domingo, 30 de agosto de 2015

Colega de Quarto - Victor Bonini

                                                                   
                                                                    Sinopse

Devido a um curso universitário, o jovem Eric Schatz se mudou para São Paulo e, vivendo sozinho no suntuoso apartamento comprado por seus pais, começa a perceber indícios de que há mais alguém habitando o local. No início são pequenos indícios, como um par de chinelos desconhecidos. Logo, encontra outra escova de dentes no banheiro, o micro-ondas é ligado sozinho e barulhos estranhos são ouvidos a qualquer hora. Até que numa certa noite, Eric enxerga o vulto do colega de quarto entrar em seu apartamento pela porta da frente. Desesperado, o rapaz procura um detetive particular, mas parece ser tarde demais. Em menos de 24 horas, tudo acontece de modo acelerado e depois de uma ligação aflita ao detetive, Eric despenca da janela do seu apartamento.



                                                                      Resenha

Quem seria esse colega de quarto? O fruto do delírio de uma mente perturbada? Alguém tentando enlouquecer o morador do apartamento? Uma presença sobrenatural? É plantando essas dúvidas em nossa mente que Victor dá início a esse excelente romance policial contemporâneo. O livro já começa intrigante e muito movimentado. Em poucas páginas conhecemos o atormentado Eric, os estranhos acontecimentos que passam a tumultuar sua rotina, somos apresentados ao advogado/detetive Conrado Bardelli e um chocante acontecimento une a história desses dois personagens.

Victor tem como uma de suas principais características o raro dom de ser minucioso e ao mesmo tempo preciso em suas descrições, criando com eficiência as ambientações, mas sem diminuir o ritmo da narrativa. Além disso, o autor tem uma incrível capacidade de fazer com que o cenário fale pelos personagens. A descrição dos aparelhos eletrônicos em um apartamento deixa claro o nível social de quem mora ali, a perplexidade da empregada em encontrar tudo limpo, demonstra os hábitos do proprietário. Sem falar que em uma cena o detetive faz uma análise da rotina de um personagem observando o estado de seu jardim. Achei sensacional. Muito Sherlock Holmes.

Por falar em detetive, Victor nos presenteia com um dos mais carismáticos investigadores particulares com quem me deparei nos últimos tempos. Conrado Bardelli, um advogado que vive às voltas com casos de divórcios, mas cujo talento mesmo é o de detetive particular. Tem uma inteligência ágil, um humor irônico, uma capacidade impressionante de analisar provas físicas e um talento excepcional de fazer análises psicológicas conforme interroga suas testemunhas, algo meio Alex Delaware. E se Poitot tem seu indefectível bigode, Bardelli ostenta sua imensa e revolta barba. Mas apesar das similaridades com detetives famosos, Conrado tem características próprias. É um personagem que passa uma grande leveza, principalmente quando está ao lado do delegado Wilson, seu contraponto. Enquanto Wilson é uma montanha de músculos, tem uma postura rígida, um senso de humor limitado e uma paciência mais limitada ainda, Conrado é desleixado com a aparência, é sutil em suas abordagens com as testemunhas e vê humor nas situações mais controversas.

Como em todo bom livro policial, à cada capítulo surgem revelações intrigantes, que tornam o enigma mais complicado e aumentam o desafio de Conrado (e o nosso) tornando a leitura contagiante. A história tem muitos desdobramentos e o que parecia um caso de suicídio, vai tomando proporções cada vez mais amplas. E mesmo havendo muitos personagens e núcleos, mesmo havendo reviravoltas e situações aparentemente paralelas, o autor não perde a rédea, não divaga, mantendo o foco do livro. Sem falar que a trama é permeada de personagens pitorescos. Todos eles têm uma peculiaridade, seja física ou psicológica, que os torna marcantes e sublinham algum traço de sua personalidade ou de seu comportamento. O porteiro com seu risinho maldoso, o roqueiro cabeludo, a empresária com um penteado impecável, o síndico afeminado. Ao contrário de alguns romances policiais aonde a quantidade de testemunhas chega a confundir o leitor, que não consegue mais discernir quem é quem, no livro de Victor distinguimos claramente cada personagem devido a esse seu cuidado na composição de cada um deles. Além disso, cada personagem, seja ele uma testemunha direta ou indireta, tem uma função definida na história e não estão ali apenas para distrair a atenção do leitor.

Quanto à conclusão, o que posso adiantar é que achei muito engenhosa e honesta com o público. Victor não joga sujo e nos deixa várias pistas. Confesso que deixei passar muitas delas na hora, mas durante a elucidação feita pelo detetive identifiquei todas e dei o costumeiro tapa na testa.

Não posso deixar de ressaltar os pontos negativos. Logo no início Conrado conclui que Eric é um playboy devido às marcas das roupas que ele usa, porém, o autor não as menciona. Não se trata de fazer propaganda, mas de trazer o livro para o mundo real. Sempre há uma identificação quando são citados marcas de produtos e nomes de estabelecimentos.  Mais adiante ele até menciona a marca do uísque Jack Daniels, mas nessa cena em especial, logo no início, senti falta desse detalhe. Quanto à revisão só achei um erro, na página 146, com a palavra expectativa, grafada incorretamente. Nada que não se possa corrigir facilmente na próxima edição. Também não compreendi porque a polícia não recorreu às câmeras de segurança no primeiro incidente ocorrido no prédio. E a explicação a respeito de um episódio envolvendo Eric, seu pai e seu amigo Dênis, na saída da clínica psicológica, não foi satisfatória pra mim. Achei a solução referente a essa parte do mistério bastante confusa e, sinceramente, não consegui entender os esclarecimento referente à confusão que houve entre esses três personagens.

Mas todos os momentos deliciosos que o livro me proporcionou fazem com que eu releve esses detalhes, nada disso desqualifica a obra. Victor cria algumas metáforas impressionantes, sempre fugindo ao óbvio. Sabem aquele livro cheio de imagens batidas, como “acertou com precisão cirúrgica”? Isso você não encontra aqui. Nota-se que Victor se esforçou em criar figuras originais simples e assertivas como a seguinte: “Quem recebeu os dois no portão era dotado de uma silhueta esguia que, contra a luz que vinha de dentro, rebolava feito uma cobra ao caminhar.” O livro tem um humor ingênuo, mas pertinente, um ritmo veloz, que te leva na garupa, lhe fazendo ansiar por respostas, situações muito bem elaboradas e uma sugestão de um elemento sobrenatural que cria algumas cenas arrepiantes na reta final, que nos deixa oscilando entre a ânsia por uma resposta racional, mas atordoados com a possibilidade de que realmente há um "colega de quarto" no apartamento de Eric. Mesmo com esse diferencial, o livro é um policial nos moldes clássicos, mas com uma identidade brasileira. Diversão do início ao fim. Espero que seja o primeiro de uma longa série e que Conrado se consolide ao lado de outros detetives nacionais como Spinoza, Mandrake e Bellini.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sete trechos curiosos de Dissecando Stephen King


