segunda-feira, 4 de maio de 2015

Escuridão Total Sem Estrelas

                      Resenha                                               

O título não poderia ser mais adequado. Nos quatro contos encontramos o lado mais negro do ser humano. São contos de gêneros totalmente diferentes, mas com uma unidade: todos falam de pessoas diante de um dilema e as consequências de seus atos. Todos estão diante de dois caminhos, o negro, que é simbolizado pela inveja, vingança, apego, omissão e o caminho do bem, simbolizado pelo perdão, pela conciliação, pela resignação ou por cometer um ato heroico para evitar um mal maior. Por se tratar de contos, a linha entre sinopse e spoiler é muito fina, por isso, falarei o mínimo possível sobre o enredo, partindo logo para minhas impressões.

1922

No primeiro conto, o mais sombrio de todos, temos uma família em conflito. Pai e filho amam a terra e não aceitam viver na cidade, enquanto a mãe, detentora dos direitos sobre a propriedade, está decidida a vender a fazenda e deixar o campo. Para evitar que isso aconteça, pai e filho tomam uma decisão drástica, que muda para sempre as suas vidas. O conto fala sobre culpa, sobre como o remorso pode destruir a alma de uma pessoa. O ato cometido por pai e filho os acompanha impiedosamente provocando mudanças em seu comportamento. Com o pai, a culpa o corrói de forma passiva, destruindo sua mente, roubando sua sanidade e tornando-o um esboço da pessoa que fora outrora. Com o filho, a mudança é mais evidente e radical, levando o rapaz a seguir um caminho sem volta, se afundando cada vez mais em seus próprios erros. Algumas passagens são tão fortes que num momento eu tive de reprimir um grito (isso já ocorreu com filmes, mas nenhum livro me provocou essa reação antes). E por mais que a agonia seja intensa, não dá vontade de abandonar a leitura, pelo contrário, é o conto mais longo e foi o que (proporcionalmente) li mais rápido. A narrativa em primeira pessoa é hipnótica, tem um ritmo envolvente, que te aproxima do narrador.  Na verdade é essa a grande particularidade do conto, a força narrativa. Certamente se for adaptado para o cinema não terá o mesmo impacto e será um filme medíocre.

Gigante do Volante

Em Gigante do Volante, Stephen King nos apresenta Tess, uma escritora de livros policiais que após uma palestra recebe de uma das bibliotecárias organizadoras do evento a dica de um atalho para dirigir de volta para casa. Porém cai numa armadilha montada por um caminhoneiro e é estuprada. Após escapar do esconderijo de onde só saiu com vida devido a um descuido de seu agressor, planeja sua vingança. Uma palavra para definir o conto é "superlativo." Nessa história tudo é intenso, as cores são vivas, as marcas físicas e psicológicas da violência são gritantes, a dor é pungente e um caminhoneiro gigantesco mostra o pior lado do ser humano. Tess é uma mulher comum, uma escritora pouco conhecida, sem nada glamoroso em sua vida. Não é descrita como bela nem feia, não é muito jovem e nem velha, está na meia idade e é uma mulher solitária, cuja única companhia é um gato. Uma pessoa que poderíamos conhecer, uma pessoa que poderíamos ser e cuja tragédia, infelizmente, não é algo incomum. As passagens do estupro são perturbadoras e se tiveram tanto impacto sobre mim, o que dirá nas mulheres que lerem o livro. E junto do estupro vem também as consequências: a possibilidade de que lhe atribuam alguma culpa pelo ocorrido, a ideia terrificante de ter engravidado ou ter adquirido uma doença. Todos esses aspectos são bem explorados no conto. Algo curioso em Tess, são os diálogos interiores que tem com seus alter-egos, que são representados por Tom, que nada mais é que o nome seu GPS e por Fritz, seu gato. Essas ponderações dão uma atmosfera surreal em alguns momentos, o que dá uma certa leveza muito bem vinda à narrativa. Pois King não enfeita a realidade e não tem nenhuma sutileza em mostrar o lado sombrio de seus personagens. O conto tem muitas reviravoltas, uma revelação chocante sucedendo a outra e nenhum acontecimento é gratuito. Tudo tem relevância no final, cada peça vai encontrando seu lugar até que tudo seja lindamente amarrado nas últimas páginas. Só achei que o clímax da história deveria ser mais catártico. Porém isso não desmerece o conto, que é primoroso.

