sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sete filmes tão bons quanto os livros


A Culpa É Das Estrelas
O Livro
Nas primeiras páginas o livro parece não trazer nada de novo. O velho clichê de que devemos aproveitar cada dia como se fosse o último. Mas John Green me surpreendeu. Ele levou a história do casal de adolescentes para um rumo inesperado. O medo de se entregarem ao amor já era um elemento esperado, a revolta dos personagens contra o câncer, já era esperado, a esperança através do amor, já era algo esperado. Mas eu me surpreendi com o humor ácido de Hazel, com sua rabugice que a tornou mais humana, mais real, que a tirou do estereótipo de doente sofredora, mas resignada. A maneira como John entrou no coração de uma adolescente foi impressionante.



O filme

Nem todas as frases escritas soam bem quando ditas em voz alta. Podem ficar piegas, ridículas ou sem efeito. Mas não foi o caso do filme A Culpa É Das Estrelas. Alguns diálogos do livro foram fielmente transportados para o roteiro e o resultado foi ótimo. Não pela competência dos atores, pois são bons, mas nenhum deles digno de Oscar, mas pela sensibilidade do roteiro. Pelo cuidado em se criar o tom certo, dramático, mas não deprimente, romântico, mas não piegas. A presença de John Green na produção colaborou muito para que a alma do livro fosse captada. A direção esteve muito comprometida com o livro em passar a mensagem de ser feliz na medida do possível e isso foi feito em todas as linguagens possíveis. Na expressão dos atores, na trilha sonora, na fotografia e na edição. Tal qual o livro, é um filme para ser sentido.


Garota Exemplar
O livro
Quem me segue sabe que tenho algumas reservas em relação a “Garota Exemplar.” Achei o livro arrastado demais nas primeiras 150 páginas, não achei nada original a revelação sobre o desaparecimento de Amy, já que esse mesmo recurso foi utilizado em vários livros de Agatha Christhie e tive repulsa pela personagem principal. Na verdade, minha raiva de Amy foi tão grande que, injustamente, acabei por pegar bronca do livro. Digo injustamente porque o texto de Gyllian é de excelente qualidade e ela foi muito habilidosa em conduzir a trama. Sem falar na construção primorosa dos personagens. É um grande livro, mas Amy ferrou com tudo. E aquele final foi revoltante. Esperava mais da Gyllian, aguardava uma grande virada, já que o livro foi repleto de reviravoltas.  


O filme
O filme também se arrasta bastante no início. Porém pega fogo após a primeira revelação. O livro era cheio de altos e baixos. Se as passagens com Amy eram instigantes e repletas de surpresas, os momentos com Nick eram mais tediosos. A partir do momento em que descobrimos o que aconteceu com Amy, todo o esforço de Nick em encontrá-la perde a graça. E a grande sacada do filme foi a de focar a trama quase que cem por cento em Amy assim que ela aparece. As interpretações também contribuíram. Quando li imaginei o Nick como o  Joshua Bowman porque não conseguia pensar em um ator mais cara de pateta. Mas Bem Afleck conseguiu superá-lo. Muita gente achou-o apagado demais, mas ele apenas reproduziu o Nick do livro que tinha essa característica. Sua expressão deprimida e a aparência meio decadente completaram a composição. Rosamund Pike desempenhou o papel de Amy magistralmente. O que mais me chamou a atenção foi seu olhar assustador. E Carrie Coon fez uma Margo tão carismática quanto a do livro, formando um interessante contraponto com Ben. Ele fraco, ela forte. Ele perdido, ela esperançosa. Certamente o filme não é tão relevante quanto o livro, não será um marco, mas conseguiu se sobressair. 


O silêncio dos Inocentes
O livro
O que torna esse livro tão marcante é o fato de haver dois personagens fortes em uma situação ambígua. São aliados, mas estão em lados opostos da lei. São pessoas de índoles diferentes, mas tem uma afinidade arrepiante. Clarice é uma mulher comum, sem nenhuma habilidade especial que não a de se dedicar ao seu trabalho e desenvolver empatia pelas vítimas, mas sem deixar que suas tragédias a abale. Não mantém uma distância emocional dos casos, mas usa suas emoções como instrumento de trabalho. A grande diferença entre Clarice e Hanibbal é que ela mergulha na alma das pessoas e ele mergulha em suas mentes. Faz uma análise fria do ser humano, um estudo matemático baseado em gestos, expressões e tons de voz. Mas cada um ao seu modo é um grande conhecedor do ser humano e é isso que cria essa afinidade e torna o livro tão instigante.


