domingo, 5 de julho de 2015

Benefício na Morte - Robin Cook

                                                               
                                          

                                                                         Sinopse

Pia Grazdani é uma estudante de medicina de temperamento reservado. Em colaboração com o geneticista molecular Dr. Tobias Rothman, da Universidade Columbia, ela trabalha na pesquisa que tenta criar órgãos de reposição para pacientes crônicos, o que poderia revolucionar a saúde pública. Através desse estudo, Pia espera ajudar milhões de pessoas. Porém, quando o laboratório vira palco de uma tragédia, Pia se vê obrigada a interromper suas pesquisas e começa a investigar, com a ajuda de um colega de turma, o que teria causado o desastre no laboratório de biossegurança. Enquanto isso, dois gênios de Wall Street pensam ter achado mais uma mina de ouro na multimilionária indústria de seguros de vida, manipulando dados atuariais para se apropriar de apólices de seguro de vida de idosos e doentes crônicos – uma fonte potencial de fortunas incalculáveis. Quando Pia e George investigam mais a fundo, uma pergunta começa a rondá-los: será que alguém estaria usando informações de seguros de vida particulares para permitir que investidores se beneficiem da morte de terceiros?

                                                                        Resenha

Pia é muito bem construída, talvez uma das mais bem trabalhadas personagens de Robin Cook. Diferente do que ocorre na maioria de seus livros ele interrompe a história principal por diversas vezes para traçar a biografia da jovem. De origem albanesa, a estudante de medicina passou por mais bocados em sua vida e isso é bem explorado e também pertinente ao enredo. Isso, porque Pia é uma mulher indiferente, apática, nada querida por seus colegas de trabalho e sem o menor interesse em mudar a imagem que fazem dela. Porém, mesmo conhecendo seu traumático passado, não consegui justificar o comportamento de Pia. Linda de doer, ela vive sendo cortejada pelos homens em seu ambiente de trabalho, mas tem uma espécie de relacionamento de sexo e amizade com George, um estudante que a cumula de atenções. Porém ela retribui tratando-o com frieza, grosseria e recorrendo a ele somente quando precisa de sua ajuda em suas investigações ou quando quer sexo. Ela o usa descaradamente, comportamento que, se fosse num personagem masculino, seria visto de modo pejorativo. Se fosse um homem que usasse uma amiga completamente apaixonada por ele para tirá-lo de enrascadas e satisfazer suas necessidades físicas, certamente seria taxado como machista, egoísta, cafajeste e daí pra baixo. Porém, acho que independente do sexo e do histórico de vida da pessoa, tal conduta é reprovável.  George também me irritou com sua passividade. Ele corre atrás de Pia como um cachorrinho, servindo de marionete e aguentando os rompantes da quase namorada.

O livro trata de dois temas principais: células-tronco e a política por trás dos seguros de vida. Robin Cook dá uma explicação minuciosa sobre o desenvolvimento das células tronco, fundindo nossos neurônios com detalhes científicos e termos médicos, para logo depois simplificar tudo esclarecendo o que realmente importa na trama: as células-tronco são a base na criação de órgãos para transplantes. E a “fabricação” desses órgãos representa a cura de diversas doenças, como a diabetes, por exemplo. Basta substituir o pâncreas.  Quanto aos seguros de vida, Cook nos lança no meio de diversas intrigas no mundo dos negócios, nos afogando em dados confusos, para logo depois revelar que seus personagens ganham a vida comprando o seguro de vida de pessoas idosas e ficando com o prêmio quando elas morrem. Um negócio perfeitamente lícito. O proprietário do seguro não consegue arcar com a mensalidade, tem como prioridade pagar seu plano de saúde e então os executivos garantem o pagamento de seu convênio e compram o seguro de vida, pagando as prestações e ficando com o prêmio. Embora as explicações minuciosas de Robin Cook pareçam desnecessárias, ele passa credibilidade ao mostrar que sabe do que está falando, tanto em assuntos médicos, quanto no ramo dos negócios. Tanto que logo depois, ele explica tudo em linguagem de gente comum.