Dissecando Stephen King é uma coletânea de entrevistas concedidas pelo mestre do terror a jornais e revistas, contando fatos sobre sua origem humilde, falando sobre seu fascínio pelo medo, explicando seu processo criativo e discorrendo sobre outras paixões, como o rock and roll. Por ser um livro composto por diversas entrevistas, é uma leitura ágil, que vai saltando de assunto em assunto, não se demorando demais em nenhum dos temas. E também por ser um apanhado de diferentes entrevistas, em diferentes épocas e ocasiões, muitos assuntos retornam frequentemente à baila, como a história da publicação de seu primeiro livro, episódios de sua infância, sua opinião sobre as adaptações de seus livros para o cinema, o que fica um tanto repetitivo. Mas mesmo assim é uma das mais agradáveis obras de não ficção sobre o processo criativo que já li. Perguntas diretas e pertinentes, com respostas sólidas do autor. King não é aquele entrevistado que sai pela tangente. Ele encara as questões e as responde de modo satisfatório. O livro tem muitas observações curiosas e separei aqui aquelas que achei mais interessantes:

Sexo, mulheres e casais

Stephen admite que tem grande dificuldade em escrever cenas de sexo, criar casais convincentes e compor heroínas bem estruturadas que estejam na faixa etária entre 17 e 60 anos e que não sejam uma garota tímida ou uma mulher que ferra com tudo. Nos dois primeiros casos eu concordo (não que cenas hot façam falta), mas no que concerne a heroínas mal trabalhadas ele tem outras personagens femininas que fogem ao padrão Carrie e Annie Wilkies e que são bem retratadas. As protagonistas de Eclipse Total, Rose Madder e Jogo Perigoso são ótimos exemplos de personagens complexas e fora desses estereótipos. Mas, deve-se ressaltar que essa entrevista foi anterior a esses livros.


Alfinetadas nada sutis

Stephen King declara sua desaprovação ao estilo de Harold Robbins, criticando a falta de motivação dos personagens em seus livros, onde, segundo ele, quase que se vê a mão do escritor forçando as atitudes dos personagens. Stephen defende que os personagens devem ser sempre aprofundados, para que conheçamos seus conflitos interiores e compreendamos assim cada atitude tomada. Realmente seus livros mergulham no universo interior dos personagens e os tornam sólidos, com vontade própria e, por isso, suas ações são sempre coerentes com o que eles acreditam.


Conexões


Um dos entrevistadores faz uma conexão entre Christine, o carro, e o Overlook Hotel de O Iluminado, dizendo que ambos são elementos catalisadores da mudança de comportamento dos personagens, com o que King concordou, apesar de não tê-lo feito de modo consciente.



Coincidência

Um dos jornalistas comenta que na edição americana de O Iluminado, a cena da mulher na banheira no quarto 217, se encontra curiosamente na página 217.





                                                            
Plágio

Na época do lançamento do livro A Incendiária, foi levantada a acusação de que o livro era um plágio de A Fúria, de John Farris. Stephen elogia o livro (que já está na minha fila de leituras há um tempo), mas nega que tal acusação tenha qualquer embasamento. Pela sinopse do livro de John Farris, realmente não parece ser uma cópia, apenas temas similares. 




Unindo o útil ao rentável

A deia de escrever Dança Macabra partiu de seu editor. Este lhe disse num telefonema: “Você não se chateia quando ficam sempre lhe perguntando como surgiu o seu fascínio pelo horror? Então, escreva um livro sobre isso e aí quando lhe perguntarem, basta você mandá-los lerem essa obra. Assim você se poupa de responder a essas questões e ainda tem a oportunidade de vender mais um livro.” 




Apavorante demais

Stephen King não queria publicar O Cemitério por achar aterrorizante demais. Ao ler o manuscrito, Tabitha concordou com ele e o livro ficou engavetado por anos. Mas, mesmo após tê-lo lançado o autor não se sente confortável com a obra. Segundo King, a cena mais aterrorizante é a do pai exumando o corpo do filho.










quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Meia Noite - Dean Koontz

                                                                     

                                                                        Sinopse


Uma sequência de fatos inexplicáveis acontecem na cidade de Moonlight Cove, um balneário idílico da costa norte da Califórnia, onde criaturas sobrenaturais silenciosamente deixam em seu rastro uma trilha de extrema violência. Uma série de mortes inexplicáveis ocorre naquele local, cujos habitantes parecem ser cúmplices de um segredo de proporções apocalípticas. Quatro pessoas se unem para lutar contra um mal desconhecido e conforme desvendam o mistério que se esconde naquela cidade, mais apavorante é a verdade que toma forma.

                                                                      Resenha

O livro já começa com um primeiro capítulo de tirar o fôlego, uma cena de perseguição caprichada, onde o terror da vítima fica em primeiro plano, com esta fugindo de algo indefinível que a espreita na praia. Logo os personagens principais nos vão sendo apresentados e Dean os retrata de forma minuciosa. Temos um agente do FBI amargurado, uma produtora de filmes workholic, um veterano de guerra aleijado que passa seus dias observando a vida dos vizinhos acompanhado de um fiel cachorro e uma garota que descobre que há algo errado com seus pais e se aventura numa desenfreada fuga.

A narrativa também é recheada de referências a filmes e livros de terror, suspense e ficção científica. Harry, o deficiente que acompanha a vida dos vizinhos com um telescópio, se compara ao personagem de Janela Indiscreta de Hitchcock, por exemplo. São muitas citações à cultura pop, e todas elas pertinentes ao enredo e não apenas uma maneira do autor querer impor seu gosto pessoal, como alguns escritores costumam fazer. São mencionados HG Wells, o filme Vampiros do Espaço, que é baseado no livro de Colin Wilson, o filme Alien e muito mais.
A trama tem uma clara influência de Os Invasores de Corpos, A Ilha do Dr.Moreau e Admirável Mundo Novo.

Dean torce o tema de seu enredo até escorrer a última gota. Ele brinca com a imaginação de forma delirante, explorando todas as implicações possíveis da experiência que gerou a Nova Gente, que são as criaturas que tocam o terror no livro. O livro vai do terror ao horror de forma extrema. Há o medo de algo indefinido, quando as criaturas rondam os personagens, mas não se mostram com clareza, se manifestando através de sussurros do lado de fora, fechaduras sendo forçadas e vislumbres de pés grotescos por baixo da porta. Mas também há o horror explícito que nos assalta durante as descrições minuciosas que ele faz das metamorfoses de suas criaturas. São passagens bizarras, mas hipnóticas. É Dean no auge de sua criatividade.