Extensão Justa

É o conto mais curto da coletânea e fala de um assunto que me fascina: inveja. Sentimento destrutivo, tanto em relação ao objeto da inveja, quanto a quem a sente. Streeter é um homem sofrendo de câncer que ao se deparar com um vendendor de rua, tem a oportunidade de se vingar de alguém muito próximo, de quem guarda um grande ressentimento. Um dos pontos mais interessantes do conto é o contraste substancial entre os dois núcleos familiares da história. De um lado, um homem que leva uma existência medícore, cheio de complexos de inferiroridade, agonizando em seus últimos dias de vida e em cujo coração há espaço somente para a mesquinhez. Do outro, um homem que leva uma vida glamorosa, bem sucedido profissionalmente, com um casamento feliz e filhos amorosos. E além disso, belo, carismático e saudável. E quando acontece a grande reviravolta na história, somos tomados pelo horror. O horror de que os sentimentos humanos são capazes. A incapacidade do perdão, o egoísmo, o egocentrismo e a crueldade sádica de se comprazer com o sofrimento alheio.


Um Bom Casamento

O último conto é um delicioso suspense doméstico. Darcy, casada a há vinte e cinco anos com um simpático negociante de moedas raras, descobre um terrível segredo de seu marido e as consequências dessa revelação são imprevisíveis. A maneira como Stephen King conta como o casal se conheceu, narra sua rotina durante todos esses anos e descreve o vínculo afetivo que os une resultam numa leitura muito agradável. Ele constrói meticulosamente um lindo castelo para depois derrubá-lo sem dó. Um casamento aparentemente perfeito que corre o risco de ruir após uma inesperada descoberta. Darcy faz uma análise de seu passado juntos, procurando evidências sobre a verdade que se escondia por baixo da máscara de bom marido e, como acontece em todos os contos do livro, é obrigada a tomar uma decisão. Agir e dar um passo em falso pode ter consequências desastrosas, mas se omitir, fingindo que nada aconteceu, pode ser muito pior.

O livro se encerra com um posfácio onde podemos conhecer um pouco sobre como nasceu cada um das histórias. O mecanismo criativo é sempre algo curioso, mas no caso de Stephen King é mais do que fascinantes. A maneira como ele consegue enxergar num fato corriqueiro o potencial para uma grande história é magistral.

Um dos livros mais esperados do ano, Escuridão Total Sem Estrelas não só corresponde às expectativas, como as supera e certamente merece um lugar entre as obras primas do autor.

12 comentários:

  1. O King está entre os escritores que mais fico ansioso por seus lançamentos. Gostei muitos dos quatro contos, com destaque para Extensão Justa que achei bem criativo.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

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  2. Oi, Ronaldo! Como sempre, encantado com suas análises.
    Estou louco para comprar este livro... Embora no momento esteja com a grana curta e com a falta de tempo, para variar... Vi as adaptações de Good Marriage e Big Driver e me encantei pelas duas. Os outros dois contos que não foram adaptados, ainda não tinha lido uma análise detalhada, só visto uma breve sinopse.
    Abraços! E obrigado pelas suas visitas. Peço desculpas, desde já, por não poder passar aqui com tanta frequência.

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    1. Tem ótimas ofertas dele no Submarino, eu mesmo comprei com um bom desconto. Quanto a tempo para lê-lo, aí realmente fica complicado,rs. A propósito, não tem de que se desculpar, a rotina de estudos é assim mesmo, te suga, mas vai valer a pena.

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  3. Quero muito ler esse livro, sou fã do autor, ele está entre meus desejados, espero adquirir em breve.
    Adorei a resenha e estou seguindo seu blog, bj

    Daily of Books

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    1. É espetacular mesmo, Fernanda. Também estou te seguindo. Obrigado.

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  4. Ainda estou criando coragem para ler mais obras do King. Até agora só li Carrie, a estranha. Já assisti vários filmes baseados em seus livros, mas ainda quero ler muitos livros, inclusive este.

    www.meuslivrosesonhos.blogspot.com.br

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    1. Contos sempre são uma ótima opção para quem está estreando em Stephen King.

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  5. Tenho muita admiração pela forma de escrita de King, seus personagens então...são muito intensos!
    Mas é claro que, não tenho 1/10 da experiência que você, se tratando das obras do escritor. Recentemente postei uma matéria em meu blog sobre a autobiografia/autoajuda 'SOBRE A ESCRITA', citando algumas dicas do autor para quem deseja se aventurar por essa profissão: http://www.cafecompersonagens.com.br/?p=782 , fique á vontade em me visitar.
    Um grande abraço e até mais.

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    1. Cada vez mais me apaixono pela obra dele. Vou visitar seu blog sim. Abraços.

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  6. Como sempre uma boa resenha.
    Ronaldo, eu li esse livro ano passado e posso dizer que o primeiro conto é muito bom. Possui trechos bem fortes e realmente perturbam o leitor.
    Outro ponto alto do livro é o conto extensão justa. Será que o vendedor de extensões seria de alguma forma o Pennywise do livro It? Li este conto com esse pensamento no fundo da mente.
    Um abraço.

    naciadelivros.blogspot.com

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    1. Eu não havia feito essa associação, mas como os livos de Stephen King costumam se relacionar, é bem possível que Pennywise tenha aprontado mais essa.

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