terça-feira, 29 de abril de 2014

TOC, pole dance e solidão


Está aí uma escritora que me deixou intrigado. Li seu primeiro livro sem nenhuma indicação, o vi na prateleira, gostei do tema e acabei me arriscando. No Escuro não só satisfez minhas expectativas, como as ultrapassou.
Alguém aqui já assistiu Dormindo Com o Inimigo? Gostou? Pois imagine a intensidade dessa história elevada à décima potência e desdobrada como um leque de emoções. Assim é o livro de estreia de Elizabeth Haynes. Se na sinopse o livro promete um ótimo suspense psicológico e um drama de perseguição, quando mergulhei na leitura encontrei algo muito mais refinado do que isso.
A trama intercala duas épocas da vida da personagem. Uma é a causa e a outra a consequência.
Às vezes chegam a parecer duas histórias diferentes e às vezes dá para confundir ambas.
Na narrativa do passado, vemos uma Catherine ainda inocente, apesar de sozinha no mundo, órfã de pai e mãe. Acompanhamos suas ilusões, a promessa de um relacionamento maravilhoso com um homem perfeito surgir e se desfazer lentamente. Com muita sutileza, a autora vai arrancando a fantasia do príncipe encantado e mostrando o monstro que se esconde por trás de tanto charme e mistério. Acompanhamos a lenta deterioração do relacionamento (lenta, mas nunca tediosa), até que, a verdade surge tarde demais.
No presente conhecemos a rotina de um portador de TOC e somos lançados no tormento que é conviver com essa doença. Uma escravidão mental cuja pior tortura é se ter conhecimento do quão absurdos são aqueles rituais e não ter força para abandoná-los. Cathy conta com a ajuda de um psicólogo, com quem tem um envolvimento amoroso e é comovente cada passo que dá em direção à cura.
Em dado momento a autora abandona o passado e então a trama toma um ritmo alucinante, desembocando num final habilidosamente escrito, sem deixar nenhuma ponta solta.
Sobre a escrita de Elizabeth, esta me lembrou muito a de Patrícia Higsmith. Só que com uma trama bem mais consistente que a maioria dos livros desta. 


Há muito tempo que não encontrava um livro tão envolvente.


Já com Vingança da Maré a história é outra, sem trocadilho. Só não digo que foi uma grande decepção porque fui avisado quanto ao livro não suprir as expectativas de quem leu No Escuro. Porém, mesmo sabendo que Vingança da Maré não agradou tanto quanto o primeiro livro, fui corajoso e comprei, mas só porque achei num sebo por R$ 15,00. No início tive até que uma boa vontade com o livro, mesmo o primeiro capítulo sendo arrastado demais. A quantidade de personagens que chegaram na festa, me deixou confuso e ansioso para que fossem logo embora e o corpo fosse finalmente encontrado, dando assim início à trama. 
A prosa de Elizabeth é muito agradável e talvez este seja o único motivo para que o livro se segurasse. Ela nos apresenta uma personagem sem graça e sua incursão no mundo das casas noturnas através de flashbacks e no presente, a moradora de um barco se adaptando a essa vida e dedicando-se inteiramente à manutenção dessa sua nova moradia. Os detalhes acerca da rotina, exigências, dificuldades e vantagens de se morar num barco são bem interessantes.
Mas a trama de suspense é muito enfadonha. Fiquei curioso, é claro, em relação a desvendar todo o mistério, mas não envolvido com a trama.
Os personagens são rasos, e o único que me deixou intrigado foi o cara por quem Genevieve se sentia atraída, nem me lembro do nome. Sua aparência impressionante, unida ao seu temperamento foi o único sal nas cenas de flashback, mas mesmo assim nada fora do comum.
O grande problema, porém é que a história ameaça acontecer e nunca acontece. O livro não tem grandes viradas, tudo é muito comedido, muito morno.

Algumas situações como a perseguição de Genevieve pelo seu chefe tarado, são bons momentos do livro, mas não o tornam um bom romance.
E o final, bom, é quase uma piada. Se Elizabeth não houvesse escrito a obra prima que foi seu primeiro livro, eu teria levado pelo lado pessoal e não leria mais nada que tivesse seu dedo. Mas eis que chega Restos Humanos.


