domingo, 2 de agosto de 2015

Sete mortes inaceitáveis da literatura

Há personagens aos quais nos apegamos tanto que sua morte nos faz chorar, lamentar e até jogar o livro longe. Excepcionalmente não anunciarei o nome dos personagens no subtítulo, para evitar SPOILERS. Pois o que não falta nessa matéria são SPOILERS. Portanto, quem não leu algum dos livros mencionados, recomendo que pule seu respectivo texto. Porém, a maioria é sobre obras bem conhecidas, que, inclusive, ganharam adaptações cinematográficas. SPOILERS, SPOILERS, SPOILERS.


Não foi uma morte surpreendente, porque ele já estava no corredor da morte. Mas que eu torci para que John fosse salvo de última hora, isso eu torci. Como pode uma alma tão pura sofrer tantas injustiças? Um homem sensível, num grau de desenvolvimento espiritual tão elevado, que soube enfrentar um martírio com dignidade. Um gigante com alma de criança que conquistou o coração de seus próprios algozes. Meu consolo é que ele era tão evoluído, que deve ter surfado sobre seu próprio sofrimento.




De todos os livros que li na vida, Hassan foi o personagem por quem mais sofri. Sua lealdade, devoção e inesgotável resignação me tocaram fundo, fazendo com que a leitura de O Caçador de Pipas fosse um rio de lágrimas. Odiei Amir por ser tão mesquinho, tão pequeno diante de uma amizade tão grandiosa. Mas torcia por sua redenção. Torcia para que ele pedisse perdão a Hassan quando se reencontrassem. Mas isso não aconteceu. Ele se redimiu, mas não a forma como eu esperava e não consigo aceitar a morte de Hassan, principalmente por ter sido tão estúpida. Como um cão de guarda, defendeu a propriedade de seu amigo até o fim e pagou com sua vida por sua fidelidade.


Sidney Sheldon disse uma vez numa entrevista que recebeu inúmeras cartas de fãs raivosas pelo fato dele ter cometido a desumanidade de matar uma criança em um de seus livros mais famosos. E a maneira que encontrou para se redimir da morte de Joshua, foi mantê-lo vivo na adaptação da obra que fez para a TV. Porém, pra mim isso não mudou nada. Não adiantou manter o garoto vivo num mundo paralelo. Mas reconheço que a morte do filho de Jennifer Parker, além de outros fatos tristes que aconteceram com ela, foi o que tornou o livro tão marcante. Às vezes é preciso sacrificar um personagem amado para que a obra se torna um clássico.



A morte  de Stark foi necessária, eu concordo, mas precisava acontecer tão cedo e de forma tão traumática? Precisava, claro, mas isso não significa que eu não tenha ficado sem palavras. Realmente não esperava que ele partisse logo no início da saga, mas depois disso o livro teve diversos desdobramentos e a trama se movimentou. Pois até então Game of Thrones era apenas uma história sobre gente indo para algum lugar. Mas o pouco que conheci do honrado Stark me fez ter vontade de conhecê-lo mais. Um livro contando sua história viria bem a calhar como forma de consolo.



Agatha Christhie deveria ter nos poupado da tristeza de ver Hercule Poitot, o detetive mais irresistível da literatura policial partir desse mundo. Não havia necessidade de dar um desfecho pra sua emocionante vida e sua venturosa carreira e nos expor a dor de vê-lo se despedir, concluindo uma história que fez parte de minha adolescência e me fez  me apaixonar por esse gênero. Posso dizer que Hercule Poirot foi o primeiro personagem por quem me apaixonei e me despedir dele foi difícil. Preferia que Cai o Pano nunca houvesse sido escrito e que sua história não tivesse um desfecho e sim, ficasse eternamente orbitando no limbo da literatura. Apesar de ser uma obra notável e contar com um assassino dos mais inusitados, não pretendo reler esse livro. Pra que sofrer de novo, né?


O livro começa com o enterro de Danny Fisher, já antecipando que ele morre no final. Mas no começo ninguém tinha ideia de que ele fosse um personagem tão rico, sofrido e apaixonante. Não dá para não amar o lutador Danny Fisher. Lutador de boxe e lutador na vida. Um cara que errou, e muito, que se perdeu, se reencontrou, foi ao fundo do poço e deu a volta por cima e nos conquistou pelo fato de ser tão humano. Todo mundo deve ter conhecido alguém como Danny Fisher e é isso o que aproximou o personagem dos leitores e tornou tão dolorosa para nós a sua morte.




No caso de Gus, não é que a morte em si seja inaceitável, afinal desde o começo sabíamos que ele tinha câncer, mas a maneira como ele morreu, envolto em tanto sofrimento. Um cara que reagiu à doença, que se atreveu a tentar ser feliz nos últimos momentos que lhe restava e que trouxe tanta luz para a vida de Hazel, merecia uma morte mais serena. Sei que ficção tem de ter dor, conflito, tristeza, mas nesse caso foi uma agonia acompanhar seus momentos finais. Foi uma morte emblemática, mas John deveria poupá-lo um tantinho.

7 comentários:

  1. Ronaldo, concordo totalmente com você que a morte do Stark foi prematura, e sabe que eu não tinha pensado em um livro focado nele ? Que brilhante ideia você me deu ! Vamos começar a importunar o George Martin rsrsrsrsrrsrs A Espera de Um Milagre, A Ira dos Anjos e Cai o Pano eu tenho e ainda não li. Tomara que a morte em Cai o Pano não seja quem estou pensando ! Ps: Os livros que eu ainda não li, pulei o texto como você orientou ! hehe

    bomlivro1811.blogspot.com.br

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    1. Saber um pouco mais sobre o Stark seria muito bom.

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  2. Acho A Espera de um Milagre um dos livros mais lindos que já li, simplesmente é impossível chegar no maldito final de olhos secos. Muito tempo depois da leitura que eu fui entender e perdoar Stephen King por essa morte, na verdade John Coffey é uma metáfora para Jesus Cristo, note que ambos tem as mesmas iniciais JC. King fez Coffey morrer em prol dos outros, mesmo ajudando as pessoas sua morte é inevitável e a própria cadeira elétrica funciona como uma espécie de crucificação moderna. Li uma resenha de um expert em King que dizia que o livro é uma alusão a vinda de Cristo, e se ao contrário do que pensamos Jesus ao invés de voltar com toda a pompa que imaginamos já retornou diversas vezes icógnito sempre se sacrificando por nós?

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    1. Eu não tinha pensado nisso Rafa. Faz todo o sentido !

      bomlivro1811.blogspot.com.br




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    2. Eu não tinha feito essa conexão, Rafa, mas faz todo o sentido.

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  3. Achei ótimo seu post, não li todos os livros mas a morte que mais partiu meu coração e me tocou profundamente também foi a de John na obra de Stephen King... Eu também esperava que os milagres partidos dele pudessem também salvá-lo de alguma forma.

    Abraço!

    http://eventualobradeficcao.blogspot.com.br/

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