastante a história, mas acho que furar os pneus do carro do ex-namorado já seria de bom tamanho. Porém, a garota não se contenta com isso e apronta várias para seu ex, estendendo essa situação por várias páginas, o que tirou todo o foco da trama central. Sem falar que perdi totalmente a simpatia pela personagem, que acabou perdendo a razão. A garota alto astral e segura de si se tornou uma megera despeitada. A melhor vingança é arrumarem um namorado mais gato e se mostrarem superiores, meninas, é mais digno.

Mas o maior erro da autora foi o de desconsiderar a existência de uma fila de espera para transplante de coração. Você não pode reivindicar o coração de um parente ou amigo morto, só porque ele é compatível com o seu. Diferente de uma doação de rim, parte do fígado ou medula, que são doados em vida, no caso do coração, não há como deixá-lo de herança para alguém. Há uma fila de espera e por três vezes isso foi ignorado na história. Compreendo que foi uma licença poética, mas foi forçado.

Outro momento que me indignou foi quando Ariane decidiu procurar sua mãe após descobrir que precisava de um transplante. Nada disso foi dito claramente, mas ficou evidente que a garota queria que a mãe doasse seu coração para salvá-la. Primeiro, que, como disse acima, isso não seria possível. Ela queria o que, que a mãe se matasse para lhe dar o coração? Como a autora fez uma referência ao filme Awake, A Vida Por um Fio, usando-o como um precedente, acredito que tenha sido essa a intenção, mas o contexto do filme era totalmente diferente. Sem falar que achei  a atitude de Ariane de uma mesquinhez atroz.

Esses pontos prejudicaram em muito a história, mas são muitos os pontos positivos. O livro é permeado de frases motivadoras, todas sempre pertinentes à cada momento da narrativa. Os personagens são adoráveis, cada um tem um encanto próprio, que o difere dos demais, mas todos formam uma grande harmonia. E o final tem uma linda justiça poética.

Procura-se está entre os melhores livros nacionais do ano na votação do blog Leitura Virtual, chegando ao primeiro lugar no resultado parcial. E dá para se entender o motivo. Com apenas quinze anos, a autora sai na frente de muito marmanjo por aí, com um texto de qualidade, combinado a uma bela história. E o lado bom de começar tão jovem na literatura é que, quanto mais cedo se começa, mais tempo se tem para se aperfeiçoar e lançar muitos outros títulos.