Devo ressaltar os pontos negativos que são muitos. Os personagens principais demoram demais a se cruzar para, assim, formar a trama. O livro é em sua maior parte composto de cenas isoladas, com cada personagem passando por seus apuros, com o vilão imerso em seus acessos de megalomania e com a Nova Gente vivendo seus dilemas existenciais.
O vilão, por sinal, é um dos mais chatos criados por Dean Koontz, o que é de se espantar, já que um de seus pontos fortes é criar vilões marcantes.
O que me decepcionou bastante foi o papel dos heróis do livro. Quando os mocinhos se conheceram e se instalaram na residência de um deles, formando uma espécie de resistência à força maligna que dominava a cidade, achei que após identificarem os inimigos, planejariam e colocariam em prática uma estratégia de combate às criaturas. Mas não, passaram quase o livro todo acuados dentro de casa e quando saíram, faltando umas 80 páginas para o final, foi para pedirem socorro ao FBI e não para combaterem seus inimigos. Senti falta de um embate empolgante no final. O desfecho teve um lado redentor, mas que em outro aspecto deixou a desejar.

Meia noite é um livro com altos e baixos que faz jus à categoria de terror com cenas apavorantes, embora muitas delas sejam gratuitas, mas bem cansativo pela falta de ritmo. É um clássico de Dean Koontz, um livro singular, que todo fã do gênero deve ler, mas que não consegue ser uma leitura vibrante, daquelas de fazer as páginas voarem. Uma obra onde o autor abusou de alguns recursos, mas negligenciou pontos importantes  a serem desenvolvidos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Último Contato - Louise Voss e Mark Edwards

                                                                   
                                                                 
                                                                  Sinopse

Há vinte anos, Kate Maddox foi voluntária em uma pesquisa cujo objetivo era buscar a cura para o resfriado comum.Naquele verão, Kate se apaixonou por um jovem médico, Stephen. Mas um incidente culminou na trágica morte do rapaz e Kate fugiu para uma nova vida nos EUA. Agora, de volta à Inglaterra, Kate foge com seu filho da perseguição de um marido cruel. Mas um encontro casual com o irmão gêmeo de Stephen, Paul, a leva de volta aos fatos de sua juventude, envolvendo o laboratório e suas experiências e faz com que se empenhe numa busca de respostas sobre o que realmente aconteceu. Perseguida tanto por seu ex-marido quanto por um assassino psicopata, Kate se une a Paul para desvendar os mistérios do passado e salvar sua vida.

                                                                     Resenha


Não sei porque, mas apesar da capa ter me deixado com água na boca, eu tinha o pressentimento de que este livro não era tão bom quanto parecia. E acertei. As alusões a Dan Brown, Stieg Larsson e Michael Crichton são totalmente despropositadas, pois o estilo não se assemelha a de nenhum desses autores.
O início é promissor, com uma paciente servindo de cobaia ao experimento de um vírus, numa cena chocante. Porém a história não ficou focada nessa doença, o que desclassifica o livro como um suspense médico. Trata-se mais de uma aventura, com um toque de romantismo e humor. O casal protagonista até que é simpático, mas não conseguiu me cativar. Na verdade, não criei afinidade com nenhum dos personagens, nem mesmo com o menino, o que é espantoso, pois gosto demais de personagens infantis, mas nem mesmo este se salvou.
Os vilões são totalmente caricatos. Um deles é um megalomaníaco, com discursos pomposos, salientando sempre sua inteligência e o outro o estereótipo de um psicopata, caindo no clichê de sentir atração física pela mulher a quem persegue e desejar torturá-la para satisfazer suas taras sádicas.
O desfecho, contudo, alcança um clímax impressionante,  com uma ação vertiginosa, reviravoltas surpreendentes e uma corrida contra o tempo que torna os últimos capítulos magnéticos.
Mas isso não redime os autores que não conseguiram criar uma obra empolgante como a sinopse prometia. Só aumentou minha implicância contra livros escritos a quatro mãos.
Além disso o preço é bem salgado para um produto tão insatisfatório.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Sete raridades de Dean Koontz

Mesmo não sendo tão famoso quanto Stephen King, pelo menos não aqui no Brasil, Dean Koontz possui também uma boa quantidade de livros que se tornaram verdadeiras raridades e que quando aparecem no mercado, são arrematados por valores absurdos. Há dois motivos para isso. Um, é o de que alguns livros tiveram sua reedição proibida pelo autor por considerar muito mal escritos. O outro é porque o autor é muito negligenciado pelas editoras brasileiras. Se até seus livros recentes são publicados a intervalos imensos, reedições então nem são cogitadas. Por isso, muitas de suas obras ficaram paradas no tempo, sem novas tiragens, sem novas capas e sem que outras editoras se interessem por seu catálogo. A maioria de seus livros mais antigos ainda pode ser encontrada facilmente em sebos, mas outros se tornaram peças raras e sorte é de quem depara com um deles por um valor atrativo.

 Frank Pollard continuamente desperta trazendo nas mãos e nos bolsos estranhos objetos aterrorizantes... Com a ajuda da dupla de detetives Bobby e Julie Dakota ele tenta descobrir a origem dessas misteriosas fugas. Mas, à medida que os Dakota começaram a descobrir para onde se dirige o seu cliente, eles são atraídos a reinos sombrios, onde uma sinistra figura espreita.

Considerada a obra prima do autor, A Casa do Mal é daqueles livros que te causam uma impressão tão forte que permanece por longos anos. Eu o li há cerca de dez anos e pouco me recordo do enredo. Mas a sensação de medo, angústia e terror causadas pelo vilão do livro permaneceram. Lembro da extrema força física que ele tinha, da violência que ele não conseguia conter e da explicação para sua natureza monstruosa, que seria ridícula se o autor não tivesse a abordado com tanta habilidade.


O total de pessoas era trinta e uma. Desconhecidas entre si , elas estavam estavam no lugar errado, na hora errada. Viram algo que as chocou profundamente, mas que parece ter sido apagado de sua memória. Porém as fobias e que eram acometidos não os deixavam em paz e a única maneira de encontrar a cura para seu tormento era buscarem respostas.

Foi o primeiro livro que li do autor, o vi na estante da biblioteca pública e não tinha nenhuma referência do escritor, mas o enredo me conquistou e embora seja um calhamaço de mais de 700 páginas, foi uma leitura absorvente, que ao final me fez correr atrás de outros títulos. Mas mesmo assim não recomendo como primeira leitura para quem ainda não conhece nada do autor a não ser para quem curte um enfoque psicológico profundo. Quem quer um livro com mais ação, há outros mais recomendáveis. Num golpe de sorte o adquiri por cerca de R$ 25,00 há alguns meses, mas apesar de disponível em alguns sebos virtuais, o valor atualmente ultrapassa o de R$ 120,00.

