segunda-feira, 9 de março de 2015

Sete casais LGBT da literatura

Hoje eles tem um gênero próprio de literatura que vem se expandindo e se dividindo em subgêneros, de forma que cada vez mais atraem um público diverso, exigente, mas de mente aberta. Porém, não é de hoje que os LGBT povoam a cultura. E, diferente do que ocorre em outras mídias, na literatura eles sempre tiveram uma facilidade maior de aceitação. E eis aqui sete representantes do universo colorido que conquistaram o público.

Lestat e Louis

Louis recebeu o presente das trevas das mãos de Lestat e desde então deram início a uma relação conturbada que atravessou séculos. Sem aceitar sua condição de vampiro, Louis vivia às turras com seu companheiro Lestat, culpando-o por sua condição e se recusando a matar para se alimentar. Porém, por mais que abominasse o estilo de vida do outro, não conseguia se afastar dele. Não apenas pela solidão, mas pela  insegurança de não conhecer a extensão de seus poderes e nem as suas fraquezas. Dependia de Lestat, que guardava tanto conhecimento, mas também o odiava. Uma relação entre dois homens onde não havia amor, nem sexo no sentido mais convencional da palavra, mas que durou eras e até hoje ainda acende algumas faíscas. Pelo menos da parte de Louis. E não se pode deixar de salientar que possivelmente foram o primeiro casal gay da literatura a adotar uma criança.

                                                                                         
 Milo Sturgis e Rick

Milo é um policial casca grossa, que na companhia do psicólogo Alex Delaware desvenda os mais intrincados crimes.  Reservado, seco e com um senso de humor sarcástico, intimida seus interrogados com sua altura e seu porte gigantesco que inclui uma barriga de respeito. Obesidade essa alimentada pelas beliscadas que vive dando na geladeira de seu companheiro de trabalho. Milo custou a conseguir o respeito de seus colegas pelo fato de ser homossexual. E mesmo sendo um policial conceituado em seu distrito, ainda lida com o isolamento, piadas  e boicotes em sua carreira. Casado com o médico Rick eles tem uma relação estável, apesar de exercerem profissões que tomam tanto seu tempo. Um casal tranquilo, que não dá demonstrações de afeto em público, mas vive bebem... quando conseguem se ver.



Qhuinn e Blay

Amigos desde a infância, Qhuinn e Blay têm muita história para contar. Noitadas, pegações, bebedeiras e muita pancadaria contra os redutores. Dois lindos vampiros, dois amigos inseparáveis. Mas havia mais que amizade. Blay sempre nutriu um carinho especial pelo seu companheiro, que percebia isso, mas fingia não ver, fosse para não abalar a amizade ou porque tinha medo de seus próprios sentimentos. Mas um dia essa verdade vem à tona, Qhuinn joga na cara do parceiro que este sempre o desejou e a amizade é abalada. É a partir daí que se tem início a história de amor mais complicada da Irmandade da Adaga Negra. Um se sente ofendido e se afasta, o outro não quer dar o braço a torcer. Blay se envolve com outro vampiro e Qhuinn com uma Escolhida. Um morre de ciúme do outro, mas não se entendem. As rinhas entre os dois garotos se estende por vários volumes da série, até que o casal tem seu livro próprio. E o título Amante Finalmente não poderia ter sido mais bem escolhido. Depois de tantos desencontros, enfim esses guerreiros se rendem e nos brindam com uma linda reconciliação.


                                                                   
Romero e Mozart 

Romero é um jovem de 14 anos, ingênuo, inexperiente, que não aceita sua homossexualidade. Filho de Silas, um homem intransigente e de Noêmia, uma mulher fraca, que acata todas as ordens do marido, o rapaz só conta com a irmã Judite para desabafar sobre seus anseios e dúvidas. Até que, após uma sessão de cinema é violentado por Junior, um marginal. Proibido pelo pai de tocar no assunto ele é obrigado a  conviver em silêncio com toda a dor causada pela violência tanto física como emocional, até que conhece Mozart, um jovem bem resolvido com sua sexualidade, que lhe ensina o outro lado do universo gay. Mozart lhe mostra toda a beleza de um amor verdadeiro e que ambos têm o direito de lutar pela sua felicidade. Um casal que se completa, com Mozart dando à Romero a força de que ele precisa para trilhar esse caminho e superar seus traumas e Romero trazendo ao companheiro a base de que ele tanto precisa.



Cellie e Shug

Cellie teve uma vida sofrida. Abusada sexualmente pelo pai, teve com ele três filhos, dos quais o velho se desfez. Contra sua vontade, é entregue pelo pai a Alberto, um completo estranho e mutos anos mais velho, com quem se casa à força. E em sua nova vida a única coisa que muda é o cenário. Sofre constantes agressões e humilhações, levando uma vida miserável ao lado de um homem cruel e pervertido, que a faz de escrava. A vida de Cellie é fazer serviços pesados e cuidar dos filhos do marido. E absurdo maior: é obrigada a tratar da amante do marido que está doente. Mas é através dessa relação que a vida da jovem muda. Ou melhor, começa. Apesar da animosidade inicial as duas se tornam amigas. Shug lhe traz a música, o riso e o amor. É nos braços de uma mulher que ela descobre o prazer do sexo, que também merece ser tratada com carinho e que o mundo tem sua porção de beleza. É na relação com Shug que Cellie descobre sua autoestima e aprende a enfrentar o mundo de peito aberto, com orgulho de ser mulher, de ser negra e de amar outra mulher.