A sinopse instigante, a capa que remete ao primeiro livro (na verdade as três são capas são lindas, a Intrinseca caprichou) me deixaram curioso, mas desta vez não repeti o erro que cometi com Vingança da Maré. Desta vez decidi aguardar as resenhas e não ceder. Encontrei poucas resenhas, mas todas positivas e tenho de concordar com os leitores que o recomendaram. 
Elizabeth tem o raro dom de ser extremamente descritiva, sem ser enfadonha. E é com mínimos detalhes que ela descreve o estado de decomposição de um corpo que é encontrado pela personagem principal. Assim como a vítima, Anabel é uma mulher solitária, que divide sua casa modesta do subúrbio com uma gata e trabalha como analista criminal. Portanto, o episódio a abala não só pela cena grotesca que presenciou, mas pela comparação que faz entre a sua vida e a da vítima. Ambas são mulheres solitárias. E é basicamente disso que o livro trata, de solidão e suas derivações. Depressão, isolamento, medo e morte. 
Anabel é uma personagem bem diferente das que costumam protagonizar livros de suspense. Apesar de num trecho alguém se referir ao seu rosto como "um belo rosto", ela não é descrita como uma mulher bonita. Gorda, já perto da meia idade e sem vaidade nem carisma, Anabel é uma pessoa sozinha, desesperançosa e sem nenhuma autoestima. E é isso o que irrita nesta personagem. Chega um ponto no livro em que dá vontade de lhe dar umas sacudidas. Ela tem faro para encontrar um padrão na série de crimes que vem acontecendo no último ano em sua cidade, mas não percebe coisas que estão debaixo de seu nariz. Ela é cercada de atenções por um simpático repórter, interessado nos crimes, mas não dá bola para suas cantadas.
A investigação em si fica em segundo plano na primeira metade do livro, pois Elizabeth se empenhou em fazer um retrato psicológico profundo de seus personagens e esse é um dos fatores que tornou a história tão intensa. Ela consegue transmitir os conflitos interiores de uma forma contundente. Mas há também muito suspense. O gancho da história não é saber quem é o assassino, pois isso fica evidente logo no início, mas como ele comete os crimes. E a explicação é chocante, mas um pouco forçada, mesmo com tantos casos reais a comprová-la. Mas ficção é isso, é usar a realidade como matéria prima para bolar histórias espetaculares e isso Elizabeth faz muito bem.

12 comentários:

  1. Olá, Ronaldo.
    Adorei sua análise. Tanto o primeiro quanto o último livro da Elizabeth Haynes são fantásticos, embora No Escuro seja meu favorito.
    Até tenho vontade de ler Vingança da Maré... mas as críticas não me estimulam.

    Seu texto é muito esclarecedor para quem pretende conhecê-la. Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado José. Vingança da Mará deixa mesmo a desejar. Mas acredito que foi só um tropeço da Elizabeth. Aguardemos os próximos lançamentos.

      Excluir
  2. Oi, Ronaldo!
    Já li o primeiro livro... E depois de ler sua resenha, fiquei curioso para ler o terceiro. Acho que leria o segundo só se estivesse com muito tempo livre. O terceiro livro me lembrou um pouco o romance nacional Negro Amor, do escritor Ricardo Bellissimo. Depois dá uma passadinha no blog e dá uma lida, quem sabe você se interessa: http://www.benoliveira.com/2014/04/resenha-negro-amor-ricardo-bellissimo.html
    Sou suspeito, pois já li 3 livros do autor e gostei. Todos têm uma levada meio sombria e realista.
    Abraços! Muito obrigado por sua visita e comentário.
    Sucesso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não conhecia esse autor, mas o estilo me interessa.

      Excluir
  3. PS: Tenho um romance ainda não publicado que lembra No Escuro.
    Espero algum dia conseguir publicá-lo. Aborda o relacionamento codependente, violência e a paixão doentia.

    ResponderExcluir
  4. Ronaldo não acredito que esse livro NO ESCURO é tão legal assim! !! Gente eu sempre vejo ele super barato no submarino mais eu acho a capa muito srm graça por isso eu nunca me interessei. Sério eu vou dar um jeito de comprar ele e agora já estou com altas expectativas. Só mi responde se ele é em primeira pessoa ou em terceira? amanhã venho ver sua resposta. Falow #Guto

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É em primeira pessoa Guto. A capa realmente não é tão boa quanto o livro. Se encontrar uma oferta, não deixe de aproveitar.

      Excluir
  5. Olá Ronaldo,
    Curti muito sua resenha dos 3 livros juntos, foi bom para confrontar as nuances de cada um. Eu li o primeiro e gostei bastante, como vc mesmo viu na minha resenha, ainda quero ler esses dois da autora, gostei da linguagem dela e acho que vale a pena gastar algumas horas da minha vida lendo eles.
    Já estou seguindo, parabéns pelo blog.
    http://coisasdeumleitor.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, a linguagem dela continua sendo a mesma e foi o que me segurou em Vingança Da Maré. Leia e veja se gosta. Agora eu consegui te seguir. Abraço.

      Excluir
  6. I have just installed iStripper, so I can watch the sexiest virtual strippers on my desktop.

    ResponderExcluir
  7. Eu li só o terceiro,peguei na biblioteca o ano passado. Ouvi coisas boas sobre o primeiro livro.

    ResponderExcluir