No princípio havia trevas e luz, e Sam Penuel abriu os olhos em Esperança. Este mundo não conhecia a violência nem as guerras. Sam Penuel viera do nada e não tinha passado, mas sozinho, naquela Planeta, ele conhecia os meios de destruição e podia arrasar qualquer planeta indefeso. Mas... era isso o que ele queria ? Ou ele estava ali somente para salvar Esperança de uma ameaça ainda pior do que a que ele próprio representava?

Eu nem sabia da existência desse livro e o descobri enquanto procurava um outro título do autor. É uma daquelas obras cuja republicação é proibida por Dean Koontz e pelo título dá para se supor o motivo. Mas eu adoraria lê-lo mesmo sendo algo bem tosco.






Uma aventura da humanidade na era da automação absoluta. É a história do estabelecimento em definitivo da Segunda Revolução Industrial (o do consumo), quando máquinas sofisticados substituem, de maneira absoluta, o braço humano no mercado de trabalho, e os computadores descobrem que maior eficiência corresponde à exclusão do cérebro humano nos processamentos. Neste momento o lazer torna-se a única possibilidade de sobrevivência. A ditadura do video-tape é substituída por um estruturador do mundo.

Desde o início da carreira Dean Koontz já era obcecado pelos perigos do avanço tecnológico, tema que originou grandes obras de sua carreira. Mas não deve ter sido o caso desse livro, já que é outra obra cuja reedição foi vetada pelo autor. A sinopse não me despertou muita curiosidade. É um livro bastante obscuro, sobre o qual não encontrei nenhum comentário de leitores pela web. Também não encontrei nenhum exemplar do livro disponível pela internet, mas se aparecer chuto que esteja na faixa dos R$ 70,00.


Narra a história de uma jovem dotada de talentos paranormais, de um assassino psicopata que a persegue e o terror que a acompanha pelos corredores do tempo. Aos seis anos de idade, Mary Bergen foi torturada e quase morta. Ao sair do hospital, descobriu que seu encontro com a morte lhe deixou um estranho presente — a clarividência. E desde então usou seus talentos psíquicos para ajudar a polícia na solução de crimes. Mais de duas décadas depois, Mary é novamente o alvo de um maníaco homicida. E terá que empregar toda a sua coragem, ânimo e poderes paranormais para encontrá-lo... antes que ele a encontre.

Mais um livro do qual Dean se envergonha e por isso não autoriza sua reedição. Raso, com uma heroína sem graça e um suspense frouxo, o livro parece mais um rascunho do autor quando estava engatinhando na profissão. Mas por mais trash que seja, eu até que gostei. Parece mais um livro para adolescente e é aí que está o seu encanto. Encontram-se alguns exemplares na internet por valores a partir de R$ 35,00.

Fatos estranhos se sucedem na cidade de Moonlight Cove, um balneário idílico da costa norte da Califórnia, onde criaturas sobrenaturais silenciosamente deixam em seu rastro uma trilha de extrema violência. Uma série de mortes inexplicáveis ocorre naquele local aparentemente pacato, cujos habitantes parecem ser cúmplices de um segredo de proporções apocalípticas.

Esse é um dos livros mais imaginativos do autor, onde sua criatividade parece não ter limites. É uma pena que esteja tão indisponível porque é uma obra essencial para os fãs de filmes e livros de terror, já que é repleto de referências da cultura pop. O adquiri há pouquíssimo tempo e estou lendo-o no presente momento. Uma obra que tem alguns tropeços, mas que é bem conduzida por Dean. Muitas vezes ele prejudica o ritmo para se demorar em algumas questões existenciais, mas que são pertinentes ao enredo. É um livro bem reflexivo, que pode divagar um pouco, mas não perde o rumo.



Desde sua chegada a Snowfield, pequena e pacata estação de inverno, Jenny e sua jovem irmã Lisa sentiram uma impressão de calma estranha, sobrenatural. O primeiro cadáver que descobrem na casa é o de Hilda, a caseira. Logo descobrem que a cidade inteira parece ter sido morta violentamente. E enquanto procuram algum sobrevivente, oculta pelas trevas, alguma coisa as espia. 

Antes de qualquer coisa, esse livro merece uma reedição porque ninguém merece essa capa. Apesar de ter visto o filme com Ben Afleck e ter detestado, tenho muita curiosidade em ler o livro, pois ouço maravilhas sobre ele. Lendo a sinopse e as resenhas, dá para perceber que o filme desvirtuou bastante da história original e nas mãos de Koontz esse enredo deve ter ganho um aspecto bem mais assustador. Sem falar que sua construção de personagens é até covardia em relação à qualquer adaptação cinematográfica. Está indisponível nos sebos virtuais. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Com o novo romance Reckless, Tilly Bagshawe continua a rentável parceria com a família Sheldon



                                                                        Sinopse

Houve um tempo em que Tracy Whitney foi um das ladras mais competentes. Depois disso sua vida se estabilizou e, casada com o companheiro de profissão Jeff Stevens ela teve um bebê, planejando a partir de então levar uma vida anônima, se dedicando ao filho. Mas uma trágica notícia forçou Tracy a enfrentar um fato terrível. Agora, com nada mais a proteger, ela retorna à ativa e essa nova missão é mais perigosa do que nunca.
Mas Tracy não é a única mulher com um passado obscuro e perigoso. O mundo enfrenta uma nova ameaça terrorista de um grupo de hackers globais com a intenção de criar o colapso do capitalismo e da riqueza privada e a criação de uma nova ordem mundial. Quando esse grupo começa usar de violência, a misteriosa mulher responsável por manipular a organização torna-se o inimigo público número um da CIA. Apenas alguém inteligente e implacável é capaz de rastrear a terrorista: Tracy. Mas como Tracy descobre, a verdade prova que as pistas para encontrar essa criminosa são evasivas. Tendo  como obstáculos a corrupção dentro das organizações que deveriam apoiá-la e descobrindo aliados onde deveriam haver inimigos, Tracy testará os seus limites, onde ela enfrentará seus demônios mais sombrios. Mas quanto imprudente pode se tornar uma pessoa quando ela não tem mais nada a perder?

                                                                         Opinião

Mais uma vez Tilly Bagshawe ousa mexer numa das obras mais irretocáveis de Sidney Sheldon para continuar com sua rentável carreira de escritora às custas da obra do grande mestre dos bestsellers. Como já dito aqui no blog, Tilly recebeu a incumbência de concluir obras inacabadas de Sidney Sheldon, o que resultou no livro A Senhora do Jogo, continuação do clássico O Reverso da Medalha e em outros livros nos quais ela tentou, até que com algum êxito, reproduzir o estilo do autor. Porém, mais tarde, foi revelado que essa co-autoria era apenas uma força de expressão e que Tilly criava suas próprias histórias e encaixava dentro de seus textos as poucas anotações esparsas deixadas por Sidney, notas essas que faziam sentido apenas para o autor. Tilly então, com a autorização dos familiares de Sheldon, encaixou essas frases nas histórias que ela mesma criou, “formalizando” assim uma parceria. Em português claro, foi tudo uma jogada de marketing para continuar vendendo livros, foi a transformação do nome de Sidney Sheldon em uma marca, tanto que nos livros de Tilly, o nome do autor falecido aparece em grande destaque.