O filme

E o filme captou o âmago do livro focando o roteiro na relação entre Clarice e Hannibal. Os momentos mais tensos do filme são justamente os diálogos entre os dois. Fica evidente o fascínio que o médico sente pela detetive, não pela sua aparência ou sua juventude, mas por se identificar com a moça. E também é notável o desconforto que Hannibal causa em Clarice. A postura rígida de Jodie Foster é mais do que a rigidez profissional. É o incômodo de olhar nos olhos de Hannibal e ver o mesmo que suas vítimas viram. Mas, por mais que sejam pessoas de índoles diversas, há química entre eles. Não é um filme com um ritmo intenso, mas com uma atmosfera de expectativa e cenas chocantes como a do guarda estripado pendurado nas grades. Um filme que, consegue alcançar a profundidade do livro, o que é raro.


O Retrato De Rita Hayworth e
a Redenção De Shawshank
O livro
O conto extraído da coletânea As Quatro Estações de Stephen King é uma bela demonstração da competência do mestre do terror em escrever obras de qualidade sem elementos sobrenaturais. É uma história policial ambientada dentro de um presídio, onde o personagem principal planeja uma fuga com a o auxílio de um grande amigo. É um conto bem enxuto (característica que qualquer conto deveria ter, mas não no caso de Stephen, que tem a capacidade de divagar mesmo em histórias curtas), que traça rapidamente o perfil dos personagens e cria uma expectativa em relação à empreitada do protagonista. King nos faz gostar de Andy, mesmo o conhecendo pouco e nos faz torcer para que ele consiga escapar.
O filme
Já no filme não apenas torcemos por Andy, mas vibramos por ele. O roteiro é muito mais elaborado que a história original, mas temos de dar um desconto, pois se trata da adaptação de um conto de  pouco mais de cem páginas para um filme de mais de duas horas. Há tempo para desenvolver os personagens e trabalhar as relações entre eles. O filme enfatiza muito a amizade que nasce entre Andy e Red. Um detalhe, no livro o personagem não é negro e sim um irlandês. É tocante a ligação entre ambos e revoltante as injustiças pelos quais os personagens passam nas mãos dos guardas e do diretor da prisão, um cara detestável. O filme também tem mais reviravoltas, como o surgimento de uma testemunha que pode inocentar Andy e que acaba tendo um fim trágico. Nesse caso, temos um filme bem superior ao livro, não só pelo motivo que já mencionei, mas devido ao apelo dramático da história. Dramático e não melodramático.

Psicose

O livro
O que mais me impressiona no livro é a maneira como Robert Bloch conduziu a história. O início é muito inusitado, com a funcionária de um escritório roubando uma pequena fortuna para garantir seu futuro com seu amante, fugindo pela estrada tentando desastradamente ocultar seu rastro, indo parar num hotel sinistro e então conhecendo o proprietário, um rapaz gentil, tímido e aparentemente inofensivo. Ele é Norman Bates e é então que o livro realmente começa. Um rapaz cheio de conflitos que esconde uma natureza doentia, o arquétipo do lobo em pele de cordeiro.




O filme

E Anthony Perkins deu vida a esse personagem tornando-o imortal. A sensibilidade do ator em compor Norman Bates em seus mínimos detalhes foi o que o tornou tão marcante. É um personagem para ser estudado, que em cada gesto dá sinais de sua psicose, que guarda nos olhos um desespero que chega a ser agoniante. É muito difícil encontrar num filme uma simbiose tão perfeita entre ator e diretor. Anthony diz com palavras, movimentos e expressões tudo o que Hithcock quer transmitir. E Hithcock dá ao ator todo o espaço que ele precisa para interpretar esse papel tão delicado. O resultado é uma obra prima que não apenas se equipara ao livro, mas em muitos aspectos o supera.



Jogos Vorazes
O livro
O livro Jogos Vorazes tem uma premissa muito pertinente aos dias de hoje, que é os limites do bom senso no show business. É uma crítica nem um pouco sutil à mídia. Uma comparação dos programas de TV à carnificina do coliseu. E as vítimas jogadas aos leões para delírio da audiência são os adolescentes daquele mundo distópico. Distopia não é um gênero novo. O clássico Admirável Mundo Novo é uma prova disso. Mas Susan Collins descobriu uma nova maneira de desenvolver o tema, levando-o para o público teen que tanto procura novos mundos na literatura. Conquistou o público com sua heroína Katniss e é a precursora de uma nova onda de livros do gênero. Mas Susane tem um vício na escrita que me incomoda bastante, a redundância. Ela volta diversas vezes ao mesmo ponto para fixar uma ideia que já está bem definida.

O filme
E a vantagem do filme é essa. O filme não é amarrado em nenhum ponto. No roteiro, escrito pela própria Susane Collins, a trama fica mais objetiva, dando ênfase ao que mais atrai o público: a aventura, as reviravoltas e o clima de romance. As intrigas políticas, os dados históricos são apenas delineados. Mas o melhor do filme é que ele nos coloca justamente no lugar da audiência que acompanha a luta pela sobrevivência dos casais. Somos nós que assistimos ao mórbido reality show e isso desenvolve uma espécie de meta linguagem. Ao mesmo tempo que o sufoco dos personagens nos faz criticar a estupidez daquele jogo, destinado a satisfazer o prazer sádico dos espectadores, nós mesmos estamos nos deliciando com toda aquela corrida desenfreada. É isso o que torna o filme algo muito maior que uma simples projeção do livro. 


