segunda-feira, 30 de março de 2015

Melodia Do Mal - Muito mais que um livro de terror


                                                                 Sinopse

O produtor musical Lennart Cederström, encontra num bosque à beira da morte, uma diminuta recém-nascida. Logo descobre que a bebê tem um inacreditável talento para a música. Afastado da mulher e do filho, a quem despreza, faz da menina praticamente um projeto musical, instruindo-a e cercando-a da melhor música. A criança responde com surpreendente e quase milagroso talento, dotada de uma belíssima voz. Ao mesmo tempo, demonstra um peculiar interesse em “desconstruir” objetos, conceitos – e, como se vê depois, pessoas. À medida que cresce “longe dos males da sociedade”, ilumina e transforma a vida dos pais postiços... até revelar uma essência perturbadora e sanguinolenta.

                                                                  Resenha

 A sinopse não dá ideia da grandiosidade dessa obra na qual o autor nos leva por locais totalmente inesperados. Do porão de uma residência de um casal de artistas decadentes, aos bastidores de um reality show musical. Das intrigas da blogsfera, às impiedosas leis do submundo do crime. Tendo como ponto de partida a descoberta de uma criança abandonada numa floresta, John nos apresenta uma família insólita. Lennart, o pai, é um músico que sobrevive de trabalhos ocasionais em estúdios, raras apresentações e os direitos autorais de suas obras. Laila a esposa, após um "incidente" doméstico teve o joelho permanentemente danificado e sofre de obesidade mórbida. Jerry, o filho, saiu cedo de casa, mas nunca conseguiu encontrar um rumo na vida e em suas esporádicas visitas sacode a rotina dos pais. E é nesse cenário infeliz que a criança é inserida.
O egoísmo, covardia e ganância dos pais adotivos me deixaram perplexo. Em alguns momentos tentei ver a situação pela perspectiva do casal e também de Jerry, mas não consegui encontrar justificativa para suas atitudes. O que faziam com a criança era algo repulsivo. Principalmente Lennart que, na tentativa de mantê-la longe dos olhares curiosos dos vizinhos toma uma atitude monstruosa, capaz de causar consequências irreversíveis na mente infantil da menina.
Os conflitos entre os personagens são um grande atrativo. Extremamente problemáticos, eles não conseguem se entender e a chegada da criança opera diversas mudanças na maneira como se relacionam. A presença da garota traz à tona o que há de pior e também de melhor em cada um. Os momentos em que Jerrie passa ao lado da menina são os mais interessantes dessa primeira fase do livro. As descobertas que ele faz a respeito do bebê, a maneira como ela o desconcerta e o modo como se tornam próximos, tudo faz com que tenham uma estranha cumplicidade.
A primeira parte termina de modo chocante, algo que eu não esperava e que desconstruiu a maioria das ideias que eu havia pré-concebido a respeito do enredo. E é aí que está uma grande particularidade dessa obra. Até mais da metade do livro, não sabemos aonde todos aqueles acontecimentos vão nos levar. É uma trama imprevisível, na qual histórias aparentemente paralelas vão surgindo e tudo se intercala de forma surpreendente.
Da angustiante rotina da família Lennart, passamos para a história de Therese, uma  menina que nasce numa família afetuosa e, apesar dos complexos comuns de um adolescente, tem uma existência normal. Sofre bullyng na escola, mas não se intimida, conseguindo sempre se impor. Por outro lado, é muito sensível e um comentário hostil nas redes sociais a respeito dos poemas que ela escreve a deixa deprimida. E é essa depressão que a leva para caminhos sombrios.
Conforme os personagens vão se aproximando, cria-se uma instigante trama e cada um tem um papel importante no desenrolar dos acontecimentos. Como a história se passa num período de quase quinze anos, é interessante acompanhar a evolução destes personagens. A adaptação de Theres ao mundo exterior, o talento de Teresa desabrochando, mesmo que não seja reconhecido. A lealdade e generosidade de Johannes que parece não ter limites. Mas de todos os personagens, o que mais evoluiu foi Jerry, que amadureceu com o decorrer dos anos e no final pouco lembrava o adolescente desajustado. Continuou sendo uma pessoa insegura, mas demonstrou que sua índole não era tão má quanto parecia.
Apesar de o final ser de contorcer as entranhas, o que me deixou mais impressionado e ainda me dá calafrios foi algo que aconteceu um pouco antes do epílogo. Um ato perpetrado por Teresa que mexeu bastante comigo. Indignação, choque, tristeza, tudo se misturou e o resultado foi uma sensação amarga. Muitas atitudes de Teresa me chocaram, mas nesse caso foi cruel demais.
John criou uma obra que mescla vários tipos de terror. Não economiza em sangue, mas também mostra que o mal pode ser causado com simples palavras e também com o silêncio da omissão. Que às vezes a loucura pode se instalar na mente de um ente querido sem que percebamos e quando os sinais aparecem já pode ser tarde demais. Um livro que te suga para dentro de um mundo angustiante e quando te devolve te deixa com algumas marcas que vão custar a desaparecer.

                                                            Aspectos Gráficos

Fonte: Pequena, o que cansa um pouco, principalmente sendo as páginas em formato grande.

Papel: Pólen, o que de certa forma compensa as letras miúdas.

Revisão: Não encontrei erros que me chamassem a atenção.

Curiosidades: Apesar do livro ser dividido em várias partes, estas não estão relacionadas no índice.




2 comentários:

  1. Ótima resenha Ronaldo! Eu estava em dúvida se lia ou não este livro mas pelo que disse me convenceu a apostar na história. Do autor eu li Deixe ela Entrar e Mortos entre Vivos que gostei bastante, o primeiro sobre vampiros e o segundo sobre zumbis tudo com uma visão atual e abordagem diferenciada, porém meu ultimo contato com ele não foi tao bom assim, A Maldição de Domaro deixou a desejar e parei a leitura na metade, a escrita em geral dos escritores nórdicos é bem "pesada" se comparada ao que estamos acostumados de ler dos autores americanos. Mas bem, indicação anotada!

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    1. Esse foi meu primeiro, mas sem dúvida, pretendo ler outros.

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