Enquanto Tilly escrevia esses romances a la Sheldon, isso não incomodava o público, já que era como se estivéssemos fazendo de conta que os livros eram dele, uma maneira de matar as saudades de um autor tão querido. Mas Tilly quis abusar da nossa boa vontade e resolveu trazer de volta a personagem mais emblemática de Sidney Sheldon: Tracy Witney, a heroína de Se Houver Amanhã, uma ladra que roubou o coração dos leitores. Mais detalhes sobre essa continuação nesse link. Mesmo não gostando muito do que ela estava fazendo, senti uma certa empolgação em reencontrar a diva Tracy Witney.

O livro intitulado Chasing tomorrow foi lançado nos Estados Unidos a cerca de um ano, mas não chegou ao Brasil ainda. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Tilly concluiu uma nova sequência com Tracy Witney. Ou seja, o terceiro livro. E o que é pior, descaracterizando a personagem e melando com o final deixando por Sidney Sheldon. Como ainda não li o livro, não posso afirmar se é bom ou ruim ou se ela conseguiu destruir de vez a personagem, mas apesar da sinopse mencionar seu marido Jeff Stevens, logo depois insinua que eles se separam já que diz que ela só tem o filho com quem se importar e dá a entender que algo de ruim acontece com a criança, pois diz que “Agora, com nada mais a proteger, ela retorna à caça...”
Sem falar que de uma charmosa ladra que aplicava golpes em milionários de caráter duvidoso, se transformou numa “caçadora de hackers terroristas”. Tudo bem que Tracy mandava bem na computação, mas mudar assim de ramo é um pouco forçado.

O que nos resta é aguardar primeiro o lançamento de Chasing Tomorrow no Brasil, para depois aguardarmos por Reckless e então constatar o tamanho do estrago causado por Tilly numa das obras primas de Sidney Sheldon. E pelo ritmo em que as coisas andam, é bem provável que até lá já tenhamos um quarto romance de Tracy Witney finalizado.


domingo, 9 de agosto de 2015

A Garota no Trem - Paula Hawkins

                                                         

                                                                         Sinopse

Rachel pega o mesmo trem todos os dias. Ela sabe que ele vai fazer um parada no mesmo sinal toda vez, com vista para uma fileira de quintais. Ela até começa a sentir como se conhecesse as pessoas que vivem em uma destas casas, um jovem casal. A vida deles como ela vê é perfeita. Se ao menos Rachel pudesse ser tão feliz assim. E então ela vê algo chocante. É apenas um minuto antes do trem se mover, mas é o suficiente. Poucos dias depois, ela descobre que a mulher, chamada Megan, está desaparecida. Ela então vai à polícia e conta o que viu. E acaba não apenas participando do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos.

                                                                         Resenha


A sinopse, apesar de não ser mentirosa, dá uma ideia totalmente diferente do enredo. De acordo com o que está escrito na contracapa, dá para se supor que Raquel, a protagonista, testemunha um crime enquanto viaja de trem e tenta avisar a polícia. Não é nada disso. Sem soltar spoilers, já que esses fatos que estou mencionando acontecem antes da página 70, o que ocorre é que Raquel realmente testemunha algo que lhe deixa chocada e após acontecer um crime, ela passa a ser suspeita e não uma testemunha buscando convencer a polícia do que presenciou.

As comparações com Garota Exemplar, que estão na própria capa do livro não são totalmente infundadas. O mote do livro é praticamente o mesmo, somente as perspectivas são diferentes. E é claro, a qualidade do texto de Paula não se compara ao de Gillyan. A obra é narrada sobre o ponto de vista de três mulheres, sempre em primeira pessoa. Raquel é uma heroína nada convencional. Uma bêbada, que foi mandada embora de seu trabalho após chegar no serviço embriagada e desde então perambula pela cidade para preencher seu tempo e também para fingir para a amiga com quem divide o apartamento que continua trabalhando. Seu estado físico e psicológico são lamentáveis. É alvo de deboche das pessoas, percebe isso, mas não consegue fazer nada para mudar. Sua autoestima é zero. Raquel muitas vezes me tirou do sério com suas atitudes desastrosas. A moça não dá uma dentro, tudo o que ela faz acaba se virando contra ela e isso faz com que ela fique cada vez mais emaranhada em sua autopiedade. Não consegui gostar da protagonista por um instante que fosse, até porque é difícil gostar de alguém que não gosta de si mesmo. O outro ponto de vista é de Megan, uma mulher casada, insatisfeita com o marido, que procura sexo com outros homens. Outra personagem que me irritou. Essa não sabia o que queria da vida. Tinha uma boa casa, um bom marido, uma certa estabilidade, mas lhe faltava algo que nem ela conseguia definir.  Mais tarde ela mostra que não é apenas uma mulher leviana e fútil, mas que seus problemas são mais profundos e que há um segredo aterrador em eu passado, mas mesmo assim, não consegui me simpatizar com ela. E a terceira mulher é Anna, nova esposa do ex-marido de Raquel. Uma mulher insegura, que vive com medo, cuja vida está centralizada no marido. Anna não é muito explorada no livro, os capítulos narrados por ela são poucos e geralmente está sempre reagindo à Raquel, cuja presença lhe incomoda. Ou seja, o livro carece de personagens interessantes e esse é um dos motivos por eu não ter gostado muito.

No entanto o li compulsivamente, pois a prosa é envolvente e o mistério é bastante intrigante. O livro é composto na sua maior parte de diálogos interiores. Me senti sugado pela mente dessas mulheres, procurando em suas reflexões alguma pista sobre o crime. Sentia que estava deixando passar algo, mas não conseguia definir o que era, o que só aumentava minha vontade de chegar logo no final, onde constatei que a autora não jogou sujo e realmente deixou várias pistas ao logo do caminho.

O final tem bastante emoção, alcançado um clímax vibrante. Mas, apesar dessas qualidades, não é um livro com o qual eu tenha criado empatia. Em muitos momentos o comparei com Restos Humanos, de Elizabeth Haynes, que apesar de eu ter curtido, tinha uma protagonista que não me agradou, Anabel. Tanto ela, quanto Raquel eram um poço de autopiedade. Mulheres com o ego lá embaixo, sem vaidade, sem propósito na vida, totalmente perdidas, servindo de marionete para qualquer um que quisesse manipulá-las. A Garota no Trem é um livro amargo, com uma trama bem construída, uma recriação dos modelos convencionais de heroínas, mas onde tudo é meio nublado. Pessoas infelizes, fatos obscuros e pensamentos imprecisos. Até a capa, de cores apagadas, reflete isso. Um livro com algumas qualidades, mas que não foi uma leitura das mais satisfatórias.








quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sete livros favoritos de Dean Koontz escolhidos por ele próprio

Em entrevista a Michael McCarty, publicada originalmente no livro Giants of Genre em 2003, Dean foi indagado sobre seus cinco livros favoritos. Ele mencionou então sete, ou, como ele mesmo diz, se considerar a trilogia Cristopher Snow como livros separados, 9. Segue aqui os livros mencionados e o que o autor tem a dizer sobre eles. Confesso que concordei com boa parte dos livros citados, entre eles, meu favorito: Intrusos.


