terça-feira, 7 de outubro de 2014

Suicidas e Dias Perfeitos (Resenhas)

                                   
                  



Raphael tem um jeito especial de escrever, passa uma cumplicidade com o leitor, como um amigo que nos chama num canto e nos conta uma boa história. Suicidas é bem mais que um livro perturbador, é uma crônica da juventude da classe média carioca, é uma história de horror contemporâneo, com um ar de lenda urbana e uma teia habilidosamente tecida que  envolve os personagens numa armadilha tão letal que é difícil sequer imaginar uma chance de algum deles escapar com vida.
O livro é narrado por três ângulos; O diário de Alessandro; O livro que Alessandro escreve em tempo real quando estão todos no porão; E a reunião das mães das vítimas, mediada por uma delegada, Diana.
O ritmo do livro é intenso. Mesmo narrado em linhas de tempo  diversas, para onde quer que olhemos há algo importante acontecendo. E a malandragem de Raphael em encerrar um capítulo com ganchos, narrar o capítulo seguinte num outro ponto da história e também terminar esse capítulo com um gancho chega a ser agoniante.
Não posso deixar de destacar as cenas sangrentas. Aquele porão, onde o grupo de jovens se reúne para cometer suicídio coletivo, é um verdadeiro circo de horrores. É preciso ter estômago para encarar algumas páginas. Um espetáculo grotesco, com tanto ódio, ressentimento e derramamento de sangue que um dos pontos mais contundentes que é uma cena de necrofilia, soa apenas como mais um mero ato dessa mórbida tragédia.


Outro ponto de destaque é a relação entre os dois protagonistas, Alessandro e Zak, amigos de infância que nutriam entre si um grande afeto, mas também uma afinidade sombria e uma intimidade que os isolava do resto do mundo. O tema de amigos inseparáveis que acabam se envolvendo em alguma atividade criminosa já se tornou um clichê, porém esse elemento foi muito bem trabalhado por Raphael. Os personagens e sua relação foram abordados de uma forma tão visceral que até parece haver algo de autobiográfico ali. Não a transcrição de um fato real, mas um devaneio de escritor tomando como base acontecimentos de sua vida pessoal. Afinal, é assim que surgiram grandes livros não é? Da capacidade de brincarmos com a realidade.



                                                               
Já com Dias perfeitos as coisas se amornaram para mim. O livro começa muito bem.  Apresenta-nos Teo, um personagem simpático, apesar de ser classificado logo de início como um psicopata, que vive com a mãe paralítica num modesto apartamento, após terem falido e perdido grande parte do patrimônio da família.
A autoanálise que Teo faz é bastante curiosa. Ele sabe de suas deficiências emotivas e éticas, aceita essa realidade, como não poderia deixar de ser, mas sabe que é necessário fingir para o mundo e o faz sem esforço. Até que tudo em sua vida vazia muda ao conhecer Clarice num churrasco.
Os truques que ele utiliza para se aproximar dela o transformam numa figura patética, mas não tiram o lado singelo da situação. Quem nunca fez loucuras por uma paixão? E aí está um equívoco da análise que Teo faz sobre si próprio e que talvez tenha sido um equívoco do autor (talvez tenha sido proposital, não posso afirmar): Teo não é um psicopata, já que ele nutre um sentimento por Clarice. Psicopatas não tem empatia, portanto não poderiam se apaixonar.
Mas, de qualquer modo, Teo não é uma pessoa considerada normal e mesmo sabendo disso se permite o direito de viver um amor. Ou melhor, o exige. As trapalhadas dele tentando se aproximar de Clarice dão lugar a trapalhadas bem mais sérias quando ele perde o controle da situação e vai cometendo um crime atrás do outro para cobrir sua sujeira. Raphael nos deixa divididos entre torcer para que Clarice escape ou para que Teo se safe das enrascadas em que se mete. Dá muita curiosidade em saber como ele vai sair de cada situação e estas saídas não nos decepcionam. O garoto é engenhoso, tem sangue frio e é tão dissimulado quanto um ator.
No início o livro cativa pelo lado romântico de um “psicopata”, faz o coração saltar pela boca nas cenas de suspense, provoca nossa curiosidade até boa parte da narrativa, mas quando chegamos à Ilha Bela, a terceira locação da história, a trama perde a liga e começa a cansar. Chegar até a fase final para mim foi uma obrigação e não um prazer. E alguns acontecimentos finais, principalmente aquele ligados a um acidente que dá a virada definitiva no livro, são forçados demais.
Nunca avalio um livro pelo final, acho que uma conclusão insatisfatória não desmerece a obra, mas além do final ser de um humor negro ousado demais, a história desandou após dois terços da narrativa.
Porém acredito que minhas impressões teriam sido melhores se tivesse iniciado a leitura em outro momento. O fato de ter lido Suicidas dias antes fez com que eu fosse com muita sede ao pote.  Talvez numa releitura, daqui a alguns anos, minha opinião mude.
E aguardarei o novo lançamento de Raphael para que eu possa desempatar com esse autor. Tenho tudo pra acreditar que no próximo volume eu, ele e nós saiamos ganhando nesse desempate.





10 comentários:

  1. Olá, Ronaldo! Os dois livros parecem ser bem interessantes... Fiquei com vontade de lê-los.
    Quanto ao personagem psicopata que se apaixona, talvez seja mais uma questão de jogo de poder, de saber que pode conquistar sua vítima. De qualquer forma, ainda não conhecia o autor e fiquei curioso.
    Abraços
    Blog do Ben Oliveira

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    1. É uma boa explicação Ben, não tinha analisado a obsessão do personagem por esse ângulo.

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  2. Olá, adorei a resenha, você analisou bem o livro!
    Não li Suicidas e não sei se vou ler, porque, ao contrário de você, comecei pela leitura de DP e como o livro não me agradou muito (especialmente aquele final), não estou com muita vontade de ler o outro.
    Mas, mesmo não gostando da história, achei genial a forma como o autor encaixou os acontecimentos e surpreendeu o leitor.
    Abraço, Lerissa K. :D
    lerissakunzler.blogspot.com.br

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    1. O final deixou mesmo a desejar, mas o livro tem suas qualidades.

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  3. Muito bom parabéns, pela forma que descreveu Suicidas, lembra muito a forma como Dan Brown (autor de O código da Vinci, anjos e demônios, fortaleza digital, etc)... ele sempre termina um capitulo com suspense, e vai para outro ponto da historia no outro capitulo, lembra muito telenovelas que passa uma parte e vai para outra... eu particularmente amo livros assim... eu acho que eu falo que amo todos os tipos de livros, mas na tem problemas rsrs

    http://resenhandoaarte.blogspot.com.br/

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  4. Apesar das sinopses interessantes, ainda não sinto a vontade de ler nenhum dos dois livros.
    Especialmente depois de algumas resenhas que li a respeito de Dias Perfeitos.
    Quem sabe um dia? :)

    Beijos!

    www.oblogdasan.com

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  5. oii!! Faz tempo que estou querendo ler esse livro mais sempre fico em dúvida e acabo não comprando rsrs. Adorei sua resenha. (:

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  6. Olá, muito boa sua resenha e seus comentários sobre ambos os livros.
    Dias Perfeitos também não me agradou muito, mas achei engenhosa a maneira como o autor bolou e montou toda a história.
    Sobre Suicidas, o livro sempre me chamou a atenção, desde que ouvi falar do autor, mas ainda não tive coragem de ler. hahaha
    Beijos, Lerissa K
    http://lerissakunzler.blogspot.com.br/

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