O Senhor Dos Anéis

O livro
Leitura obrigatória para os amantes da fantasia, O Senhor dos Anéis é um livro completo e complexo, que agrada diversos públicos, com personagens que representam os mais variados arquétipos e com uma trama muito bem elaborada. Três volumes pode parecer muito, mas é o necessário para o desenrolar dessa história mágica. O primeiro volume é destinado a apresentar a rica galeria de personagens e a formar a Sociedade do Anel. A partir do segundo volume essa sociedade se separa e ao alternar a narrativa entre os grupos de personagens, cada um num local, cada um com uma tarefa diferente o livro se torna mais dinâmico. E no terceiro volume temos o clímax, que se estende por páginas e páginas sem perder o fôlego.



O filme

E o filme segue essa mesma estrutura. Fidelíssimo ao livro, com apenas algumas mudanças na ordem dos acontecimentos, reconta para os fãs de Tolkien sua fábula em grande estilo e conquista os que ainda não a conhecia, levando o público a encarar os três calhamaços para saber um pouquinho mais sobre a Terra Média. A direção foi cuidadosa em todos os detalhes. Na escolha do elenco fisicamente apropriado, de apostar em novos talentos, evitando escalar artistas com imagem desgastada, de não economizar em produção, criando uma Terra Média em toda a sua opulência e até convidando Enya para cantar  o tema principal. Um filme que foi aclamado por crítica e público e que rendeu muitos frutos como reedições de outros volumes de Tolkien, animações e a nova franquia O Hobitt.

12 comentários:

  1. Já falei que amo o seu blog? Adoro suas leituras e análises! Seu conteúdo é de qualidade. Torço para que ele continue crescendo. Ainda que seja difícil conseguir tantos leitores no Brasil, já que o índice de leitura é baixo e ainda existe muita maquiagem no mundo dos blogs literários (comentários vazios), o seu se supera.
    Ainda não assisti Garota Exemplar nem li. Me ganhou no Hannibal, Psicose e Senhor dos Anéis. Não gosto de A Culpa é das Estrelas: infelizmente, tive dificuldade de simpatizar com a protagonista. Gostei mais de Cidades de Papel. (também não gostei de Deixe a Neve Cair, muito teen!).
    Abraços! E continue com o bom trabalho! Recompensas vêm para aqueles que as merecem.

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    1. Vindo de você esse comentário é a afirmação de que estou no caminho certo. É muito bom ler um comentário que não é vazio, um comentário de alguém que leu, gostou e disse o porquê.. E se é elogioso ainda, se torna muito motivador. Muito obrigado, é sempre muito honroso te encontrar aqui no blog.

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  2. Garota exemplar só faltou uma personagem que foi chocante no livro e eu fiquei esperando no filme, mas eles tiraram ela ( era a melhor amiga da Amy no colégio ). A culpa das estrelas o filme é mil vezes melhor que o livro porque eu não suportava os pensamentos da Hazel ( chata e mimada ).

    Adoro suas listas sempre vejo só que esqueço de comentar, vou pegar mais o hábito de comentar beleza. #Guto

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    1. Obrigado #Guto, seus comentários são muito bem vindos.

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  3. O filme 'Um Sonho de Liberdade' é simplesmente espetacular! Não conheço o livro do qual o personagem Andy foi tirado mas creio que eu preferiria mesmo o filme pelo fato do personagem ter sido bem mais desenvolvido, contando com as ótimas atuações tanto do Tim Robbins, quanto do lendário Morgan Freeman! Excelente matéria, como sempre, Ronaldo!!

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  4. Oi tudo bem? adorei seu blog, então olha só te indiquei em uma TAG lá no meu blog, da uma olhada e quando responder me avisa pra eu ver suas respostas, *-* já estou seguindo viu?! beijos fica com Deus.
    http://agarotadoslivross.blogspot.com.br/

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    1. Oi Larissa. Não curto tags, mas agradeço o acesso e estou te seguindo também. Bjs.

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  5. Adorei "Um sonho de Liberdade". Também estou curtindo a série "Jogos Vorazes". Tem vários filmes da lista que ainda quero ver!

    www.meuslivrosesonhos.blogspot.com.br

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  6. Adorei sua lista. Vi boa parte dos filmes aí de cima, mas, dos livros, só peguei o Garota Exemplar. Comecei a ler o livro antes de assistir ao filme e, assim, como você, achei a leitura arrastada demais (pelo menos até onde li). Acabei largando e parti logo para o filme rsrs. Depois da sua lista, fiquei com muita vontade de ler Psicose e O silêncio dos Inocentes (já que só conheço os filmes).

    http://issorendeumahistoria.blogspot.com.br/

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