" O Guardião foi o maior desafio técnico que eu já enfrentei. Considerando a natureza tremendamente complicada do elemento de viagem no tempo, eu acho que consegui me absolver o suficiente para não ficar constrangido. Mas eu também tenho um carinho especial pelo livro por causa dos personagens, por causa da trágica história de amor de Danny e Laura e a história de amor angustiada de Laura e Stefan, sendo que ambas as abordagens foram totalmente anti-comerciais, o tipo de coisa que os editores advertem-no a não fazer. Mas deu certo. E neste livro, eu comecei a usar o humor num grau explícito, o que eu nunca tinha antes me atrevido em um romance de suspense e que já se tornou um elemento  presente na maioria dos meus melhores livros."





" Para mim, escrever Intrusos foi um sonho. Durante a última metade eu estava imerso numa espécie de transe.  Isso não significa que eu estava tendo perturbações intestinais. Era um estado de fluxo psicológico, o que os atletas chamam de estar na zona. Eu gosto do livro, porque os personagens soam reais para mim e porque consegui desenvolver diversas camadas de temas e linhas metafóricas do modo mais discreto que já havia feito."


"A Casa do Mal foi uma viagem muito estranha do início ao fim, e apesar disso, leitores e críticos demonstraram que esse tipo de enredo deu certo. Isso me mostrou que qualquer coisa bizarra num romance funciona se você preparar o leitor para isso e se você triturar o tema até ele se transformar numa mero detalhe do mundo real com o qual o leitor tenha referência e assim possa digerir. Assim ele acaba aceitando o estranho como algo verossímil. E, claro, eu amei a personagem de Thomas, o menino com Síndrome de Down. Esta foi a primeira vez que eu usei uma pessoa com deficiência em um papel principal, e foi emocionante trabalhar com esse material que pra mim era fresco, lutando para criar um ponto de vista para ele que transmitisse verdade. O mundo está cheio de pessoas que nunca foram retratadas numa obra de ficção, ou pelo menos na literatura popular. Há um propósito socialmente útil em escrever sobre eles, mas há também uma enorme euforia criativa por abordar um material tão complicado."



" Eu gosto de conduzir o leitor através de surpresa após surpresa, e esta linha de história fantasiosa me atraiu. Mais uma vez, isso só funciona se os personagens convencem, e o desafio foi manter Jim como o herói carismático, mesmo estando ele envolto em mistério, escondendo elementos centrais do seu passado, e deixando a porta aberta para a possibilidade de que ele representava de alguma forma uma ameaça para Holly. E o público se envolveria mais se Holly fosse uma personagem  atraente, divertida, capaz fazer o leitor se apaixonar por ela. Dessa forma, quando ela se apaixona por Jim, você também passa a gostar dele, simplesmente porque ela gostou."


" Os caminhos escuros do coração foi difícil de escrever, devido à sua complexidade, mas eu gostei de trabalhar nele, porque foi o primeiro livro em que cada metáfora, cada símile, cada imagem funcionou. Não só na descrição, mas nos temas subjacentes da novela, embora isto não seja algo que o leitor deva ser capaz de ver no curso de uma leitura normal. Eu era capaz de integrar texto e subtexto, história e técnica, a um grau que eu nunca tinha sido capaz de fazer antes, dessa forma, escrevê-lo me manteve entretido. Como eu não sou um masoquista, eu preciso me divertir enquanto estou trabalhando e consegui isso através dos desafios desse livro."



" Eu tenho um fraco por Intensidade porque ele traz meu ponto de vista anti-freudiano à superfície, também porque foi um exercício de ritmo divertido, e porque as estruturas dos dois personagens eram um desafio. Eu sabia que a imprudência heroica, de Chyna Shepherd seria uma das características primárias que a definem, mas eu nunca antecipei alguns dos passos que ela tomou, como a história evoluiu e, por vezes, sua ousadia me deixou perplexo. Eu estava consternado, mas não surpreso quando alguns usuários disseram achar difícil acreditar em algumas ações de Chyna, porque "ninguém iria colocar a sua vida em risco por um estranho." Bem, antes de tudo, a jovem por quem Chyna arrisca sua vida é, para Chyna, a imagem de si mesma como uma criança indefesa. Ninguém jamais esteve ao lado de Chyna quando ela estava crescendo sob circunstância terríveis, e ela construiu uma vida nova e decente para si mesma, se esforçando para ser tudo o que sua mãe não era. Isso significa viver de forma responsável, tanto a nível público e privado. Na primeira vez, Chyna só quer sair do alcance do assassino em casa e ela o faz. Mas na cena da estação de serviço, ela vê uma foto da jovem que Vess está mantendo presa, e naquela foto ela se vê como uma menina; não é apenas um estranho que Chyna está tentando salvar. . . ela está tentando se salvar. De qualquer forma, quando um leitor diz que ninguém iria arriscar sua vida por um desconhecido, ele na verdade está nos dizendo que ele próprio não o faria, portanto, não pode compreender qualquer um que aja dessa maneira e, assim revela uma verdade desagradável sobre si mesmo. Na semana que eu tinha que sair e fazer entrevistas para divulgação de Intensidade, o ator Mark Harmon arriscou sua vida para tirar dois completos estranhos de um carro em chamas. A mídia fez um estardalhaço do incidente e eu fiquei também impressionado! Mas eu comentei que somos uma cultura cínica, pois a única vez que um ato heroico é notícia nacional é quando se trata de celebridades; Ainda todos os dias, em todo o país, as pessoas fazem o que Mark Harmon fez e são congratulados por isso só a nível local, se tanto."

Não publicado no Brasil

" Eu recusei ceder os direitos da trilogia Cristopher Snow para filmagem porque eles estão muito próximos a mim ainda e eu não posso suportar vê-los sendo estragados. Além disso o maior problema na adaptação desses livros para o cinema está no fato de que o ponto de vista em primeira pessoa não pode ser recriado e esse ponto de vista é crucial para o sucesso da história. Em segundo lugar, tudo acontece à noite e diretores de cinema odeiam limitações extremas e preferem histórias que eles possam expandir em várias locações e condições de luz. Além disso, locações noturnas custam muito caro. Em toda a minha carreira disseram que eu tento simplificar, simplificar e quanto mais eu simplificar, maior será a bilheteria. E eu sempre interpretei isso como um mode de dizer que eu escrevo o livro já planejando uma adaptação, o que não é verdade."

