domingo, 30 de agosto de 2015

Colega de Quarto - Victor Bonini

                                                                   
                                                                    Sinopse

Devido a um curso universitário, o jovem Eric Schatz se mudou para São Paulo e, vivendo sozinho no suntuoso apartamento comprado por seus pais, começa a perceber indícios de que há mais alguém habitando o local. No início são pequenos indícios, como um par de chinelos desconhecidos. Logo, encontra outra escova de dentes no banheiro, o micro-ondas é ligado sozinho e barulhos estranhos são ouvidos a qualquer hora. Até que numa certa noite, Eric enxerga o vulto do colega de quarto entrar em seu apartamento pela porta da frente. Desesperado, o rapaz procura um detetive particular, mas parece ser tarde demais. Em menos de 24 horas, tudo acontece de modo acelerado e depois de uma ligação aflita ao detetive, Eric despenca da janela do seu apartamento.



                                                                      Resenha

Quem seria esse colega de quarto? O fruto do delírio de uma mente perturbada? Alguém tentando enlouquecer o morador do apartamento? Uma presença sobrenatural? É plantando essas dúvidas em nossa mente que Victor dá início a esse excelente romance policial contemporâneo. O livro já começa intrigante e muito movimentado. Em poucas páginas conhecemos o atormentado Eric, os estranhos acontecimentos que passam a tumultuar sua rotina, somos apresentados ao advogado/detetive Conrado Bardelli e um chocante acontecimento une a história desses dois personagens.

Victor tem como uma de suas principais características o raro dom de ser minucioso e ao mesmo tempo preciso em suas descrições, criando com eficiência as ambientações, mas sem diminuir o ritmo da narrativa. Além disso, o autor tem uma incrível capacidade de fazer com que o cenário fale pelos personagens. A descrição dos aparelhos eletrônicos em um apartamento deixa claro o nível social de quem mora ali, a perplexidade da empregada em encontrar tudo limpo, demonstra os hábitos do proprietário. Sem falar que em uma cena o detetive faz uma análise da rotina de um personagem observando o estado de seu jardim. Achei sensacional. Muito Sherlock Holmes.

Por falar em detetive, Victor nos presenteia com um dos mais carismáticos investigadores particulares com quem me deparei nos últimos tempos. Conrado Bardelli, um advogado que vive às voltas com casos de divórcios, mas cujo talento mesmo é o de detetive particular. Tem uma inteligência ágil, um humor irônico, uma capacidade impressionante de analisar provas físicas e um talento excepcional de fazer análises psicológicas conforme interroga suas testemunhas, algo meio Alex Delaware. E se Poitot tem seu indefectível bigode, Bardelli ostenta sua imensa e revolta barba. Mas apesar das similaridades com detetives famosos, Conrado tem características próprias. É um personagem que passa uma grande leveza, principalmente quando está ao lado do delegado Wilson, seu contraponto. Enquanto Wilson é uma montanha de músculos, tem uma postura rígida, um senso de humor limitado e uma paciência mais limitada ainda, Conrado é desleixado com a aparência, é sutil em suas abordagens com as testemunhas e vê humor nas situações mais controversas.

Como em todo bom livro policial, à cada capítulo surgem revelações intrigantes, que tornam o enigma mais complicado e aumentam o desafio de Conrado (e o nosso) tornando a leitura contagiante. A história tem muitos desdobramentos e o que parecia um caso de suicídio, vai tomando proporções cada vez mais amplas. E mesmo havendo muitos personagens e núcleos, mesmo havendo reviravoltas e situações aparentemente paralelas, o autor não perde a rédea, não divaga, mantendo o foco do livro. Sem falar que a trama é permeada de personagens pitorescos. Todos eles têm uma peculiaridade, seja física ou psicológica, que os torna marcantes e sublinham algum traço de sua personalidade ou de seu comportamento. O porteiro com seu risinho maldoso, o roqueiro cabeludo, a empresária com um penteado impecável, o síndico afeminado. Ao contrário de alguns romances policiais aonde a quantidade de testemunhas chega a confundir o leitor, que não consegue mais discernir quem é quem, no livro de Victor distinguimos claramente cada personagem devido a esse seu cuidado na composição de cada um deles. Além disso, cada personagem, seja ele uma testemunha direta ou indireta, tem uma função definida na história e não estão ali apenas para distrair a atenção do leitor.

Quanto à conclusão, o que posso adiantar é que achei muito engenhosa e honesta com o público. Victor não joga sujo e nos deixa várias pistas. Confesso que deixei passar muitas delas na hora, mas durante a elucidação feita pelo detetive identifiquei todas e dei o costumeiro tapa na testa.