A trama então é dividida entre esses dois ambientes. O centro médico, onde estão sendo feitas as experiências para a reprodução de órgãos e o mundo dos executivos, que serão prejudicados com esse avanço na ciência. Dr. Rothman, um verdadeiro gênio, dono de um temperamento excêntrico , é o responsável por esses experimentos e está a um passo de alcançar o êxito, e é aí que o trama tem uma reviravolta.
O que não gostei foi o fato de Robin Cook revelar logo no início quem são os culpados pelos atos criminosos que acontecerão na segunda parte do livro. Assim que as coisas começam a esquentar, os personagens do núcleo  executivo desaparecem por mais de cem páginas, e não fazem a menor falta. Então por que cargas d’água Robin nos apresentou esses pessoal e revelou seus motivos para sabotarem as experiências de Rothman? A história ficaria muito mais intrigante se houvesse mistério, mas não há nenhum. O que vem sendo a tendência de Robin Cook em seus últimos livros.
Com a saída dos engomadinhos do nosso caminho assim que um chocante crime acontece, o livro toma ritmo e então comecei  a reconhecer o velho Robin Cook. A ação fica centralizada no hospital, cenário usual de seus livros mais antigos, e as situações críticas começam a se suceder. Acompanhamos a investigação de Pia, as dificuldades e perigos pelos quais ela passa, até que  sua busca por respostas nos leva reencontrar dois personagens muito queridos da obra de Cook: o casal Laurie e Jack Montgomery. Fazemos algumas breves visitas ao OCME, o necrotério onde eles trabalham, trombando com vários personagens familiares. Adoro esse casal e achei muito oportuna sua participação.

Apesar de Benefício na Morte ser um bom livro, não é o thriller típico de fãs de Robin Cook. Quando achávamos que o autor fosse continuar lançando mais do mesmo, ele se renovou, escrevendo sobre a máfia, sobre negociatas, sobre assuntos jurídicos e dando um espaço menor aos temas médicos, mesmo sendo este ainda o mote de seus livros. O que sinto muita falta em suas obras é aquele medo que espreitava pelos corredores dos hospitais, descrições vivas da tensão que há na execução de uma cirurgia e a exploração de nossos temores ao descrever o pavor dos pacientes diante dessas  situações, vulneráveis nas mãos de desconhecidos. Os diálogos interiores que os personagens mantinham pouco antes de se submeterem a uma operação eram a verdadeira voz do horror médico e isso não existe mais em seus livros. É um autor que não se acomodou, mas que abandonou seus fãs fiéis para se aventurar num caminho menos promissor. Quem quer um bom suspense médico, recomendo que procure os livros da década de 70 ao final da de 90. Mas quem quer um livro com muita ação, mas nenhum mistério, Benefício na Morte é uma ótima opção. 


4 comentários:

  1. Caramba! (desculpa rs), que livro é esse Ronaldo?! E acredito, devido ao meu gênero literário, que é diferente do seu. Os mistérios que você não encontrou, eu vou achar rsrs. Tem todos os quesitos para tirar o fôlego de muitos leitores, sendo devorado em poucos dias. Ah nem preciso falar de suas resenhas, não é...
    Nunca deixam a desejar!
    Grande abraço.

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    1. Mas realmente não tem muitos mistérios, algumas surpresas no final, mas aquele suspense de saber quem é o culpado, não existe.

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  2. Ronaldo, por enquanto não li nenhum livro do autor. Depois de muitas resenhas que andei lendo nos últimos meses falando muito bem dos livros do Robin Cook, acabei adquirindo Coma. Tomara que eu goste.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

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    1. Ótima escolha, Maurilei, sempre recomendo começar pelos livros mais antigos dele.

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