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Peão - Steven James

                                                                   
                                                                           Sinopse

Com uma inteligência acima da média, o agente especial do FBI Patrick Bowers chega, nessa série, ao limite de suas capacidades, enfrentando criminosos cada vez mais habilidosos. Trazido da Carolina do Norte para ajudar no caso de um serial killer, ele  se vê no meio de um jogo ardiloso contra um astuto criminoso que está sempre um passo à frente da lei. Bowers vai ter que usar todos os seus instintos, habilidades e suas modernas e controversas técnicas de criminologia ambiental para deter o homem que se autodenomina o Ilusionista.
                                                                       
                                                                          Resenha


Passei a me interessar pelo trabalho de Steven James através do blog S2 Ler e até então não sabia que ele escrevia livros policiais, mas ele o faz e muito bem. O peão é o primeiro volume da série os Arquivos de Bower, mas é um livro independente. A história tem uma conclusão, mas deixa as portas abertas para sequências.

Patrick Bower é um especialista em criminologia ambiental. Ele estuda o cenário do crime e dali cria suas teorias para saber como o criminoso pensa, age e se motiva. Não conhecia essa especialidade. Mas as singularidades do personagem não param por aí. Patrick é um dos detetives mais humanizados que já conheci. Suas passagens são narradas na primeira pessoa, o que ajuda a se estabelecer um vínculo com o leitor, mas não é só isso. Ele é um profissional infalível, mas nas relações pessoais é um completo desastre. Ele é muito desajeitado ao se aproximar das pessoas. Suas investidas românticas com uma de suas parceiras de investigação, a chinesa Lien-hua, são cômicas. O cara só dá foras. E em sua complicada relação com a enteada Tessa a coisa é ainda mais difícil. Por mais que ele se esforce para conquistar a amizade da garota, acaba por afastá-la ainda mais.

O enredo começa como uma típica história de serial killer, sem nada de especial. Porém, a trama vai ganhando contornos imprevisíveis. Além da narrativa em primeira pessoa temos diversos outros pontos de vista em terceira pessoa, o que torna faz a leitura render. Além disso os capítulos são curtos e há muita ação. Há bastante espaço para os problemas pessoais de Patrick, mas isso não empata a leitura. São descansos até bem vindos, pois a trama tem muitos desdobramentos que fariam o leitor se perder caso não houvesse um descanso. Até porque a escrita de Steven é ágil demais. O cara não chega a ser superficial, achei sua narrativa bem consistente, mas ele é um escritor que não perde tempo e em alguns pontos é necessária uma explicação mais detalhada, nem tanto para compreender, mas para dar mais atmosfera ao livro.

Isso porque o que começa como a caçada a um assassino em série, leva os agentes a um outro crime, ligado a uma tragédia real: o massacre de Jonestown em 1978. Nesse ponto, ficção e realidade se misturam e o autor o faz de maneira muito cuidadosa. Sem querer ter a pretensão de levantar teorias levianas, ele insere um acontecimento fictício dentro desse contexto, mas sem ligar diretamente nenhum  personagem real a essa história. Aliás, na ficha técnica do livro há um adendo de Steven explicando que apesar de haver alguns acontecimentos reais em seu livro, a parte fictícia foi criada com todo o respeito pelas vítimas, sem o intuito de desonrar ninguém. Mas voltando ao assassino, ele se denomina O Ilusionista, e faz jus a essa alcunha. Ele engana Patrick a todo instante, desviando sua atenção enquanto planeja seus próximos crimes. É um vilão assustador, que parece adivinhar cada passo de seu rival, o que me deixava com uma raiva que só me fazia correr as páginas para ver a hora em que ele ia levar a pior. Adoro quando um personagem me tira da impassibilidade e me faz vibrar durante a leitura.

O Peão é a estreia promissora de uma série, com diversos elementos. Um assassino cruel, passagens chocantes, muita adrenalina, terrorismo biológico e um final eletrizante. Uma série que vou acompanhar com assiduidade. Mais um escritor que me ganhou e um protagonista que entrou para a minha galeria de preferidos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Intrusos - Dean R. Koontz (Autor do mês)

                                       
O autor homenageado do mês é um dos mestres do terror e suspense, responsável por verdadeiros clássicos que arrebanharam uma geração de leitores. Dean Koontz começou a entrar em evidência nos anos 70, quando os livros de terror eram uma febre e, assim como seu contemporâneo Stephen King, conquistou uma legião de fãs fiéis que o acompanham até hoje. É um dos poucos autores de terror da década de 70 que sobreviveram. Continua sendo um campeão de vendas, embora a partir do início da década de 90 tenha seguido o caminho do suspense. Em agosto, ele será presença constante no blog, em resenhas, matérias especiais, entrevistas e sendo assunto para nossas listas. E pra começar em grande estilo, vamos falar de uma de suas obras mais emblemáticas: Intrusos.




                                                                Sinopse 

Não olhe para trás. Alguém perigoso pode estar seguindo seus passos, vigiando você...

Pode ser um homem normal compelido a cometer um gesto desesperado...

Pode ser um adorável cachorro vira-latas que não é o que parece...

Pode ser um assassino profissional, acostumado a inflingir as maiores atrocidades...

Pode ser uma linda mulher com um passado de crimes e violência...

Pode ser uma criatura estranha, resultado de um desvio genético...

De um lado estão as vítimas inocentes. Do outro, os intrusos.

Um cão foge de um laboratório junto de uma outra criatura cheia de ódio que o persegue, mas o perde de vista durante o caminho. Enquanto esse ser exala maldade, o cachorro é apenas amor e ao cruzar seu caminho com o de um viúvo solitário e o de uma mulher desiludida, a esperança de uma vida feliz para os três é vislumbrada. Porém, esse animal esconde perigosos segredos que pode colocar a vida dessa nova família em risco.  

                                                                    Resenha

Esse livro foi um caso de amor. Pelo enredo, pelo texto e principalmente pelos personagens. A começar por Einstein, o único cão que é tão inteligente quanto amoroso. Seu caminho se cruza ao de Travis, um homem solitário, que carrega feridas emocionais desde a infância, e a relação entre os dois é uma edificante lição de amizade. A maneira como eles se conhecem, se afeiçoam e o modo como Travis vai descobrindo que há algo de especial com aquele cão perdido assim como cria um encanto, vai aguçando nossa curiosidade, já que sabemos sobre Einstein quase o tanto quanto seu novo dono. O cão dá um novo sentido à vida do viúvo e quando Travis conhece Norma, Einstein é responsável por consolidar o laço que os une.  