Carol e Therese 

Therese tinha uma relação sem muitos emoções com seu namorado, até conhecer Carol na loja onde trabalhava. A vida simples e insípida que levava foi iluminada pela presença dessa mulher sofisticada, com quem passou a ter uma amizade insólita. Carol passa por um divórcio, porém não parece nada fragilizada. É uma mulher forte, vivida, que desenvolve de início uma relação maternal com a insegura Therese. Mas conforme elas vãos e aproximando, se conhecendo e se tornando amantes, ocorre uma simbiose. Therese se torna mais segura de si e é o ponto de apoio da companheira, que passa a ser perseguida pelo marido. E Carol, em toda sua elegância e autossuficiência logo mostra o quanto pode ser dependente da moça mais jovem. É fascinante a gradual troca de papéis entre as duas. À medida que os acontecimentos avançam e a relação se estreita, Carol se mostra menos glamourizada e Therese ganha uma segurança que não demonstrava no início. Até chegar o ponto em que vemos Carol praticamente correr atrás da mulher mais jovem, o que parecia impensável.Toda essa relação e suas nuances são apresentadas de forma muito sutis. Afinal estamos falando da década de cinquenta. E, além da sutileza, a narrativa lenta torna a evolução do relacionamento e as mudanças nas personagens quase imperceptíveis. Mas ao final da leitura, vemos que essas mudanças foram consideráveis


Lady Di e Sem Chance

Lady Di é um transexual com tudo a que se tem direito. Silicone, maquiagem e roupas femininas. Sua cela é um capricho, cheia de adornos delicados. Pouco se sabe sobre a vida que ela levou lá fora, mas é evidente a rejeição que sofre do pai. Ao procurar o médico da cadeia, que se trata do próprio Drauzio Varella, para fazer um exame de Aids ela se aproxima de Matias, outro presidiário que desempenha a função de auxiliar do doutor e acabam desenvolvendo uma relação curiosa.  É espantosa a naturalidade com que “Sem Chance”, apelido do auxiliar, se entrega ao romance, mesmo sabendo do passado promíscuo de Lady Di.  É claro que as dificuldades de uma vida na prisão derrubam barreiras que existiriam aqui fora, mas o que encanta Matias é o jeito doce de Lady. Sua serenidade em meio a  todo aquele caos lhe dá a paz e a esperança que ele necessita. Enquanto que para ela, estar ao seu lado é uma forma de redenção para os abusos que se permitiu.  Um bela história de amor  que contrasta com aquele ambiente inóspito repleto de dor, maldade e violência.


6 comentários:

  1. Oi, Ronaldo! Como sempre mandando bem nas listas.
    Adoro o Lestat e até gosto do Louis, mas não tanto. Quanto à Cor Púrpura, livro incrível... Emocionante! Da lista, só não li 3 livros. Uma vez emprestei O Preço de Ser Diferente para um amigo e nunca mais devolveu... Tudo bem! Hahaha
    Tenho muita vontade de ler outros livros da Patricia Highsmith: até o momento só li o primeiro do Ripley e peguei o sexto (achando que era o segundo), mas também sem complicações: estou lendo numa boa, depois pego os outros.
    E que essas listas com casais de gays e lésbicas na literatura não parem de aumentar. Hoje o leitor já não pode reclamar tanto da falta de narrativas lgbts. Agora cabe ao Brasil investir mais na leitura.
    Abraços

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    1. Esse lance de livro que vai e não volta é revoltante, ando cada vez menos generoso em emprestar os meus. A Patrícia tem excelentes obras, mas muitos livros maçantes também. E que a literatura gay produza material para várias listas como essa. Abraços.

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    2. Engraçado isso do teu livro "O Preço de Ser Diferente" não ter sido devolvido, Ben, pq aconteceu o mesmo com um exemplar dele que loquei de uma biblioteca aqui do meu Estado : tentei relocá-lo e ... a pessoa que o tinha pego emprestado por último não devolveu. Será que é uma espécie de 'maldição'? ahahh

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    3. O meu eu também não sei ao certo que fim levou, mas tenho certeza que não foi empréstimo mal sucedido.

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  2. Quanto à minha apreciação, sou fãzaço de "A Cor Púrpura". A Cellie é um encanto de pessoa e mereceu o amor que a vida lhe trouxe.
    Sobre "O Preço de Ser Diferente" só tenho a render elogios. Romero teve um crescimento como pessoa extraordinário após conhecer o Mozart! Sem dúvida, uma bela psicografia!

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