Não posso deixar de ressaltar os pontos negativos. Logo no início Conrado conclui que Eric é um playboy devido às marcas das roupas que ele usa, porém, o autor não as menciona. Não se trata de fazer propaganda, mas de trazer o livro para o mundo real. Sempre há uma identificação quando são citados marcas de produtos e nomes de estabelecimentos.  Mais adiante ele até menciona a marca do uísque Jack Daniels, mas nessa cena em especial, logo no início, senti falta desse detalhe. Quanto à revisão só achei um erro, na página 146, com a palavra expectativa, grafada incorretamente. Nada que não se possa corrigir facilmente na próxima edição. Também não compreendi porque a polícia não recorreu às câmeras de segurança no primeiro incidente ocorrido no prédio. E a explicação a respeito de um episódio envolvendo Eric, seu pai e seu amigo Dênis, na saída da clínica psicológica, não foi satisfatória pra mim. Achei a solução referente a essa parte do mistério bastante confusa e, sinceramente, não consegui entender os esclarecimento referente à confusão que houve entre esses três personagens.

Mas todos os momentos deliciosos que o livro me proporcionou fazem com que eu releve esses detalhes, nada disso desqualifica a obra. Victor cria algumas metáforas impressionantes, sempre fugindo ao óbvio. Sabem aquele livro cheio de imagens batidas, como “acertou com precisão cirúrgica”? Isso você não encontra aqui. Nota-se que Victor se esforçou em criar figuras originais simples e assertivas como a seguinte: “Quem recebeu os dois no portão era dotado de uma silhueta esguia que, contra a luz que vinha de dentro, rebolava feito uma cobra ao caminhar.” O livro tem um humor ingênuo, mas pertinente, um ritmo veloz, que te leva na garupa, lhe fazendo ansiar por respostas, situações muito bem elaboradas e uma sugestão de um elemento sobrenatural que cria algumas cenas arrepiantes na reta final, que nos deixa oscilando entre a ânsia por uma resposta racional, mas atordoados com a possibilidade de que realmente há um "colega de quarto" no apartamento de Eric. Mesmo com esse diferencial, o livro é um policial nos moldes clássicos, mas com uma identidade brasileira. Diversão do início ao fim. Espero que seja o primeiro de uma longa série e que Conrado se consolide ao lado de outros detetives nacionais como Spinoza, Mandrake e Bellini.

7 comentários:

  1. Eu já tinha visto esse livro e tive vontade de ler. Com sua resenha, com certeza ele vai para lista de leituras futuras :)

    www.primeiroscapitulos.blogspot.com.br

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  2. Eu já estava namorando esse livro e em breve o terei em mãos!
    Resenha muito bem escrita como acredito que o livro tb o seja!
    Abs
    Raquel

    www.letrascomcafeina.com.br

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  3. Adoro esse tipo de suspense. Se tiver um bom detetive, melhor ainda!
    Fiquei curiosa para ler.

    www.meuslivrosesonhos.blogpsot.com.br

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  4. Comecei lê-lo, assim que finalizei O Vilarejo, de Raphael Montes. Como leitor, estou tentando me situar neste ambiente com aspecto americano ou inglês made in Rio de Janeiro. O começo não me persuadiu, mas creio que no transcurso da leitura tudo ficará mais explanado.

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    1. Achei muito legal o autor manter as características dos romances policiais estrangeiros, mas não perder a identidade brasileira, acredito que com o decorrer da leitura você vai curtir.

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  5. [POSSÍVEIS SPOILER. SPOILER SPOILER.]








    Sobre as duas brechas expostas na resenha: O caso só foi dado como assassinato no final do livro, até então, não havia motivo para verificação das cameras de segurança, que posteriormente foram destruídas. Lembre também que Lyra atuava por debaixo dos panos, sendo encoberto por Wilson o tempo todo.
    Já em referencia á problemática entre Denis, Eric e o pai dele, acredito que a ideia era que os assassinos tentaram despistar Lyra. Lembre-se da falha de Armando ao nomear Denis como o pai de Eric mais cedo. Pra corrigir esse erro, o psicologo e sua cúmplice tentaram desviar a atenção de Bardelli, criando uma espécie de cumplicidade entre Denis e Eric, na qual Eric usava Denis pra se passar por seu pai, reforçando assim a frase que ele supostamente tinha dito mais cedo.

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    1. Mas foi tudo explicado de modo muito corrido. De qualquer forma, foram poucos tropeços. O livro é ótimo.

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