Norma é uma solteirona reprimida, sem nenhuma autoestima, que tem medo do mundo e se isola na casa em que vivia om sua tia e ao conhecer Einstein tem sua rotina totalmente alterada, tanto pelo animal como pelo seu dono, descobrindo através do contato com eles que sua vida está apenas começando. 

Outros personagens vão surgindo em capítulos paralelos. Vince Nasco, um assassino com delírios de grandeza, que me despertou um certo fascínio inicial, porém no decorrer da trama suas passagens tornaram-se repetitivas e o personagem ficou caricato. Lemuel Johnson, que também contribuiu muito à história, com sua lealdade profissional entrando em conflito com a lealdade por um grande amigo e com suas próprias convicções éticas. E o Monstro, responsável pela aura de medo que permeia as páginas e pelos momentos mais aterrorizantes da história. Sempre que ele surgia, me dava um calafrio como há muito eu não sentia lendo um livro. Apesar da história inverossímil, Dean torna essa obra convincente pela solidez de seus personagens. São todos muito bem estruturados, cada um com seu dilema, defendendo suas verdades e enfrentando batalhas capítulo a capítulo. 

Contudo, a história alcança seu clímax mais de cem páginas antes do livro terminar e o que acontece depois torna a leitura um tanto maçante. Há emoções até a última página, mas Dean deveria ter antecipado alguns acontecimentos e deixar o grande momento para o final. Porém, de modo algum isso torna questionável a qualidade do livro. 

Uma curiosidade: no episódio Krypto, O supercão, da 4ª  temporada da série Smallville há uma intertextualidade com Intrusos, já que o cão do episódio é também um prodígio e tem o nome de Einstein. É claro que Krypto surgiu muito antes do livro de Dean, mas a maneira como a sua história é recontada na série, deixa óbvia a influência do livro. É muito bacana quando se encontram essas referências ligando obras de diferentes mídias, épocas e até mesmo públicos.

domingo, 2 de agosto de 2015

Sete mortes inaceitáveis da literatura

Há personagens aos quais nos apegamos tanto que sua morte nos faz chorar, lamentar e até jogar o livro longe. Excepcionalmente não anunciarei o nome dos personagens no subtítulo, para evitar SPOILERS. Pois o que não falta nessa matéria são SPOILERS. Portanto, quem não leu algum dos livros mencionados, recomendo que pule seu respectivo texto. Porém, a maioria é sobre obras bem conhecidas, que, inclusive, ganharam adaptações cinematográficas. SPOILERS, SPOILERS, SPOILERS.


Não foi uma morte surpreendente, porque ele já estava no corredor da morte. Mas que eu torci para que John fosse salvo de última hora, isso eu torci. Como pode uma alma tão pura sofrer tantas injustiças? Um homem sensível, num grau de desenvolvimento espiritual tão elevado, que soube enfrentar um martírio com dignidade. Um gigante com alma de criança que conquistou o coração de seus próprios algozes. Meu consolo é que ele era tão evoluído, que deve ter surfado sobre seu próprio sofrimento.




De todos os livros que li na vida, Hassan foi o personagem por quem mais sofri. Sua lealdade, devoção e inesgotável resignação me tocaram fundo, fazendo com que a leitura de O Caçador de Pipas fosse um rio de lágrimas. Odiei Amir por ser tão mesquinho, tão pequeno diante de uma amizade tão grandiosa. Mas torcia por sua redenção. Torcia para que ele pedisse perdão a Hassan quando se reencontrassem. Mas isso não aconteceu. Ele se redimiu, mas não a forma como eu esperava e não consigo aceitar a morte de Hassan, principalmente por ter sido tão estúpida. Como um cão de guarda, defendeu a propriedade de seu amigo até o fim e pagou com sua vida por sua fidelidade.


Sidney Sheldon disse uma vez numa entrevista que recebeu inúmeras cartas de fãs raivosas pelo fato dele ter cometido a desumanidade de matar uma criança em um de seus livros mais famosos. E a maneira que encontrou para se redimir da morte de Joshua, foi mantê-lo vivo na adaptação da obra que fez para a TV. Porém, pra mim isso não mudou nada. Não adiantou manter o garoto vivo num mundo paralelo. Mas reconheço que a morte do filho de Jennifer Parker, além de outros fatos tristes que aconteceram com ela, foi o que tornou o livro tão marcante. Às vezes é preciso sacrificar um personagem amado para que a obra se torna um clássico.



A morte  de Stark foi necessária, eu concordo, mas precisava acontecer tão cedo e de forma tão traumática? Precisava, claro, mas isso não significa que eu não tenha ficado sem palavras. Realmente não esperava que ele partisse logo no início da saga, mas depois disso o livro teve diversos desdobramentos e a trama se movimentou. Pois até então Game of Thrones era apenas uma história sobre gente indo para algum lugar. Mas o pouco que conheci do honrado Stark me fez ter vontade de conhecê-lo mais. Um livro contando sua história viria bem a calhar como forma de consolo.



Agatha Christhie deveria ter nos poupado da tristeza de ver Hercule Poitot, o detetive mais irresistível da literatura policial partir desse mundo. Não havia necessidade de dar um desfecho pra sua emocionante vida e sua venturosa carreira e nos expor a dor de vê-lo se despedir, concluindo uma história que fez parte de minha adolescência e me fez  me apaixonar por esse gênero. Posso dizer que Hercule Poirot foi o primeiro personagem por quem me apaixonei e me despedir dele foi difícil. Preferia que Cai o Pano nunca houvesse sido escrito e que sua história não tivesse um desfecho e sim, ficasse eternamente orbitando no limbo da literatura. Apesar de ser uma obra notável e contar com um assassino dos mais inusitados, não pretendo reler esse livro. Pra que sofrer de novo, né?


O livro começa com o enterro de Danny Fisher, já antecipando que ele morre no final. Mas no começo ninguém tinha ideia de que ele fosse um personagem tão rico, sofrido e apaixonante. Não dá para não amar o lutador Danny Fisher. Lutador de boxe e lutador na vida. Um cara que errou, e muito, que se perdeu, se reencontrou, foi ao fundo do poço e deu a volta por cima e nos conquistou pelo fato de ser tão humano. Todo mundo deve ter conhecido alguém como Danny Fisher e é isso o que aproximou o personagem dos leitores e tornou tão dolorosa para nós a sua morte.




No caso de Gus, não é que a morte em si seja inaceitável, afinal desde o começo sabíamos que ele tinha câncer, mas a maneira como ele morreu, envolto em tanto sofrimento. Um cara que reagiu à doença, que se atreveu a tentar ser feliz nos últimos momentos que lhe restava e que trouxe tanta luz para a vida de Hazel, merecia uma morte mais serena. Sei que ficção tem de ter dor, conflito, tristeza, mas nesse caso foi uma agonia acompanhar seus momentos finais. Foi uma morte emblemática, mas John deveria poupá-lo um tantinho.